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terça-feira, 24 de abril de 2012

Carta a Nilto Maciel (W. J. Solha)

(Quadro "A Sétima Praga", de John Martin)


Nilto, acabo de ler um de seus Contos Reunidos - Volume II (Editora Bestiário, 2010) que - entre tantos outros - muito me fascinou: A Pálida Visitante, originalmente publicado em 1999, no livro Pescoço de Girafa na Poeira (Fundação Cultural Distrito Federal). Lembrou-me que, no final de meu romance Relato de Prócula (A Girafa, 2009) faço toda uma série de citações falsas, de autores falsos, para criar, no leitor, uma vinculação sólida com a vida real, para o falso relato que crio da mulher de Pôncio Pilatos, em que ela teria dado sua versão - chocante - de testemunha ocular dos fatos que teriam gerado a paixão e morte de Cristo.

O macete vem de Borges, o mestre da inexistente erudição, com suas famosas fictícias citações de verbetes de enciclopédias mais fictícias ainda. Pois bem: eu já comentara com você que seus reportes, no Literatura sem Fronteiras, de encontros com pessoas em sua casa, onde acontecem curiosas conversas sobre livros e seus autores, sempre deixam o leitor na dúvida se se tratam de diálogos verídicos... ou não. Vai daí que encontro no conto A Pálida Visitante um uso extremamente criativo do macete borgiano, tão convincente que fui checar suas fontes, pra concluir - impressionado - que nenhuma delas é real. Vê-se que seu ponto de partida (não mencionado no texto e, talvez, até, inconsciente) foi a série de mortes misteriosas de todos os envolvidos na descoberta do túmulo de Tutankâmon, no Vale dos Reis. O foco escolhido - a praga de gafanhotos que se lê no bíblico livro do Êxodo 10.14 - já teve como ponto de partida uma tradução... suspeita, pois você cita: "E subiram os gafanhotos por toda a terra do Egito, e pousaram sobre todo o seu território: eram mui numerosos; antes destes nunca houve tais gafanhotos, nem depois deles virão outros assim". Não sou nenhum latinista, mas a Vulgata conta claramente: "quae ascenderunt super universam terram Aegypti et sederunt in cunctis finibus Aegyptiorum innumerabiles quales ante illud tempus non fuerant nec postea futurae sunt"*. Ou seja: tão numerosos como nunca antes nem depois. Nada de serem... diferentes. Vai daí que, assim como Freud levantou toda uma teoria sobre Leonardo a partir de uma tradução errada da palavra italiana "nibbio" - que significa milhafre - para abutre, que ele vinculou ao deus egípcio com forma de urubu - Mut - que ele associou a mutter - mãe em alemão, você - maliciosamente - deflagra toda a sua fantasia - em meio à já enorme existente fantasia bíblica - na pretensa esquisitice dos tais insetos. Aí faz seu biblicista tcheco Gustav Hus - autor de O Egito e os Hebreus - garantir que tal espécie estaria mencionada numa versão da Bíblia, tendo sido extirpada "por volta do terceiro século da era cristã". Segundo tal sábio, "os insetos teriam sido transmissores de uma doença, espécie de lepra", e é do que você faz outro erudito - Thorbjörn Ling, autor de A Literatura do Egito Antigo, morrer. Enfim: é uma delícia ver tal virtuosismo que chega a ser maneirista, num conto. Grande abraço por mais esse gozo mental, Nilto.
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* Subiram, pois, os gafanhotos sobre toda a terra do Egito e pousaram sobre todos os seus termos; tão numerosos foram, que antes destes nunca houve tantos, nem depois deles haverá.
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