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sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Antonio David clica (W. J. Solha)


(Foto premiada de Antonio David)


– O fotógrafo vai passando na praça, vê que uma funcionária da prefeitura apoia uma escada na bigorna sustentada com esforço pelos dois hercúleos homens seminus ante a estátua da Fama Alada, no monumento a João Pessoa, saca a câmera e se move um pouco à esquerda, para o ângulo em que não se veja a bigorna e se passa a ter a impressão de que o esforço dos gigantes de bronze é pra aguentar a mulher na escada, que se põe a lavar a cabeça da figura feminina. Antonio David, ansioso, clica.
– Vê a esmoler dormindo recostada na parede, na calçada, o menino deitado no chão, com cabeça numa das pernas da mãe, os dois ao lado de uma sacola branca onde se vê a foto da mão que deposita uma moeda no cofrinho de lata, junto à inscrição Caderneta de Poupança PRÓPRIA. Clica.
– No meio da viagem, uma casa de taipa – na caatinga – com o esqueleto de pau exposto, antena de TV na cumeeira e, junto à cerca, a parabólica. Clica.
– Há na parede enorme foto de mão que solta a pomba branca, que decola para a direita. Diante do pôster, um pouco abaixo, sentado, voltado para a esquerda, Dom Hélder fala, fala, de repente ergue o braço e aponta para cima, armando-se um jogo visual com o voo da paz para o outro lado. Click.
– O busto de Tamandaré amordaçado por uma calcinha! Click.
– A mulher descalça e mal vestida – que lembra Elsa Soares – está sentada no chão do terreiro e recostada na parede de pau-a-pique. De repente seus dois pequenos filhos nus a abraçam, e ela, com enorme afeto, com cada mão cobrindo uma cabecinha, atrai-os pro peito. Click.
– O viajante que se vai na calçada da rodoviária olha pra trás, para o fotógrafo, desconfiado mas não muito, pequeno rasgão no ombro do paletó, grande rasgão na velha mala. David recua um passo para a esquerda no que o homem vai passar ante o carrinho da Maguary, de modo que vê sumir na quina da parede o início da frase promocional que fica “esqueça seu sorvete”.
– Vistas de cima, no pátio do estacionamento enorme, oito carretas paradas, uma ao lado da outra, guardando boa distância entre si. Aí o fotógrafo vê um pouco acima e à esquerda, no visor da câmera, gigantescos automóveis parando ante a faixa de pedestres, reduzindo os enormes caminhões a oito caminhõezinhos artesanais, de brinquedo, à venda na curva da calçada. Clica.
– O homem passa na rua, puxando a carroça entupida de papelões. David percebe algo estranho após o conjunto e o segue com os olhos. Bingo: saca a câmera e clica: confortavelmente instalado atrás da carga, o garoto, filho do homem, segura um cordão em cuja extremidade, no asfalto, segue seu bonito tratorzinho. 

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