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terça-feira, 13 de março de 2012

A erva boa de Roberto Pontes (Nilto Maciel)

(Poeta Roberto Pontes)


Há muito e muito tempo, numa cidade perdida nos confins dos trópicos, fui convidado por um louco a conhecer um amigo dele. Naquele tempo, eu me entusiasmava com ‘a divina loucura humana’, de que falava José Alcides Pinto, o mais doido dos poetas que conheci. Talvez fosse o ano de 1975. Encontramo-nos, eu e meu camarada maluco, num prisco largo, antes chamado de Feira Nova. Tem certeza de que quer conhecer o bardo? Tenho. Então vamos. E fomos. O tal menestrel nos recebeu com sorrisos, água gelada, palavras amigas e livros. E de seu escritório saí com um exemplar de Lições de espaço: Teletipos, Módulos & Quânticas, edição de 1971.

Passados 37 anos, bebia eu suco de manga, mamão e caju, numa lanchonete do Shopping Benfica, nesta amantíssima cidade de Fortaleza. Pensava nas loucuras que hei cometido ao longo de 67 anos de trópicos e tropicões. Súbito, aquele vate a quem meu insensato colega me apresentara, de pé se postou diante de mim. Sorria, jovial como sempre, e me cumprimentava. Olhei de baixo para cima e me estarreci. Ergui-me, lépido, e abracei Roberto Pontes. Sentou-se, falamos do presente (sucos à mesa, sulcos no rosto, socos na cara, pontapés no traseiro). Por onde anda aquele lunático do Carlos Emílio? Não fosse ele, não nos teríamos conhecido naquela manhã.

Antes de nos despedirmos, quis saber se eu conhecia seus mais recentes livros. E mos prometeu. Esta semana, após uma chuva generosa, fui ao jardim (do meu éden), atrás de minha eva (que anda sumida entre trepadeiras e taprobanas), e no chão encontei um envelope. Dentro dele, dois livrinhos: Hierva Buena/Erva Boa (Fortaleza: Premius, 2007, e Casa da Amizade Brasil/Cuba) e 50 Poemas Escolhidos pelo Autor (Rio de Janeiro: Edições Galo Branco, 2010).

Para matar a saudade, reli aquele antigo Lições de Espaço (que era o segundo, pois o primeiro se intitula Contracanto, de 1968) e minhas anotações (estampadas em jornais), que transcrevo (parte): “O poema trata do espaço em relação ao homem e divide-se em três tempos ou livros. No primeiro, o espaço é aquele do poeta – o espaço nordestino, seco quase sempre, onde ‘o mormaço cose ossos contra os nervos’, dividido em latifúndios, onde o lavrador, ‘o safrador/ lavrando/ decifra o dano, conhece o demo e o dono’ do latifúndio habitado por seres de um tempo medieval. O segundo livro trata de um espaço científico, o estudado, o conhecido pelos cientistas, desde Euclides, passando por Einstein, um espaço intermediário no tempo – o Nordeste sendo o princípio, o alfa; e o cosmos desvendado pelas naves sendo o fim, o ômega. São definições e conceitos poéticos do universo, do espaço. Filosofias do espaço. O último livro é como a História da conquista hodierna do espaço. São notícias, teletipos em ordem cronológica a partir do ‘cavalo Sputinik’. Em vez de numerados, como nos dois primeiros livros, os poemas deste são titulados, embora com o auxílio de números: módulo 1, teletipo 1957 etc. Encerra o livro o poema ‘finito/infinito’, síntese da odisseia do homem no espaço, hino ao homem moderno: ‘sou um rei a cavalgar na luz’”.

Passei o resto da semana a ler Hierba Buena. Uma delícia! Tanto quanto suco de mamão, manga e caju. Deliciosa em versos curtos e objetivos: “Vivan el pan y esta tierra, / Y también el pueblo libre / Que bebe la hierbabuena, / El ramito de esperanza, / La hierba santa de Cuba”. Peça de viagem, de observações, de homenagens, de profissão de fé na poesia, na vida, no ser humano melhorado, num mundo sem guerras. Fruto de viagem de Roberto Pontes a Cuba, em 2007, como explica no prefácio: “Estive durante seis dias na pátria de José Marti”. (Também por lá andei, em 2000, porém não consegui escrever nenhum verso.)

O outro volume traz nas abas reflexões de Márcia Pereira: “A obra poética de Roberto Pontes retrata o mundo contemporâneo em convulsão: entretanto, mais que denunciar, propõe o desejo da construção de pontes líricas, como em ‘Finito/Infinito’ e em ‘Louvação’”. A seleção se inicia com “Contracanto” (título de poema e do primeiro impresso do autor): “Estou em meu poema / Como os amantes se estão. / Moro nas vogais e consoantes / Circunflexos / Ós e xizes cantantes”. Vejam que ousadia! Era o tempo do Grupo SIN (de que fazia parte). De Lições de Espaço se reeditaram três composições, às quais me referi naquela notinha de 1975 (?). De Temporal transcrevo “Raízes”: “As raízes explicam sempre as folhas / adidas aos ramos projetados, / e nelas, a essência bruxuleia. / Da sua duração subterrânea / vem o vago e o complexo das plantas / onde apanho o real pelos cabelos”. Parece descrição de botânica? Não. É poesia de profundidade. Sem palavras a mais, essencial, natural. De quem conhece não apenas o vocabulário, a sintaxe e as normas da gramática e da poética, mas, sobretudo, a forma e o conteúdo dos seres (humanos, vegetais e outros mais).

Entre chuvas e trovões, li a antologia. De Memória Corporal, de 1982, são seis composições. Nelas o jogral está mais lírico do que cosmogônico. Cicia ao ouvido das musas: “Quando tua pele de pêssego e veludo / entre tantos e lânguidos abraços / faz vibrar seus acordes de campina / os pássaros estacam em seus voos, / as folhas do limão se reverdecem, / as gotas se evaporam no espaço”. Não digo que Roberto Pontes está aqui ‘mais poético’ do que nas coleções anteriores, porque seria dizer tolice, pois a poesia habita os mais variados assuntos ou temas.

Seguem-se versos de O Verbo Encarnado, de 1996; Breve Guitarra Galega, de 2002; e Hierba Buena / Erva Boa, de 2007. Há ainda peças colhidas de antologias e obras esparsas publicadas em jornais, folders, pôsteres, revistas, etc. Em todos, o compromisso com a poesia e a vida. Não com a poesia oca, palavrosa, pomposa, mas a poesia enxuta, compreensível (sem ser vulgar), feita dos “elementos estéticos indispensáveis ao estatuto do texto literário”, como o vate inscreve no prefácio de Hierba Buena. Por derradeiro, um quarteto do soneto “A quem não sonha” (a lembrar Fernando Pessoa): “Pequena é a alma que não sonha / E não tem nada mais que o entendimento. / Não é alma, é poço de peçonha / A contaminar de veneno o vento”.

Ao concluir a leitura, tive vontade de beber suco de mamão, manga e caju, de andar pela Praça do Ferreira e de me deleitar de novo com a poesia de Roberto Pontes, essa erva boa.

Fortaleza, 12 de março de 2012.

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