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quarta-feira, 4 de abril de 2012

Quando os dedos viram macarrão (Renata Holanda)




Todos os dias entrando em um ambiente inóspito. Inóspito? Já nem sei mais. Uns dizem que sim, outros que não. Só se sabe que ali dentro há muito sofrimento, e as pessoas evitam entrar. Outras desmaiam. O corpo tem cada artimanha... Do meu ponto de vista, passos, pra lá e pra cá. Esperando que alguém acorde, esperando que alguém ressuscite pra falar comigo. Do ponto de vista de outros, mais passos, e também paradas. Explicações, orientações, agulhadas, cortadas, alfinetadas. Mexa a mão esquerda. Agora mexa o dedo indicador da mão direita. Como é seu nome? Onde você mora? É casado? Quantos filhos tem? Clichês.

Mas do ponto de vista ainda daqueles terceiros, aqueles que ali permanecem, e muitas vezes chegam a morrer ali – literalmente! – uma orientação se destaca. Dona Rita, não coma o oxímetro! Isso não é pra senhora comer. Isso tá insosso, diz ela. É pra estar insosso mesmo, dona Rita. Pare de comer o oxímetro! Aproximo-me daquela criaturinha linda, pequenininha pela força inversa do tempo. Nascemos de fralda, à fralda voltaremos.

Chego mais perto e ela continua suas degustações do objeto insosso. Porém, a fome é tão grande que o insosso passa a ser algo bom. Dona Rita, a senhora não pode comer o oxímetro. A senhora me entende? Mas isso aqui tá insosso! Responde com tom de quem fala de algo óbvio. Afinal, quem é burro o bastante para não entender que o oxímetro realmente estava insosso?

Pois bem. Vamos jantar. O que a senhora quer? Ovo. Vamos comer então. Chomp, chomp, chomp, até enjoar. Satisfeita? Não. Agora quero feijão. Feijão e um pouco de arroz, porque um só presta com o outro. Então vamos comer mais um pouco. Sem problemas. Isso... Coma o que quiser.

O oxímetro vai e volta da boca. Vai e volta, sem cansar, embora o esforço estivesse sendo grande. Ela não cansou, mas o oxímetro sim, caindo de seu dedo. Sobrou o quê? Os dedos da estagiária ali perto. Estagiário é para essas coisas mesmo. Os dedos vão e voltam. Vão e voltam. O que a senhora está comendo tanto, dona Rita? Parece que esse está gostoso, né? Isso aqui é macarrão. Ah, bom. Então coma mais um pouco de macarrão. Está bom? Vamos tomar um pouco de água agora para fecharmos nosso jantar? Gulp, gulp, gulp.

Embora dona Rita já tivesse comido muito e bebido muita água, a fome continuava. Nossa! Que fome é essa? De viver talvez. Com aquela faixa verde presa ao punho, o que a impedia de jantar sossegada, a fome parecia só aumentar. Coisa chata que não me deixa viver!


Pontos azuis aparecem nessa hora, quebrando o agradável ambiente de comes e bebes criado por mim e dona Rita. Vamos tirar sangue dela, certo? Certo. Ou errado. Ou... Nada. Embora tanta incerteza povoasse minha cabeça, percebi que uma coisa era sempre certa: pra morte não tem jeito. Ainda bem.

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