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sábado, 28 de julho de 2012

Repensar a morte (Tânia Du Bois)

(Para Carlos Pessoa Rosa)


Nossas imaginárias linhas, justificando a vida e a morte. (Pedro Du Bois)

Preciso exercitar o viver, porque tudo na vida são fases. Muitas vezes, fico pensando, cadê minha vida? Arrumo tempo para construir e produzir, é um tipo de exercício para projetar o viver a vida. Com o passar do tempo, volto a dar atenção e curtir as coisas de que gosto. Vivo em paz comigo mesma, com os amigos e familiares, o que já considero um grande projeto.
Hoje, estou passando pela fase de repensar a morte. A palavra em seu significado. A ausência dos entes queridos. A saudade da juventude. O descaso das pequenas políticas. A importância da dimensão humana. Penso e repenso onde a morte se encaixa na vida. Lembro que os antigos diziam, basta estar vivo para morrer; ganhar para perder; amar para ser amado; ler para aprender; ver para crer... Assim, digo que a vida parece um ensaio. E, por falar em ensaio, encontro em Carlos Pessoa Rosa, Mortalis, “... a morte cria diversos sentimentos... permitindo vivenciar a emoção do amar quem vai partir e odiá-lo por se permitir isso”; e mais, “Diariamente o homem toma decisões, assume posturas novas, dele nascem ideias, abrem-se caminhos cheios de emoções, e nada disso ocorre sem que a morte o acompanhe”.

Ausente, espelho a morte como recurso ou conflito da presença na poética. Ao mesmo tempo, me pergunto: como posso me sentir inspirada e entusiasmada ao ler o ensaio de Calos Rosa, que pondera sobre a morte? Mas, ele me passa a sensação de que o cuidado para não morrer abre a cortina da revelação para com o mundo interno e externo. A essência se torna real. A noção de perigo, irreal por pensar que nunca acontecerá algo de ruim conosco. Gilberto Cunha salienta que “Pensar na vida não é algo que pode ficar restrito a um mero ato introspectivo, uma vez que, com relativa facilidade, podemos constar que há uma multidão de organismos vivos que são diferentes de nós...”

Procuro ser presente e atenta quando percebo algo de bom, ruim e necessário ao tempo. Tento manter a postura ao abrir concessões nas vezes em que repenso a morte como compreensão do mundo. Pedro Du Bois, no livro A Ausência Inconsentida, configura, “A morte assoma horrenda face / amiga das horas amargas...// o que assusta a impossibilidade / do retorno e a dor da saudade.” O que mais me impressiona na morte é o fato de ela estar ligada à essência da vida, e não ser como exercício de concentração para quebrar padrões no palco da vida. Repensar a morte é sentir a angústia de estar vulnerável, como em Carlos P. Rosa, “... é a morte uma mãe que ao mesmo tempo em que nos oferece a vida, também a roubará. Não temos opções, ela é certa e inexorável”; Álvaro Moreyra completa, “ausência enche a casa toda.” e Wittgenstein alerta, “A morte não é uma experiência de vida; morte não pode ser vivida”.
 
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