Pesquisar este blog

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Tércia Montenegro e o estado sólido do tempo (Nilto Maciel)

(Tércia Montenegro)

A leitura de O tempo em estado sólido (São Paulo: Grua, 2012), de Tércia Montenegro, me levou aos seus primeiros livros: O vendedor de Judas (sobre o qual me debrucei por uns dias e escrevi um artigo), Linha férrea e O resto do teu corpo no aquário. Levou-me também aos conceitos de conto, relato, narrativa, história, fábula, alegoria, etc., da ampla família que vem dos tempos das lendas (trechos da Odisseia, da Bíblia, etc). Não quero, porém, me perder em comparações e, muito menos, em conceituações, definições, lucubrações de teórico da literatura, que não o sou. Admito, porém, estar diante de uma escritora talentosa. Seria exagero falar de excepcionalidade. Ou tecer frases de puro elogio, como “prosadora que veio para inovar a ficção”. Nada disso: Tércia, ao contrário de muita gente cheia de títulos na testa, lê, relê, escreve, reescreve, corrige, suprime, modifica o que inventa, incansavelmente. Como qualquer ser humano dedicado às letras, consciente de seu ofício e sabedor de que fama e sucesso são apenas ilusão.


O tempo


Qual a razão do título do volume? Sim, pois quase sempre há um motivo para o autor intitular suas obras, sejam as pequenas peças (poemas curtos, contos), sejam as obras de maior envergadura (poemas longos, novelas, romances) ou conjuntos de composições curtas.

O que seria “o tempo em estado sólido”? Um dos personagens de “Asa Norte, caminho do céu” é Alessandro, que trabalha numa “editora vagabunda”, desenha, vive num quarto vazio, conheceu Larissa e sai para tomar cerveja em bares. Envolto nas brumas do sentir a fragilidade de tudo, em dado momento, solitário, “teve a velha sensação do mecanismo do tempo” (...).

As ações de “O mágico” se sucedem rapidamente: a menina (“era uma Francisca ou Raimunda qualquer”) acompanha o avô (que provavelmente pede esmola) numa beira-mar, enquanto pessoas transitam em “ginástica pelo calçadão”. E então surge o terceiro personagem, para dar “vida” à trama ou ao cotidiano daquela criatura: um mágico. Como se vê, nenhum dos três é apresentado pelo nome, mas pela função na vida. Assim e embora o episódio seja um dos mais curtos da coleção, logo a menina chega aos doze anos (É o tempo em estado sólido?). E “decidiu fugir com ele”, o mágico.

“Pleno trânsito” (que dá ideia de movimento) decorre numa estrada: um Chevrolet, dirigido por Vitório Martins, na companhia de sua mulher (“a esposa obesa”) Simone e seu filho Rob, segue uma limusine, dirigida por um homem, tendo como carona Larissa (que aparece como referência na primeira ficção). Há muitas “luzes na pista”, os faróis dos carros, “gotas imensas de luz”. Larissa se lembra de Alessandro (também do primeiro relato), que se mostra, numa estrada, a conduzir moto (ou ela supõe ser ele, pela “postura de ruflar as roupas”). São apenas sugestões, pois além do trânsito dos veículos, os diálogos se dão dentro do automóvel de Vitório. O narrador onisciente parece não querer revelar tudo, embora descreva e narre pequenas ações dos ocupantes de ambas as viaturas e exponha seus pensamentos.

A trama de “Semelhante ao mar” é mais trabalhada do que a de muitos outros episódios da série. Lídia comparece a Vilares (existirá na geografia do mundo?), para o sepultamento de seu pai. Descreve-se o ambiente do cemitério, da capela onde o cadáver está sendo velado. Homens “gesticulam e sorriem”. O luxuoso caixão, “todo em mogno e com puxadores banhados em ouro”, está exposto aos olhares. Apresenta-se a anã Matilde. Rememoram-se fatos. Quem teria sido o morto? E quem seriam Elvira e José? Terminada a cerimônia, Lídia deixa o cemitério. Vai ver o mar. Caminha, chega a uma “casa humilde”. Avista um menino, de uns oito anos. “Tem aquele rosto que Lídia sempre tentou imaginar, o rosto da infância de José. Somente ao ver a criança é que nasce a consciência do tempo sólido – José casando com outra, formando família”. O relato é longo, cheio de meandros, mistérios. E é bom, muito bom.

