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sexta-feira, 4 de maio de 2012

Um romance extraordinário (João Carlos Taveira*)

(Interior de Minas, Galeria de Dona Minúcia, http://www.flickr.com/photos/helenajansen/archives)



Quando chegaram às minhas mãos os originais do romance de costumes de Josefina Duailibi Mahfuz, nem pude acreditar no que estava vendo, no que estava lendo. Esse livro levou mais de vinte anos para ser escrito e, mesmo assim, não teve a oportunidade de ser publicado. E certamente não mais o terá, pois sua autora faleceu no interior de Minas há mais de sete anos e a família nem quer saber do assunto. Pelo menos por enquanto.


O país do faz de conta, escrito na terceira pessoa, numa linguagem tensa e avassaladora, narra a história de uma mulher que, impossibilitada de ter filhos, resolve adotar crianças pobres da periferia de uma cidade média, situada num país imaginário da América do Sul. Na verdade, são muitas histórias paralelas que se cruzam e se distanciam no tempo e no espaço para, ao fim e ao cabo da narrativa, se juntarem num só emaranhado de situações plausíveis e, não raro, bem próximas da realidade: o desfecho inexorável e surpreendente ultrapassa qualquer tentativa de compreensão. Embora apresente personagens e cenários deliberadamente atuais, trata-se de um livro de difícil classificação e quase impossível de ser analisado. Mas tentemos.

Aurora Solrac, professora de piano e ativista política, chegou a casar-se pelo menos três vezes, fora duas tentativas frustradas de relação à la Sartre e Beauvoir — o que lhe causou problemas com a polícia e, consequentemente, com a justiça de sua cidade. Pois bem. Aos quarenta e sete anos, resolve pendurar as chuteiras amorosas e adotar três crianças de uma favela próxima. A decisão, entretanto, não foi tomada antes de consultar seus velhos pais, que, embora apreensivos e descrentes, concordaram com o ímpeto da filha única. Documentação reunida e aprovada pelas autoridades competentes, dentro de três meses os pequenos puderam se transferir para a casa da nova mãe. Em resumo: começam aí dramas e conflitos, em cenário surreal e fantasmagórico, narrados com frieza e precisão sintática. Um verdadeiro soco no estômago.

A autora, utilizando-se da tessitura de uma aranha, faz o tempo passar devagar, contando outras histórias paralelas e pintando novos quadros, em que transporta o leitor para situações sempre inusitadas. O país do faz de conta não lembra Cem anos de solidão, mas se aproxima do misterioso universo de García Márquez pelo que traz de informações e representações simbólicas da condição humana, ao descrever um painel psicológico digno dos melhores prosadores do século XX. O livro trata de guerras conjugais, litígio por posse de terra, desavença familiar por espólio, corrupção política, homossexualismo e, de maneira soberba e cristalina, luta pelo poder — em todos os seus desdobramentos e especificidades. E mergulha também nas relações pessoais dos personagens, desnudando um quadro perturbador de tragédias que deságuam em crimes hediondos e todo tipo imaginável de perseguição, em que a inveja é sempre o fio condutor de todos os percalços e atribulações.

Dividido em seis partes e 66 capítulos, O país do faz de conta consegue a proeza da poesia em sua prosa tensa, contida e ritmada, e o milagre do permanente interesse pela leitura, a cada frase, a cada parágrafo, a cada capítulo. As situações e tipos descritos apresentam consistência e verossimilhança. São seres marcados por distúrbio psíquico, por desvio de conduta e por irremediável fracasso social. E todos de carne e osso. Poucos volumes romanescos de mais de 800 páginas conseguem efeito literário como esse. Aliás, um feito para poucos narradores contemporâneos. Salvo raríssimas exceções.

Há no capítulo 13, da segunda parte do romance, descrições pormenorizadas de questões marcadas pelo sentimento da inveja e do despeito. (E aqui o narrador, malabaristicamente, destrincha os dois substantivos com a lente da clareza e os conhecimentos da filosofia.) Há no livro referência também ao escritor ítalo-argentino José Ingenieros sobre a mediocridade sistêmica a pairar sobre a humanidade, que vegeta sem nenhuma possibilidade de salvação. O homem é, antes de tudo, um animal, o mesmo animal de Neanderthal, embora hoje use computador, trafegue em automóveis possantes e voe em aviões a jato. Segundo análise feita a partir do discurso livre indireto da narrativa josefiniana, poucos, pouquíssimos homens — aqui tratados de “lúcidos”, “luminares”, “visionários” — conseguem, com seu trabalho, sua fé ou sua arte, transformar o curso da história, o fluxo da vida e a face do mundo, revolucionando conceitos, práticas e mesmo culturas milenares, para o bem da maioria de seres que caminham sem nada perceber, tamanha a cegueira coletiva que os condiciona e aliena.

O narrador não deixa, entretanto, de apontar, nas entrelinhas, aqueles outros seres que, meio vivos, meio mortos, fingem ser o que de fato não são e que, certamente, jamais serão: homens que não criam nada e nada fazem, a não ser corromper, matar, roubar, futricar e viver na sombra de alguns luminares, só por ter-lhes um dia engraxado as botas, esfregado as costas, ou servido de fantoches em suas caminhadas extraconjugais, nalgum momento de suas vidas. O clímax desse episódio retorna noutra história, lá no penúltimo capítulo, em um conflito autoral pela disputa dos originais de um livro secreto, cujo prefácio fora grosseiramente arrancado, não se sabe como, quando e por quem.

