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quinta-feira, 3 de maio de 2012

As cores que constituem o Ser (William Lial)



O recente livro de contos de Nilto Maciel, Luz vermelha que se azula, traz uma coleção de textos que abordam os mais diversos temas e comportamentos do ser humano; transitando entre o humor e o drama de realismo fantástico de muitos textos.

Dividido em três partes, que possuem contos formados por intenções e caminhos diferentes, o livro leva o leitor a experimentar uma gama de sensações estéticas diferentes, indo da leveza do riso ao desconforto da crueldade humana, mas sempre deixando em aberto a possibilidade a esse mesmo leitor de refletir sobre o humano e seu ser-no-mundo.

Na primeira parte, segundo explicação do próprio autor na introdução do livro, os “Contos acolhidos”, como ele nomeia, são frutos exclusivos da inspiração. Esta é a parte mais inventiva, dotada de variados temas, indo desde questões pessoais, familiares, a gravidades como abusos sexuais cometidos por padres ― e todos com um toque de realismo fantástico. No primeiro conto, “Os outros”, por exemplo, encontramos uma semelhança com o romance Um, nenhum, cem mil de Luigi Pirandello: um homem que se olha no espelho e vê-se como outro, como acontece no romance do italiano Pirandello, onde um homem certo dia olha-se no espelho e vê um nariz diferente do que costumava ver, desencadeando em si uma série de avaliações filosóficas de personalidade. Porém, no conto de Maciel, o personagem vai mais longe: os vários de si que ele identifica, e são muitos, possuem nomes distintos, como os heterônimos de Fernando Pessoa, e Rafael, o protagonista, não só vê, mas fala com seus “outros eus”: “Passei alguns minutos a conversar com ele” (p. 14), diz Rafael sobre sua parolagem com Bernardo, um dos “de si”. No final das contas percebemos que todos são iguais a ele, fisicamente, e que as mudanças se dão apenas em leves características expressivas: traço de preocupação ao redor da boca em um, uma profundidade abissal no olhar de outro etc.

Ainda nessa primeira parte, há um conto curioso sobre o triangulo Capitu, Bentinho e Escobar, de Machado de Assis. “Dez libras esterlinas” faz uma espécie de defesa, ou resposta às acusações de traição sofridas por Capitu. O conto justifica a proximidade dela com Escobar através de um acordo de negócios que visava transformar dinheiro em ouro para valorizá-lo, proximidade que acabou sendo o começo dos ciúmes de Bentinho ― que não sabia do plano do ouro ―, além de sua inveja inveterada de Escobar. O conto, em tom poético e delicado, mostra que Capitu vivia em solidão e angústia.

Mas o texto de maior toque poético nessa primeira parte é “Plantação de vento” ― o protagonista, Elísio, já tem no seu nome uma referência aos ventos Elíseos. Elísio e seu pai caçavam ventos ― e aqui se encontra uma boa imagem de realismo fantástico. Mas os ventos são mais do que ventos, são representações do amor e das paixões. Os ventos representam a força, vulnerabilidade e efemeridade das paixões e do amor, com suas respectivas diferenças, como o que sofreu seu pai,

Depois um vento forte o foi levando [o pai de Elísio] aos poucos, até desaparecer completamente de meus olhos. Minha mãe dizia: esse vento, meu filho, é Marina. Ele me trocou por ela. E te abandonou também, levado por essa tempestade de saias e sorrisos (p. 58).

Outros contos possuem traços bastante espirituosos como “A mansão” que trata de uma família, na qual três irmãos gêmeos, mas bastante distintos em comportamento, possuem nomes, no mínimo, curiosos ― Desidério, Motezuma e Antonio. Mas o “pai e mãe os chamavam de Dé, Mon e Nio ou Nho” (p. 96). Assim, “quando os pais os queriam juntos, fosse para as refeições, o sono ou o despertar, a mãe chamava os três ao mesmo tempo, como se pronunciasse um só nome: De-Mon-Nho ou De-Mon-Nio” (p. 96). Muito criativo.

Além desses, vários outros contos dessa parte merecem destaque, como “A constante pompa dos seres”, onde um cego “vê” o mundo com cores poéticas.

