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segunda-feira, 25 de junho de 2012

O conto na terra de José de Alencar e padre Cícero (Nilto Maciel)

(Escritor José de Alencar)

Este título pode parecer esdrúxulo, para leitores mais críticos. Por que Alencar, romancista por excelência? Por que não Rachel de Queiroz ou Moreira Campos; ela por se devotar também a composições ficcionais breves, além da crônica e do romance, e ele pela elaboração de dezenas ou centenas de narrativas curtas? É que o pai de Iracema é, ainda, o nome cearense mais conhecido no Brasil literário. Já o padim só entra (de gaiato) no título e no final.

E por que mais um artigo acerca do conto no Ceará, se publiquei recentemente duas obras que tratam exatamente dele: Panorama do Conto Cearense, 2005; e Contistas do Ceará: D’A Quinzena ao Caos Portátil, 2008? Neles, apresento a trajetória da ficção menor (como diria F. S. Nascimento) na terra de Juvenal Galeno, desde o final do século XIX até o início deste. Ora, a História não chegou ao fim. Todo dia revelam-se escritores. E foi isto o que quis dizer Pedro Salgueiro, um dos nomes fundamentais do novo conto brasileiro, no texto “O conto na terra do conto”, estampado no jornal O Povo de 13/6/2012 e em blogs. Para não deixar a peteca cair, quero tecer comentários em relação a certos aspectos (ou conceitos) ali emitidos.

Para começo de conversa, uma repetição (já quase enfadonha): A peça ficcional de menor amplitude como texto (seja a de formato tradicional, seja a de aparência mais ousada) tem encontrado bons cultivadores no Ceará, desde o século XIX, alcançando, com a geração Clã (iniciada em 1943), lugar de destaque no panorama da literatura nacional. Seus integrantes se tornaram conhecidos fora do estado, como Moreira Campos, Eduardo Campos, Fran Martins e Braga Montenegro. Nos anos 1970, se deu nova safra: Juarez Barroso (um dos mais aplaudidos e a quem dediquei estudos), Francisco Sobreira (que se radicou em Natal), Socorro Trindad (potiguar que morava em Fortaleza), Gilmar de Carvalho, etc. Com o surgimento da revista O Saco (não em razão dela), despontaram (eita verbo antigo!) diversos contistas: Airton Monte, Carlos Emílio, Nilto Maciel, Batista de Lima e mais meia dúzia. Três faleceram cedo: Paulo Veras (piauiense que vivia em Fortaleza), Yehudi Bezerra e Geraldo Markan. Nos anos 80, 90 e 2000 mostraram a cara mais algumas dezenas de contadores de história. Apesar disso, ainda cabe ao verso (que leigos chamam de poesia) o lugar de destaque no “mercado editorial”, em termos de quantidade de volumes. Ou seja, o conto não é o gênero literário mais cultivado no Ceará.

Além disso, a terra de Alencar não pode ser considerada “a terra do conto”, pois mais narradores do que aqui deve haver em Minas Gerais, São Paulo, Rio Grande do Sul, Bahia e outras unidades federativas, não só em termos proporcionais (população). Não faz mal ao jornalista e ao escritor buscar informações estatísticas. Como se sabe, Minas Gerais foi e é o estado brasileiro onde mais se publicam ficções menos alongadas. Era e ainda é frequente a expressão “fulano de tal, contista mineiro”. É como dizer, no exterior: “sicrano é bom jogador de futebol, porque é brasileiro”. Os gaúchos não ficam para trás. Recentemente, recebi três antologias de narrativas de pequeno porte editadas na terra de Mário Quintana. Só gente nova. São mais de trezentos.

A lista dos que se votam à narrativa breve no Ceará não é tão longa assim. Por isso, tenho feito observações aos impressos de quase todos. Não chegam a constituir crítica, porque me falta o conhecimento técnico necessário. Examino títulos, linguagem, trama, tipos de personagem, ponto de vista, etc. Não tiro conclusões (deixo para o leitor o prazer de gostar ou o desprazer de não gostar das composições). Se são ótimos ou excelentes escritores, não o afirmo sempre. Os melhores nunca são a maioria. Em todos os níveis da vida. Obra singular não aparece todo ano. Por isso, deixo os adjetivos pomposos para os cronistas que não têm assunto a tratar e enchem o espaço dos jornais com eles.

Depois de meus dois ensaios, meia dúzia de candidatos a gênio apresentou peças ficcionais de pouca extensão em livros individuais ou em coletâneas e revistas, como demonstrou Salgueiro. Em relação a 16 (salvo engano) desses pequenos tomos, pude tecer considerações em crônicas, resenhas, artigos ou pequenas notas. Eis um arrolamento sucinto delas:

“Dércio Braúna e os mistérios do verbo”, resultado da fruição de Como um cão que sonha a noite só (Rio de Janeiro: 7Letras, 2010); “Os contos de Eugênio Leandro Costa”, prefácio para A Noite dos Manequins; “Joan Edesson: plantador de borboletas e outros seres”, a respeito de O plantador de borboletas (Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2011); “Fernando Siqueira Pinheiro, tatuador de palavras”, logo após desfrute de seus O tatuador de palavras e Ao lado do morto; “Nosso abril despedaçado”, no qual me ative a dois conjuntos de ficções: Eu conto nº 2 (Fortaleza, 1991, sem indicação de editora), de Mônica Serra Silveira, e Palavra por aí, à ventura (Fortaleza: LCR / Edições Poetaria, 2011), de Inez Figueredo; “Lassidão e euforia de leitor exigente”, sobre Contos farpados, de Jesus Irajacy Costa, e Pela moldura da janela & outras histórias, de Lourdinha Leite Barbosa; “Que Deus me proteja”, após usufruir Insônias, delírios, pesadelos, de Dimas Carvalho; “Oito livros e um relato de leituras”, no qual me refiro às coleções Louca uma ova (Fortaleza: Premius, 2010) e Lagartas-de-vidro (São Paulo: All Print Editora, 2011), de Raymundo Silveira; “No jardim de Beatriz”, após debruçar-me em riba de O jardim foi-se —Minicontos, microcontos, intervenções urbanas. (Fortaleza: Expressão Gráfica Editora, 2010), de Beatriz Alcântara; prefácio para Intrincada leveza (Campinas: Editora Multifoco, 2012), de Cissa de Oliveira, cearense que reside em Campinas, São Paulo; “Do Arroio Chuí a Trapiá”, no qual dou notícia de Veredas da caminhada, de Caio Porfírio Carneiro; “Sete visões de um mundo em (de)composição”, interpretação rápida de Metropolis (Fortaleza: La Barca, 2012), seleta de seis narradoras da nova geração, ao lado do quase veterano Jorge Pieiro; “Tércia Montenegro e o estado sólido do tempo”, análise do mais recente conjunto de peças concisas da escritora; “Seis momentos de prazer”, passeio pelo novo impresso de Jorge Pieiro, O outro dono do fim do mundo (Fortaleza: Conhecimento Editora, 2012).

E mais escrevera, fosse mais longa a lista; mais comentara, tivessem mais fecundidade nossos esforçados cultores do vernáculo; mais me consumira a ler, surgissem outros cem contistas nesta terra pródiga de humoristas, versejadores, cantadores, contadores, adoradores de Baco, Jesus e padre Cícero.

Fortaleza, 17 de junho de 2012.
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