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quarta-feira, 27 de junho de 2012

A fortuna crítica de Nilto Maciel (João Carlos Taveira*)



Recentemente, ao reunir o material crítico sobre a ficção e a poesia de Nilto Maciel, surgiu de chofre uma dificuldade: qual o critério a ser adotado para apresentar os artigos, resenhas e ensaios publicados sobre a obra do autor de A rosa gótica?

No primeiro momento, optou-se pela importância dos nomes dos articulistas, mas isso foi logo rejeitado pelo despropósito da ideia. Em seguida, veio à baila a compilação do volume por ordem alfabética dos textos, solução que pareceu também meio estapafúrdia; portanto, logo descartada. Que fazer, então?

Depois de alguma reflexão, o óbvio mostrou a sua face. A melhor solução foi aquela que privilegia a ordem cronológica de publicação dos livros, desde a estreia de nosso homenageado até data bem recente. Assim, poder-se-á acompanhar a evolução estilística e o interesse da crítica na consolidação da obra de um escritor cuja trajetória, sem recuos, é das mais promissoras no campo da moderna literatura brasileira.

E foi assim que nasceu e ganhou forma o livro A arquitetura verbal de Nilto Maciel, que, não sem uma ponta de orgulho de minha parte, ora se entrega ao público leitor. Filho de uma ideia singular, mas cheia de sinceridade estética e —por que não dizê-lo?— espiritual, este projeto finalmente se materializa, para ser apreciado e avaliado por todos aqueles que acompanham a escalada artística do escritor em referência.

Meu convívio com Nilto Maciel teve início há quase trinta anos. Conhecemo-nos na primeira metade da década de 1980, num tempo em que ainda estávamos —pelo menos eu— tateando timidamente no terreno das letras, mas cheios de entusiasmo e conscientes da carreira escolhida. (Escrever no Brasil não é tarefa simples e exige sacrifícios enormes, principalmente quando o assunto é publicar e divulgar livros.)

Hoje, sem medo de errar, posso afirmar que muito raramente tenho encontrado em minha trajetória um talento à altura de Nilto Maciel, esse nobre filho de Baturité, do Ceará e do Brasil de tantos gênios, não só na literatura, como na música, nas artes plásticas, nas artes cênicas. Nosso país, por um lado, produz espontaneamente a matéria-prima da genialidade humana e artística, e, por outro, cria um descompasso contraditório e terrível: não sabe produzir os meios necessários para uma gestão de qualidade de seus extratos culturais.

Só um exemplo será bastante. Padre José Maurício, na sua época, compôs tanto quanto ou mais que Johann Sebastian Bach, no período barroco. Para ouvir sua música ou encontrar suas partituras, no entanto, há que despender esforços sobre-humanos; sem contar que, certamente, mais de 50% dessa obra, em razão do descaso do Estado, se perdeu para sempre. Uma lástima!

Por isso é que somos uma espécie de quixotes das letras. Além de escrever, amadurecer para escrever, ainda temos de viver às margens com a publicação de livros e sua divulgação. Se não cuidarmos de nossa carreira, jamais sairemos do limbo, nunca alcançaremos um lugar ao sol. Ao contrário do que ocorre nos países desenvolvidos, poucos escritores aqui têm agentes literários.

Nilto Maciel, além de exímio contista, novelista e romancista, é também poeta de técnica depurada e sensibilidade aguçada, a exemplo de Alexandre Herculano, em Portugal, e Lêdo Ivo, em terras brasileiras. E esta sua fortuna crítica não deixa dúvida, atesta uma destreza no manuseio com a arte de Camões digna dos nossos melhores representantes. Embora sua produção na poesia não seja tão expressiva quanto na ficção, o pouco material publicado confirma a regra com os encômios reunidos acerca de seu livro Navegador, de 1996, saídos da pena de uma Laene Teixeira Mucci, de um Fernando Py, de um Paulo Nunes Batista, de um Angelo Manitta, escritor italiano que divulga a poesia de Nilto Maciel em terras de Virgílio e Dante.

Sobre sua prosa, reuniram-se no livro algumas dezenas de autores e críticos consagrados que, com textos claros e elucidativos, fazem o justo reconhecimento da obra de Nilto Maciel, um escritor completo, que, nesses quase quarenta anos de publicação, construiu uma bibliografia das mais vigorosas de que se tem notícia, e que ainda tem muito a oferecer de sua sensibilidade e do seu talento às nossas letras.

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* João Carlos Taveira é poeta e crítico literário, autor de diversos livros publicados.
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