A falsidade e o ressentimento tiveram tratamento quase cirúrgico em três capítulos do livro (17, 36 e 64), justamente quando a autora se detém no complexo de inferioridade. Dessa anomalia estritamente humana, vão surgindo, aqui e acolá, infelizmente, nuanças de uma convicção cada vez mais cristalizada. Homens e mulheres protagonizam cenas ridículas repletas de significados supraliterários. Em contraposição a um conjunto de situações ficcionais de cunho fantástico, o quadro exposto quase toca o real, quando leva o leitor a mergulhar numa análise das similaridades de suas próprias vivências. Pululam nestas páginas personagens que fingem dar aquilo que, na verdade, estão a subtrair de alguém supostamente necessitado de alguma ajuda ou cuidado — não se pode admitir nunca a superioridade intelectual de quem se revela contrário aos apelos da etnia e ao determinismo genético. Naturalmente, as comparações são inevitáveis.

As referências que tratam da inveja, caracterizadas nos capítulos 13 e 52, trazem-nos uma constatação terrível: a inveja — ao lado do despeito — é um sentimento de inferioridade quase infantil. O grande perigo reinante, embora subterrâneo, é o despeito. Na inveja, deseja-se um objeto, um cargo, uma posição e vive-se, de fato, a tormenta de não tê-los; no despeito, mais avassalador e cruel, além de desejar-se o objeto, o cargo, a posição alheios, busca-se a eliminação do outro, social e fisicamente, numa tentativa desesperada de tomar-lhe o lugar cobiçado e colocar/vestir sua máscara na face despersonalizada pelo distúrbio psíquico e má formação de caráter. Retrato bem característico de nossos dias.

Josefina Duailibi Mahfuz, aqui e ali, descreve uma paisagem humana hostil sendo devastada pela fraqueza e apatia de uns e pela ganância e corrupção de outros. Devido à omissão do Estado e de carcomidas leis, suas criaturas não conseguem vislumbrar, em curto prazo, uma solução para o impasse de suas vidas mesquinhas e sem sentido. Por isso, os personagens do livro, espectrais, em sua caminhada para o aniquilamento, vão se diluindo em autômatos, mortos vivos ou sonâmbulos, ao deixarem na cidade um rastro de desolação e uma aparência de abandono. Não se pode dizer, no entanto, que seja uma cidade fantasma, após a avalanche de desgraças que se abateu sobre a sua população. Os recursos linguísticos utilizados pela escritora, por diversos, vão a pouco e pouco enriquecendo a trama com sutilezas verbais as mais insólitas e surpreendentes. Um alívio para as nossas aflições silenciosas.

Nos capítulos 27 e 43 há referências explícitas também sobre o ciúme. Em cenas meticulosas, plasmadas com o esmero artesanal de um escultor impressionista, surge um emaranhado de intrigas e dissimulações. Um exemplo será bastante. No último diálogo entre enteado e padrasto, há frases lapidares sobre esse sentimento: — “Deixa-me em paz, Orestes. Não vês que estou em outra? – argumenta o jovem Fernando, tentando se desvencilhar do abraço do padrasto”. — “Se não me queres mais, não devias me enganar assim tão abertamente. Nem por isso deixo de te amar, mesmo sabendo da existência de Sandro. Mas saiba de uma coisa: se não ficares comigo, não ficarás com mais ninguém – esbraveja com fúria o esposo de Juliana.” E, após dizer isso, saca do revólver e, cego de cólera, atira diversas vezes contra o rapaz, matando-o friamente. Esse gesto faz pensar que o ciúme de um homem por outro homem é mais compulsivo e neurótico do que o ciúme de um homem por uma mulher, ou o ciúme de uma mulher por um homem ou por outra mulher. E isso, não só na ficção de Josefina Duailibi Mahfuz, como também na vida real, tem gerado desavenças e desencontros na rotina de muita gente, com resultados assustadores e consequências desastrosas. Os jornais têm estampado manchetes dessa natureza, cotidianamente, sem nenhum pudor.

Ao fim do sexagésimo sexto e último capítulo, lá pela página 880 desse livro apocalíptico, as trinta e três histórias, inicialmente díspares e independentes, se fecham uniformemente como por encanto: Aurora Solrac, rediviva, contempla o sonho de ser mãe com uma ponta de decepção, e se vê desamparada frente ao mistério da vida, totalmente entregue à impotência e à desesperança. Mas, do seu desconforto existencial, ainda encontra força para proferir uma frase extraída e adaptada do relatório final de Albert Einstein sobre o famoso “Manhattan Project”, que há de ficar martelando por muito e muito tempo na cabeça dos leitores...
Brasília, 20 de abril de 2012.

* João Carlos Taveira é poeta e crítico literário, autor de vários livros publicados, entre os quais Arquitetura do homem (poesia) e A arquitetura verbal de Nilto Maciel (fortuna crítica).

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