Lugares

Tércia não costuma mencionar localidades em suas obras. Nesta coletânea, somente em duas peças são nomeados os lugares. Em “Asa Norte, caminho do céu”, a menção a Brasília é evidente (pelo menos, no título). E por que a capital federal e não Fortaleza ou seus bairros próximos ao aeroporto, como Aerolândia, Vila União, Alto da Balança? E por que Asa Norte, se o aeroporto de Brasília se localiza na Asa Sul? A explicação talvez esteja num capricho da escritora, se os “contos” aqui apresentados não forem capítulos de um romance que tenha Brasília como um dos lugares por onde transitam Alessandro e Larissa. Pois ambos reaparecem em “Pleno trânsito”. Na primeira história, um jovem “anda de moto”, “chega à ponte” (sim, em Brasília há muitas pontes, assim como em Recife), avista o aeroporto. Por isso a pergunta: Por que não (o título) “Alto da balança, caminho do céu”? Descrições de ambientes e personagens se mesclam a narrações de pequenos fatos. “Alessandro pensa no desenho” (...). O narrador é observador atento e sobre-humano. Além disso, não esconde que se acha em algum lugar em determinado momento, a “ver” (testemunha invisível ou camuflada) o movimento das criaturas: “não se ouvem daqui”, “esta ponte” (lugar) ou “a esta hora” (tempo).

A outra composição em que há também alusão ao nome do lugar da ação (Vilares) intitula-se “Semelhante ao mar”. Pode se tratar de nome fictício. Lídia é a personagem principal. Será a mesma de “O que reluz e arde no ar”?

Em “O mágico”, menina e avô passam o dia numa beira-mar indefinível, ele a pedir esmola, ela a lhe fazer companhia, “com a primordial função de conduzi-lo de volta a casa”. Imagina-se Fortaleza, mas beira-mar há por todo o Brasil.

Na maioria das ficções, porém, não há localização geográfica e, muito menos, citação do nome do lugar (espaço) onde ocorre o drama. Noutros, sim, como na galeria onde se acha a protagonista de “As paisagens”. Sucede, entretanto, de a narração ou a câmera (como em filme) deslocar-se de um ambiente a outro, rapidamente, seja por via do retrocesso, seja por mudança mesma de foco. E isso é bom, por desviar o leitor da linearidade da ação.

Narradores e personagens

As criaturas de Tércia são quase todas de classe média, dedicadas a artes. Como o escritor de “A sugestão”, sujeito esquisito que vive trancado no apartamento, paparicado pela moça com quem convive, envolvido num grande drama: o da “absoluta necessidade de catar palavras”, além da “necessidade de ser incompreendido”.

Na ficção de Tércia Montenegro, aqui e ali surgem mulheres em relações íntimas ou mais ousadas com outras fêmeas. Tércia, no entanto, tem também narradores masculinos, como em “As paisagens”.

A maioria dos personagens de Tércia está comprometida com arte, seja a literatura, a pintura, o desenho, a fotografia, etc. Frequentam galerias, livrarias, teatros, cafeterias, boates. Suas protagonistas são quase todas jovens. Em “Esboço de sangue e cinza”, uma fotógrafa manuseia a câmera. O episódio é curtinho e nele encontram-se instantes de vida, como aquarelas em esboço. Quase sem enredo. Apenas sugestão.

A narradora de “A alma e o peso” divide com Leila o papel principal na trama. É escritora, embora isso não se sobreponha na história: “Leila lia meu livro, um conto a cada tarde” (p. 17). Fotógrafa, lia, interessada pelo rosto e, possivelmente, pelo resto do corpo da outra, como verá o leitor ao longo da narrativa. Conheceram-se na cantina da faculdade. Também se dedica à literatura a narradora de “As moedas”. Aliás, não está claro se se trata de indivíduo do sexo feminino, posto não ter nome explícito ou não ser mencionada por pronomes ou adjetivos que indiquem a sua feminilidade, a não ser no trecho da página 94: “arranjei um amante”.

Pintora é a protagonista de “Exposição”. Aparece numa galeria de arte. Admira quadros de Aldemir Martins, Carybé e Chico da Silva. E se lembra de Roberta, bem como de Alessandro e Ernesto, participantes de outras peças (de novo a ideia de que os relatos são capítulos de um romance).

Em “O que reluz e arde no ar”, a vez de narrar cabe a Lídia. É moça de programa, à espera de fregueses (“o aluguel do quarto era tanto, bastava cobrar dos clientes o dobro”, dissera-lhe Carmina, a patroa ou cafetina), no seu “ninho solitário”, “enrodilhada como um feto”. Composição curtinha, mas muito densa. Somente narração ou ruminação da protagonista (monólogo interior?), sem falas (porque está só).

Muito interessante, pelo clima de mistério que envolve os seres, é “Serpentina” (a lembrar carnaval). Acontece um acidente ou um crime num hotel. Participam diretamente do episódio Max, Lou e uma babá. Tudo narrado com traços finos, quase imperceptíveis. “Os ingleses (Max e Lou) finalmente quiseram segurar o filho, e foi naquele instante, em seu último desfile (por isso, carnaval) diante da varanda, que a babá cruzou a trilha em direção à água”. Alguém grita ou anuncia: “– A mulher se afogou!”. Socorrem-na. Em vão: “Ela está morta”.

Um dos mais belos momentos do livro é “Carceragem”, narrado por uma menina de treze anos que se sente presa em casa e quer fugir. “Sim, eu planejo fugir, embora já não diga” (p. 78).

