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quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Os escritores e o café (Franklin Jorge)



Em “O Spleen de Paris”, publicado postumamente em 1869 sob o título de “Petits Poèmes en Prose”, Baudelaire glorifica o café, ao reportar-se às cafeterias e aos bulevares como arquétipos do que chama de la vie moderne. No poema “Os Olhos dos Pobres” ele flagra o que seria uma cena primordial desse novo tempo, implementado sob Napoleão III, quando o prefeito Georges Eugene Haussmann empreendeu a gigantesca reforma urbanística de Paris, donde provém o paradigma de “cidade luz”.

“[...] Ao anoitecer, um pouco fatigado, você desejou sentar-se diante de um café novo, na esquina de um novo bulevar que, ainda cheio de entulho, já ostentava glorioso os seus esplendores inacabados. O café resplandecia...” etc.

Considerado o ópio dos intelectuais, o uso do café está indelevelmente associado aos escritores. Nietzsche o abominava, pois considerava o hábito do café nocivo ao intelecto e capaz de fomentar pensamentos sombrios. Já Balzac, com o intuito de manter-se acordado, consumia bules e mais bules de café, enquanto compunha sua Comédia Humana. Sob o seu efeito excitante chegava a trabalhar durante 48 horas seguidas, sem dormir nem comer. Clarice Lispector, entre nós, excitava-se com um coquetel de café e coca-cola, como fez certa vez em Brasília, para não dormir.

Madame de Sévigné registra em uma das cartas que escreveu à sua filha o surgimento e o uso do café na corte de Versalhes. Seria, em sua opinião, apenas mais um modismo inconsequente, pois não acreditava que alguém pudesse apreciá-lo passada a temporada. Apesar de sua finura e perspicácia intelectuais, estava enganada como nunca esteve. O café viera pra ficar. E, embora a princípio restrito à aristocracia e à alta burguesia, logo irradiou-se por todo o faubourg, como diria Proust, ao contrário do chá, que somente chegou às classes populares sob a forma de meizinha.

Borges, de paladar pouco exigente e apreciador de sopas, considerava o café-com-leite uma das poucas misturas perfeitas que há. Nisso concordava o autor de “Em Busca do Tempo Perdido”, que no fim da vida se alimentava exclusivamente de café-com-leite, abrindo exceção apenas, em ocasiões especiais, para um prato de batatas acompanhado de uma taça de champagne borbulhante e evanescente. Era o cardápio que pedia invariavelmente no Ritz, para si mesmo, e o que comia em casa quando tinha convidados para jantar, aos quais obsequiava, no entanto, com o bom e o melhor em matéria de gastronomia francesa. Em não sendo avaro nem egoísta, não impunha sua dieta minimalista aos demais.

É sabido que Rimbaud, em sua temporada africana, ganhou dinheiro vendendo armas, escravos e café. Porém esta é uma parte de sua biografia posterior à sua renúncia da poesia; um dos negros parágrafos de sua biografia repleta de mistérios que não cabem numa crônica jornalística, escrita para o esquecimento.

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