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quinta-feira, 12 de julho de 2012

Da leitura de Netto, Bicuco e Eltânia (Nilto Maciel)


Para não me alongar nos escritos que rabisco, decidi me reportar, em cada um, a três ou quatro publicações, no máximo. Assim, para a notícia anterior a esta, intitulada “Da leitura de Oliani, Alaor e Tardivo”, escolhi duas de prosa jornalística ou ensaística e uma de poemas. Para esta, separei três volumes de prosa de ficção: Os acangapebas, de Raymundo Netto; Histórias de Perequê e Açu, de Carlúcio Bicudo; e Manhãs adiadas, de Eltânia André. São novos: dois de 2012 e um do ano passado. O primeiro foi doado pelo próprio Netto, em visita que me fez. Sei pouco de Bicudo. Mora em Resende, Rio de Janeiro. Mandou, há poucos dias, mensagem de apresentação. Comentou algum artigo meu. E logo me prometeu um presente. De Eltânia sei três informações: vive em São Paulo, é casada com Ronaldo Cagiano e este é seu segundo conjunto de narrativas.

A seguir, informações das três obras.

 
Os acangapebas

Li os originais dessa coleção. Fiz sugestões. Editou-se com algumas reformas (creio que para melhor). São 39 histórias, contos e crônicas. Nas abas vem biografia do autor, Raymundo Netto: homem dedicado às atividades culturais no Ceará (cinema, quadrinhos, tiras, livros). Este é seu segundo livro. E vem abonado por dois prêmios: o Edital de Incentivo à Literatura da Secretaria de Cultura de Fortaleza, 2007, e o Osmundo Pontes de Literatura da Academia Cearense de Letras, 2011.

Para se ter uma ideia de como escreve Netto, leia-se a frase inicial do primeiro relato: “Estacara a hora, e pensamentos ondeados de recordações saudadejavam de distâncias o horizonte”. A peça “O gato” se apresenta assim: “Nazareno não largava sequer do gato”. O tomo está bonito, com cara de objeto de consumo no primeiro mundo.

Como estou proibido de analisar os impressos recebidos (por ordem da Santa Madre Igreja Católica Apostólica Cearense e do Tribunal da Nova Santa Inquisição), e a publicação de Netto não traz prefácio (tenho me valido de preâmbulos e considerações em orelhas para rechear minhas observações), passo ao segundo impresso desta crônica com cara de notícia.

Epur si muove!, como teria dito Galileu Galilei.

Histórias de Perequê e Açu

Apesar do plural, trata-se de romance (para o autor, a editora e a bibliotecária que preparou os dados de catalogação). Curtinho. Menos de 60 páginas. O tomo tem 94, mas há dedicatória, agradecimentos, “palavras do autor”, prefácio (de Celso Corrêa de Freitas), ilustrações, notas explicativas, glossário, referências bibliográficas e “sobre o autor”. Carlúcio Bicudo qualifica a sua obra de “ficção historiográfica”. A ação ocorre em 1805, na cidade de Paraty. Há dois personagens principais (que aparecem no título): os meninos Perequê (“um sinhozinho”) e Açu (“filho de escravos”). A história se divide em seis capítulos, todos narrados na terceira pessoa (“Perequê era um menino de oito anos, muito educado, de fino trato, mas também muito serelepe e curioso”). Ao lado das narrações, encontram-se muitos diálogos (discurso direto, em sua com forma mais tradicional).

É livro para crianças. Pode ser catalogado como “literatura infantil”. Ideal para discussão, em sala de aula, de assuntos como escravidão, preconceito, formação do povo brasileiro, exploração do trabalho pelo capital, etc.

Manhãs adiadas

Eltânia André estreou com Meu nome agora é Jaque, em 2007. Este é seu segundo volume de histórias curtas. As abas estão preenchidas com apontamentos de Menalton Braff, que destaca “o leque de conhecimentos (do ser humano e do mundo) que a autora aborda com desenvoltura”, além da “riqueza de técnicas narrativas, as inovações, a diversidade de temas”, mostradas ao longo das composições.

Embora costume ler coleções de contos e poemas de trás para frente ou sem atentar para a ordem estabelecida pelo autor, desta vez me comportei como leitor ordeiro e comecei do começo. Quando li “Parábola de Olgamaria”, senti um calafrio de estupor: “Começo do dia. Há sombras, escuridão do olhar que navega com o capuz, tortura a alma e marca o tempo”. Remeti-me a Cornélio Pena, Adauto Cardoso, Autran Dourado. E também a algumas mulheres: Virginia Woolf, Clarice Lispector, Lygia Fagundes Teles. Vale a pena conhecer/ler pessoas/escritores desse porte, desse nível, dessa estatura.

Como constata Menalton, a contista de Cataguases (terra fértil em artistas da palavra, do pincel, da câmera... de que mais?) é exímia no arranjo da prosa poética (somente poetas conseguem escrever boa ficção). Quando se aproxima da crônica (o farfalhar de saias na rua, as pernas que andam e desandam), quando se aproxima mais da “realidade empírica”, Eltânia André vai além do trivial literário.

Fortaleza, 7 de julho de 2012.

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