Pesquisar este blog

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Truman Capote e a criação (Franklin Jorge)

(Truman Capote)

O artista progride lentamente. Tudo parece conspirar contra seus planos, mesmo quando ele trabalha sem planos, o que ocorre às vezes com alguns artistas que se deixam levar somente pela intuição. Porém, trabalhando segundo um plano ou sem ele, um desafio impõe-se a todo criador: o de vencer a auto-satisfação que tem prejudicado e até destruído muitos talentos.

Veja-se o caso do escritor norte-americano Truman Capote, que estreou em 1948 com “Other Voices, Other Rooms”. Estreou é forma de dizer. Na verdade era o seu segundo romance, ou melhor, uma obra que não teria sido possível se ele não tivesse se apercebido das falhas do primeiro, “Summer Crossing”: uma obra, pelo que ele se lembrava, tecnicamente apurada, mas a que faltavam intensidade e dor e as características de uma visão pessoal que singularizariam sua obra futura.

Um romance, portanto, fraco, superficial e insignificante, por faltar-lhe justamente o que faz uma grande obra. Densidade, outro nome para intensidade e dor…

Muito cedo Capote descobriu que um livro se escreve igualmente com palavras, esforço, experiência e reflexão e não apenas com entusiasmo, embora segundo Baudelaire o entusiasmo seja a forma pela qual o talento se apresenta. Mas ao entusiasmo há que se acrescentar o trabalho intelectual — algo que não pode ser objetivamente mensurado –, para muitos, apenas mais uma forma de ócio. Talvez por isso pudesse André Gide afirmar que não há arte sem ócio…

Sentindo-se escritor, porém sem ter ainda como prová-lo, mergulhou na leitura de Poe, Henry James, Mark Twain, Cather, Hawthorne, Sara Orne Jewett, entre os seus compatriotas; e de Flaubert, Dickens, Jane Austen, Proust, Tchecov, E. M. Foster, Maupassant, Katherine Mansfield, Turguniev e Emile Bronte. Cada um desses autores contribuiu para o que ele chamaria, anos depois, de sua “inteligência literária”.

Truman Capote se apercebe, talvez intuitivamente, que a principal tarefa do artista é domar e dar forma a uma visão criativa em estado bruto. Ora, um escritor não é a secretária que copia o ditado; mas alguém que lavra e dá forma ao rochedo. Foi o que ele fez ao escrever seu segundo romance, ainda assim, insatisfatório, pois ao vê-lo publicado sentiu-se como uma secretária que tivesse se limitado a transcrever uma voz saída das nuvens…

Os duros sofrimentos e solitários combates que o artista suporta em seu afã de criar uma obra constituem a essência íntima do talento. É a insatisfação e o descontentamento, diz-nos o autor de “A Sangue Frio”, que transmudados em arte nos proporciona uma obra mais intensa e devoradora e que, perseverantemente trabalhada, resulta na determinação e precisão do seu estilo.

/////