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quarta-feira, 18 de julho de 2012

A poesia reunida de Hildeberto (W. J. Solha)

(Poeta Hildeberto Barbosa Filho)

Na próxima sexta, às 17 e 30, Hildeberto Barbosa estará lançando na Livraria do Luiz um volume de 430 páginas, editado pela Ideia – Nem Morrer é Remédio – com tudo que ele produziu entre 1986 e 2010. Nesse conjunto de obras – doze delas – pode-se ver nitidamente a evolução do poeta, com coincidente e crescente libertação de influências, permanecendo, no entanto, a angústia (frequente desespero) do autor, como nestes versos extremamente expressivos de O Último Concerto:

Todos os anos
passaram por mim
e o futuro não chegou.
Tirou-me as palavras da boca!

Mas fica evidente que a própria condição humana é a causa do sofrimento hildebertiano, como se deduz pela bela fala de “seu pai”, em Herança, onde se vê a origem de suas conhecidas noites mal dormidas:

Deixo ainda as noites
de inverno com suas aquáticas
insônias e a cicatriz
dos relâmpagos.

A vida é traição / disse-me um poeta / de cabeceira / num poema que ecoa/ a vida inteira. Isso é o que ele diz noutro desabafo, Itinerário. Por que? Talvez pelo que seria a insatisfação ante a própria obra:

Minha identidade /ainda a procuro como um fiel / a um deus incógnito.

Como todo poeta é um fingidor que finge a dor que deveras sente, preocuparam-me reiteradas declarações como esta, em Ode à Minha Morte:

Poucas coisas devo amar
como a minha morte.
(...)
Com a minha morte
me libertarei.

Sei lá, mas talvez tudo não passe de uma busca do clima que ele considera essencial à poesia, pois em seu Poética (pelo Avesso), proclama:

Não acredito em poesia / que não seja perda, perplexidade. // Que não seja dor, desterro,
desamparo, dissipação.

E, naquele que talvez seja seu mais perfeito poema – Portugália – diz:

Meu verso se quer agônico
como agônico é verso de Cesário Verde.

Vêde que nele há
uma dor antiga (que vem de longe)
e jaz perdida nos ermos longes
de Póvoa de Varzim.

Vêde que nele há
também o Alentejo, Évora,
e ele é Camilo, é Pessoa
e é Pessanha.

Eça, alma amada lusitana
que habita em mim.

Soberbo!

Afinal, a dor não é exclusividade sua:

Nem os sábios são felizes.
nem os poetas são felizes,
nem os deuses são felizes.

Noutro ponto:

Valeu a pena? Valeu.
Quando a alma não é pequena
faz do poema um encontro
com Deus.

E assim é que ele encerra o poema Mapa:

Só a poesia salva.

Mas nenhum poeta, na verdade, se satisfaz com o que faz:

Meu verso é frágil
como todas as coisas.

Precário e impuro, abdica
da verdade, da assepsia,
da exatidão.

A poesia de Hildeberto, no entanto, me encanta mais quando se despoja da exacerbação que lhe é cara. No primeiro livro, de 1986, por exemplo, abre o poema Aforismático assim, antologicamente:

Uma cadeira
é qualquer coisa de ausente
no vazio da sala.

A sala
é um deserto
no vazio da minha fala.

Onze anos depois, diz, em As Coisas:

As coisas são poéticas, sim.//Parafusos de porcelana/ abandonados no tempo,/toalhas estendidas no varal / da noite, quando a tristeza / invade a alma de umidade.// O papel perdido à espera / do pouso musical das palavras,/ a tesoura e seus espelhos,/a pedra com suas estrias/de luz, a lúcida ferrugem / de antigos cadeados.

Simplicidade. Em Pequena Odisseia da Infância, ele sintetiza, no minúsculo e tocante poema
Telêmaco:

Meu pai viajava
minha mãe tricotava
eu que sofria.

De repente sua teologia se humaniza. E comove, Em Prece:

Procurar Deus
não tem fim.

Deus é
dentro de mim.

Encerro esta resenhazinha com mais uma preciosidade, Recorrência, sobre a qual não há o que dizer, sem acabar redundante:

Sempre amei as pedras.

Brutas,
raras,
cálidas,
sempre amei as pedras.

Túmidas,
toscas,
tristes,
trágicas,
sempre amei as pedras.

Súplices,
sacras.
Sempre amei as pedras.

/////