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terça-feira, 8 de maio de 2012

Os escritores e a crítica – 3 (Franklin Jorge)

(Charles Baudelaire)

(continuação)
Disse Baudelaire que a principal objeção a ser feita à crítica seria a notoriedade que às vezes confere a alguns artistas contemporâneos. Excetuando-se isso, por seu caráter analítico e investigativo, tem tudo a ver com a sua ojeriza à arte como mera reprodução da natureza. Propositor de uma crítica “apaixonada, parcial e política”, Baudelaire entende, porém, que ao público só interessa o resultado.

Contrário à rigidez dos sistemas preestabelecidos, passíveis de ridículos, defende em suas “Curiosidades Estéticas” e “A Arte Romântica”, nas quais reuniu o que escreveu sobre a arte e os artistas, especialmente sobre os artistas plásticos do seu tempo, como o gravador, desenhista e aquarelista Constantin Guys, segundo ele o paradigma do pintor da vida moderna, que anteviu o belo como promessa de felicidade e o expressou, premonitoriamente, em seu desdém aristocrático, através do “homem das multidões” imerso na pobreza e na banalidade da vida quotidiana, admiravelmente debuxado em seu caráter transitório, como o resultado da razão e do cálculo que devem estar presentes na criação.

Baudelaire parece justificar plenamente a ideia de que o poeta é o melhor crítico, de que é exemplo entre nós Murilo Mendes, Ledo Ivo e Walmir Ayala, que se utilizaram da obra alheia para exprimir suas próprias ideias e dar curso, de maneira pensada e refletida, ao tumulto da imaginação. E, ao fazê-lo, mostraram-se como críticos em ação, ou seja, de maneira apaixonada, parcial e política, segundo a lição do criador do conceito de modernidade, Baudelaire, um dos mestres de Proust, que, um pouco antes de morrer, escreveu seu último texto sobre o autor das “As Flores do Mal”, num tributo pré-agônico àquele que encarnava de maneira integral e inequívoca um dos seus modelos plenamente capazes de aproximar o espírito humano do mistério da criação.

Baudelaire entendia a crítica de um ponto de vista mais amplo. Uma crítica que não encontrava modelos entre os seus contemporâneos, pois declarava-se, de maneira insolente – à maneira de um dândi que vê na injúria uma arte –, uma crítica parcial, apaixonada e política, em profundo desacordo com a sua habitual reivindicação de imparcialidade e isenção algo hipócritas, como parte podre de um processo que as negava na prática.

Para Baudelaire a ideia de imparcialidade parecia imoral e escandalosa aplicada à crítica, que deveria ser, antes de mais nada, a expressão do individualismo em ação, não podendo, portanto, aplicar-se à criação sob pena de restringi-la e de trair a sua própria essência de produto construído pelo intelecto. Uma cosa mentale acima das conveniências e dos preconceitos e, como tal, insubmissa e rebelde a preceitos redutores.

Como Balzac, Baudelaire crê que a imparcialidade resulta da abstenção e da apatia, não constituindo, por isso, em mérito nem virtude. Tomar partido, como uma manifestação de compromisso com a vida, eis, em síntese, o primeiro dever do crítico cônscio do que cria, sem temer desagradar interesses nem suscetibilidades mórbidas. Do crítico, não como comentarista ou registrador de fatos literários, mas como alguém que dialoga com a obra, que a interroga, investiga e a enriquece, por fim, com uma leitura que se beneficia superiormente do conhecimento posterior.

(Continua)