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segunda-feira, 30 de julho de 2012

Dicionário do imperador Napoleão (Nilto Maciel)




Quando estive em Paris, pela primeira vez (faz muito tempo), conheci a jeune femme Isabelle Girault. Convidei-a para um café ou um vinho. Não sabia ainda como me comportar diante de uma francesa na França. Falei, entusiasmado, de Napoléon Bonaparte, passei à Revolução Francesa e terminei na guilhotina. Só pude perceber tédio nela depois de meia hora de lengalenga.
Quando voltei da Europa a Brasília, tomei ciência de outro Napoleão, o Valadares, nascido em Arinos, Minas Gerais. Ofereci-lhe meu segundo livro Tempos de mula preta e ele me presenteou Os personagens de Grande Sertão: Veredas. Fizemo-nos amigos, quase confidentes. Contei minha paixão pela francesinha e ele apenas sorriu. Quase não disse nada. Só perguntou: Você pretende ir embora? Não, não posso. E ela virá morar aqui? Não. Ele riu mais um pouquinho e mudou de assunto.

Semana passada, chegou-me uma carta. Há tempos isso não acontecia. Sabem quem ma enviou? Sim, aquela jeune femme de 1983, agora com 49 anos. Descobriu meu paradeiro na Internet. Seu marido (casara-se ela em 1986 com o poeta mexicano Eraclio Chimal) há um ano a trocou por um imigrante brasileiro de nome Napoleão. Vejam o nome do imperador a me perseguir. Por pouco não morri de rir. Pois, no mesmo dia em que o carteiro me passou às mãos um pacote (não cabia na caixa), vindo de Brasília, na mesma tarde recolhi, na caixinha metálica onde está inscrito “cartas”, a missiva da traída Isabelle. O pacote continha exemplar do Dicionário de escritores de Brasília, de Napoleão Valadares. Como não me lembro mais da francesa e não me interesso mais pelo imperador da França, passei a semana a ler o dicionário. É possível ler um dicionário, como se lê um romance? Talvez não. Mesmo assim, conto a história desta obra.

A primeira edição é de 1994. Nesse tempo eu já esquecera a francesinha. Em 2003 saiu a segunda. Nesse tempo eu já me sentia muito próximo da italianinha que fez de minhas noites uma sucursal do paraíso. A edição de agora é a terceira: “atualizado, revisado e ampliado”.

Deixando de lado o compêndio, direi um pouco do autor, o “Imperador do Urucuia” (eu assim o chamo, de forma brincalhona, desde a publicação de seu romance Urucuia, 1990): Napoleão é um ano mais novo do que eu (fevereiro de 1946). Além de suas atividades como funcionário da Justiça Federal, tem se dedicado à cultura mineira e brasiliense, especificamente, e à brasileira, em geral. Organizou antologias (Planalto em poesia, 1987; Contos correntes, 1988; De Gregório a Drummond, 1999; Antologia de haicais brasileiros, 2003), exerceu a presidência da Associação Nacional de Escritores, tem romances, contos e poemas editados, ganhou importantes prêmios literários, etc.

Voltemos ao dicionário (sem nos esquecermos da França, de Isabelle e do imperador Bonaparte, que ainda estarão nesta crônica). O dicionarista brasiliense presta homenagem aos pioneiros da cultura literária da capital federal: Clemente Luz, José Marques da Silva, Garcia de Paiva e Joanyr de Oliveira. O primeiro verbete vai para o carioca Carlos Alberto dos Santos Abel (com quem troquei algumas palavras), falecido recentemente. O derradeiro se refere a Vera Cristina Zuffo, que desconheço.

A obra, de 390 páginas, mostra verbetes curtinhos (dos escritores menos notados nos corredores da literatura ou de bibliografia mais reduzida) ou mais robustos (não muito), o que é normal. Napoleão Valadares considerou escritores aqueles indivíduos que foram “publicados em livro”. E explica: “Não apresentamos biografias, mas sínteses biográficas, para ter-se um perfil profissional e intelectual de cada autor, para ter-se uma informação, ainda que elementar, sobre sua obra. Os verbetes mostram-se sucintos, sem opinião pessoal, sem crítica. A nossa preocupação não é fornecer o maior número possível de dados, mas apresentar dados precisos, tanto quanto possível”.

Para encerrar esta quase-notícia, informo o número das páginas onde me encontro: 197/8. E dou uma última notícia de minha amiga parisiense: gostava de rabiscar poemas curtinhos. Guardo, há quase trinta anos, este verso, escrito num guardanapo de papel: “Je suis une femme perdue et maladroite”. Foi no dia em que nos despedimos, num café próximo ao Aéroport Paris-Orly. Após o último beijo, ela abriu a bolsa, retirou um embrulho e mo entregou. Eu não sabia do que se tratava. Quando me acomodei na poltrona do avião, pude ver a biografia de Napoléon Bonaparte. E os lábios de Isabelle Girault impressos na folha de rosto, que beijei, a chorar.

Fortaleza, 27 de julho de 2012.

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