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terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

A menina e o cachorrinho (Assis Coelho)


 
Quando chovia no bairro parecia que os rios migravam para as estreitas ruas. Era quando a meninada podia banhar e brincar naqueles pequenos rios turbulentos. Nem ligavam para o que vinha com a água barrenta. Era só começar a chover e saíam dos barracos com bolas velhas, bacias que se transformavam em barcos, restos de carros que se tornavam pranchas e outras improvisações que compunham o cenário de um balneário às avessas.

Ao cessar a chuva, ficavam poças de água que se tornavam piscinas improvisadas. Em uma delas estava Talita com um cachorrinho nas mãos. Esse filhote apareceu na rua, talvez abandonado pelo dono por ter nascido com um pequeno defeito em uma das patas. Ela estava rodeada de meninos e meninas que disputavam o privilégio de acariciar o pequeno animal. Todos queriam se esmerar nos afagos. Em retribuição, o recentemente batizado Totó lambia o rosto de alguns que riam e retribuíam com beijos na pele molhada do cachorrinho. Às vezes a disputa pelo afago causava alguns arranhões e tapas nas faces dos mais fracos.

Sem delongas, a paz era restabelecida e o cachorrinho era afagado e beijado intensamente.

De repente, ouviram o som estridente vindo de um trem-elétrico que anunciava a chegada de um grande circo europeu no bairro. De europeu só a placa carcomida e enferrujada “El Grande Circo Espanhol”, segurada por palhaços que faziam malabarismo para o pequeno público. Além da distribuição de doces e balas, alguns artistas se esmeravam em piruetas acrobáticas. Um velho leão esquálido e de olhar entristecido, a atração mais divulgada, desfilava em uma pequena jaula, indiferente às acrobacias e labaredas de fogos soltadas por palhaços em pernas-de-pau. Todos correram atrás do carro e deixaram o cachorrinho, temeroso de tanto barulho, na rua sozinho.

Com poucos minutos, voltaram e lembraram-se do pequeno animal que sumira. Em vão procuraram intensamente. A recente alegria metamorfoseou-se em choros e lamentos. Talita, a mais sensibilizada, recolheu-se em seu quarto aos prantos. Nos dias seguintes, recusou-se a beber e a comer. Até mesmo o adorável brigadeiro foi recusado com a indiferença de um vegetariano diante de uma gorda picanha.

Já falavam em levar a menina para ser internada em um hospital público. Atitude considerada de alto risco pela vizinhança. Era difícil de um morador da comunidade voltar de alta pra casa. Quando isso acontecia, voltava pior ou em um caixão para ser velado. Receosos e descrentes, telefonaram para a emergência. Depois de horas de espera, uma ambulância parou em frente da casa de Talita. Quase ao mesmo tempo, surgiu uma menininha com uma caixa que havia deixado por dias escondida no fundo do quintal com o cachorrinho dentro dela. Sem relutar, dirigiu-se para a casa de Talita e mostrou-lhe o cachorrinho alegre e saltitante.

E foi num salto rápido e certeiro que o cachorrinho alcançou a cama de Talita e começou uma sequência interminável de lambidas e afagos e grunhidos que fizeram Talita esboçar um sorriso e em seguida pedir alguns biscoitos. Enquanto a menina compartilhava os biscoitos com o animalzinho, começou a sorrir e caiu num sono profundo, abraçada ao cachorrinho. A mãe, agradecida, chegou ao portão e gritou pra vizinha que telefonasse cancelando o pedido da ambulância.

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