Em “Aquarela com bonsai” ressurgem alguns personagens, como Solano e a própria narradora, fotógrafa, sem nome revelado. A cena é inusitada: o casal e uma negra (“feita de vértices perfeitos”), num quarto, em plena atividade sexual. Repete-se o tema da ménage à trois, vislumbrada também no breve “Ignorância”.

Os conflitos reais


Na maioria das peças de O tempo em estado sólido não há um só conflito apresentado de forma clara. Quando muito, questionamentos de seres humanos em suas relações com outros e com o mundo (como Alessandro do primeiro episódio). Embora não seja novo em literatura o tema da homossexualidade feminina, Tércia conseguiu traçar perfis muito interessantes, tanto da moça que assedia outra, como da “vítima” do assédio ou “presa” (o predador e a presa), em “A alma e o peso”.


Em “A ignorância”, como em outras peças, apenas um momento, uma situação, quase sem ação, mais reflexões de indivíduos solitários ou calados diante de outro ou outros. Neste, são especulações de alguém (chamado sempre de rapaz) e de outro (chamada apenas de mulher). Ele tomava uísque numa cafeteria, muito concentrado. Ela o examinava. E não se falam por um só instante.


Em “Cartografia de instantes”, moça se encontra em casa, a sós, e passa a se sonhar numa boate, a espiar jovens que dançam, bebem, conversam. Imagina o movimento das pessoas, a agitação. E ela a observar tudo.


A solidão toma conta de muitos personagens, que são levados a “inventar” a vida, enredos, dramas para si mesmos. Não há quase comunicação entre o protagonista e os demais participantes da intriga. Não se falam ou dizem somente o indispensável. Comunicam-se por sinais, gestos, olhares ou por telepatia.


Num único conto (“Exposição”) se vê diálogo (inclusive com os clássicos travessões). Entretanto, é diálogo falso, fictício (dentro da urdidura), posto que apenas imaginado pela narradora.


Essa solidão, essa falta de comunicação, essa inação dos personagens é totalmente esquecida no longo “O lado imóvel”, incidente dilatado, ingênuo e inverossímil (nada contra o fantástico, muito pelo contrário), que não faria falta, se retirado do conjunto. História comprida, que parece muito interessante nos primeiros parágrafos: um pintor no exílio, sua companheira, que vende os quadros por ele enviados, e o filho pequeno. E ela se vira como pode, com “jovens morenos”. Até chegar o tempo da decadência física. O conflito se aguça, com a apreensão de uns quadros na alfândega, sob a alegação de que estariam impregnados de droga. E então se inicia a intriga propriamente dita: ao garoto é dada (pela mãe) a missão de resgatar a encomenda (os quadros). A narrativa se espicha por onze páginas, como nas histórias infantis ou para crianças.


Em algumas páginas, Tércia, na tentativa de fugir do não-enredo (que consegue sempre), abre o leque da trama e o estilhaça em várias vertentes, como em “As moedas”, composto de rememorações da protagonista, até culminar na “revelação” do crime de morte de sua ex-amiga, estrangulada num circo. Entretanto, neste, a contista não se deixou enlear nas teias da simples narração de aventuras, como em “O lado imóvel”.


Linguagem e vocabulário


O vocabulário de Tércia neste livro é o de uso comum, seja na literatura que se publica, seja a coloquial, a das ruas. Um ou outro vocábulo pode levar o leitor menos experiente ao dicionário: “glissar” (p. 15), “badulaque” (p. 94), etc. Em alguns trechos, percebe-se o uso de vícios de linguagem e cacoetes de nossa língua, tais como “algo do tipo”, “coisa do tipo”, “pois bem”, “claro que”, “o fato é que”, “lógico”, “óbvio que”, “de modo que”.


Por outro lado, a tessitura verbal de Tércia é compacta. Nada de excessos, de derramamentos verbais, de descrições enfadonhas ou desnecessárias, de narrações sem fim e falas inúteis. São como edificações concretas, feitas de ferro, pedra e cimento, sem artes de palácio, jardins e alamedas, salas iluminadas por candelabros, tapetes multicoloridos. Tudo simples, sem ser choupana ou casinha de sapé. Entretanto, Tércia não prima pela frase elegante, elaborada com esmero. Sua frase é quase coloquial ou próxima da construção verbal de uso frequente dos prosadores menos dedicados à elaboração de obras com maior densidade literária, assim como a prosa de estrangeiros que no Brasil são traduzidos. Como neste trecho: “Disse, um pouco ríspido, que ela se trocasse – iriam sair imediatamente daquele hotel nefasto” (p. 45). Como a maioria dos cultores brasileiros de literatura surgidos no final do século XX e neste. Talvez o último grande escritor impregnado de literariedade no Brasil tenha sido Graciliano Ramos (entre os prosadores). Além de outros de nomes menos conhecidos, como Moreira Campos, Ciro dos Anjos, Lêdo Ivo, Josué Montello e Manoel Lobato.


Fortaleza, maio de 2012.

/////