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domingo, 17 de junho de 2012

Os escritores e a crítica - 5 (Franklin Jorge)

(Câmara Cascudo)

Quando moço, embriagado de literatura e indiscutível “príncipe do Tirol”, Luis da Câmara Cascudo exercitou a crítica literária, enfocando a produção de autores norte-rio-grandenses reunida em “Alma Patrícia” [Atelier Tipográfico M.Victorino, Natal, 1921], reeditado 77 anos depois pela Fundação José Augusto, IV volume da Coleção Biblioteca Potiguar, numa edição chinfrim que se desmancha nas mãos do leitor ao ser folheada...

Tinha o autor 22 anos ao estrear em livro, inspirado na apreciação da obra de dezoito contemporâneos, dos quais alguns já falecidos, como Ferreira Itajubá, considerado o poeta homérico do Rio Grande do Norte, autor de “Terra Natal”, um dos nossos livros canônicos. Formado desde cedo na escola do humanismo, em sua época de menino e moço resumida nas lições do poeta Henrique Castriciano, de quem escreveu a biografia, Cascudo sentia-se elo de uma corrente e, por isso, esmerava-se em estudar e fazer conhecida a literatura local, por entender que o talento brilha melhor entre indivíduos de mérito. Ora, não adianta ter uma boa caligrafia num universo de manetas que não sabem ler.

Por isso, como primeira tarefa se dispôs a colocar em evidência os talentos de seu tempo, escrevendo sobre os mesmos, como antes fizera com o proto-poeta potiguar Lourival Açucena o seu mestre Castriciano, um intelectual cosmopolita cuja maior obra terá sido a criação da Escola Doméstica de Natal – que lhe sobrevive e engrandece o seu nome –, pois, de resto, era reconhecidamente preguiçoso e devia ter algum distúrbio que o fazia dormir até durante as solenidades de que participava, inclusive como vice-governador do estado.

Cascudo retribuiu e demonstrou sua gratidão para com Castriciano construindo-lhe com palavras um monumento funerário que está a exigir uma reedição. “Nosso amigo Castriciano” conferiu-lhe, de fato, uma segunda vida, só possível, como diria Proust, através da imortalidade da arte. Penso que, ao fazê-lo, em sua estreia como escritor, Cascudo nos disse que espécie de intelectual e de artista seria, pois começou valorizando um poeta da terra que, embora sem obra significativa, encarnava de maneira exemplar o literato fim de século, culto e sofisticado amante dos livros e propagandista de ideias novas.

Faz Cascudo a crítica impressionista que faz todo escritor, para gáudio do leitor que procura antes o prazer do que o tédio que resulta, frequentemente, da chamada crítica acadêmica, firmada num jargão de especialista que desencoraja todo aquele leitor que não se entrega ao masoquismo de uma leitura forçada. Cascudo, ao contrário, escreve uma espécie de crítica que nos estimula a ler o autor que ele propõe, às vezes, de maneira generosa, segundo um estilo personalíssimo que seduz e enreda, pois construído com aquele contagiante entusiasmo que, ainda citando Proust, seria o primeiro sinal do autêntico talento. Do talento, como o de Cascudo, que tem algo a nos dizer e o diz da melhor forma, que é o que se espera de um escritor que não desmerece nem degrada o seu ofício.

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