Já a segunda parte, intitulada de “Contos de memória”, tem textos inspirados na infância do autor, portanto, possui um caráter mais intimista que a parte anterior e a posterior, porém, conservam o tom engraçado do restante do livro.

Algo que se destaca também no livro são seus temas triviais, mas não vulgares. São, na verdade, temas que tratam de assuntos corriqueiros que podem fazer com que muitos leitores sintam-se próximos de seus personagens, por encontrar alguma semelhança com histórias vividas na sua própria infância, como no conto “Doidinho”, que lembra inclusive situações vividas por muitas crianças subjugadas na infância por meninos maiores e mais fortes. Nele um garoto afasta e ameaça a todos com um chicote que traz sempre consigo: “Parecia-me enorme, descomunal, gigantesco, ameaçador, goliardo. Sentia-me pequenino, frágil, impotente, davídico” (p. 119), diz o narrador. Na verdade, o conto nos deixa entrever que o mesmo menino era solitário, talvez sofresse também de algum problema mental ou, possivelmente, sua dificuldade em se relacionar provocasse o comportamento perigoso que praticava: “Na sua solidão, coitado, não brincava com nenhum outro menino, com nenhum outro brinquedo. Sua única diversão começava e terminava no ar, no intérmino movimento das mãos, na insensatez dos gritos, no açoitar o pó” (p. 120).

Uma série de figuras poéticas de linguagem corroboram com a visão do menino violento e enriquecem o texto com um ar mais literário e menos memorial, tais como “Se ele estivesse a flagelar o vento” (p. 119, grifo meu), “Língua de fogo e vento cortou o céu feito soluço, desceu sobre a esquina das guerras e arrebatou o doidinho para as estrelas” (p. 120, grifo meu), “Doidinho dormia numa rede de sombras” e “Ele sumiu ou se tragou em sonhos” (p. 121, grifo meu).

Na terceira e última parte, “Contos da História”, inspirados nos grandes nomes da história mundial, seres ilustres, quase sempre engraçados ― alguns ridicularizados ―, transformados em personagens literárias, retratados como se a história desses homens fosse contada dos bastidores, revelando aquilo que nunca fora relatado antes. Contudo, muitas dessas histórias ― absurdas em vários casos ― acabam revelando-se apenas sonhos de possíveis consciências pesadas.

Os contos dessa parte, em sua grande maioria, são bastante curtos, tomando uma página e meia, no máximo. Uma característica comum também são as frases curtas, repletas de ponto-final, contudo, alguns contos são extremamente poéticos, possuindo um toque delicado e com belas figuras de linguagem, outros são bastante espirituosos, como “Apenas um episódio”, no qual Alfred Hitchcock sofre uma noite de pavor, digna de seus filmes de suspense; ou “Caro rosto”, com a personagem Tonsila do Amaral que, como Tarsila do Amaral, também era artista plástica e foi vítima da ditadura brasileira; ou “Entre dançarinos”, com uma dançarina do balé de Moscou que chamava-se Anna Karenina; “A invisibilidade das pulgas”, onde Darwin vive seus últimos anos de vida a caçar pulgas na barba, porém sem deixar que ninguém a raspe, pois as pulgas seriam parte de uma nova teoria, “tão revolucionaria quanto à da evolução das espécies” (p. 174); ou ainda os dias de Jesus jejuando pelo deserto, em “Os delírios de um jovem judeu”, quando encontra uma mulher, talvez Maria Madalena, nua a lhe tentar o desejo ― mais uma tentação de Satanás para dominá-lo ―, mas Jesus descobre o embuste e morde “uma pedra. A fome provoca delírios” – fome de refeição ou de mulher? (p. 200); e por fim, a “verdade” sobre o nascimento de Caim, filho de Samael que se disfarçara de cobra para, com seu veneno, desmaiar Eva e possuí-la, aplacando seu desejo por ela e fazendo-a dar-lhe um filho (o que explicaria a maldade em Caim).

Enfim, um belo livro de contos construído com as mais diversas temáticas que abrangem a humanidade, e, acima de tudo, capaz de entreter e dominar a atenção e a curiosidade do leitor pelos personagens e pelo enredo, a cada novo conto que se apresenta.

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