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quarta-feira, 13 de junho de 2012

As moscas em minha mesa são as mesmas que engordam na pele decadente de velhas relíquias de guerra (Dércio Braúna*)




O dia avança sobre os túmulos
onde os mortos germinam;

avança
sobre velhos pensionistas de guerra
           guardados
           em seus jardins
sentados
à claridade
                    folheando páginas de Baudelaire
                                                               ou Rilke.

O dia abraça essas coisas
                     que morrerão
enquanto
nos museus,
intactas,
fraturas de tempo expostas
                   (os velhos pensionistas de guerra ―
                                      heróis
                                      ora cobertos de moscas―
                  dentro delas, eternos, em papel e tinta)
adestram os vivos
com seus belos fósseis.

O dia avança
enquanto sobre minha mesa
marcha um exército
de moscas
                  (as mesmas que engordam
                  na pele decadente
                  das velhas relíquias de guerra)
enquanto escrevo
uma epopéia ―

                          sobre uma (feliz) humanidade
                          de cães.



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*Dércio Braúna é historiador, poeta e contista, autor de O pensador do jardim dos ossos(Expressão Gráfica e Editora, 2005), A Selvagem Língua do Coração das Coisas (Realce, 2005), Metal sem Húmus (7 Letras, 2008), Uma Nação entre dois mundos: questões pós-coloniais moçambicanas na obra de Mia Couto (Scripta Editorial, 2008), Como um cão que sonha a noite só (7 Letras, 2010). Contato: derciobrauna@bol.com.br.

- Outros poemas de Dércio Braúna você encontra aqui e aqui.

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