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segunda-feira, 20 de agosto de 2012

De talento, rugas e torta holandesa (Nilto Maciel)


(Fernando Pessoa)

Recebi ontem visita de Maria Godiva, estudante de jornalismo. Nunca nos tínhamos visto. Minto; viu-me numa livraria, mês passado. Confessou ter sentido vergonha de se aproximar de mim. Segundo ela, mais de seis pessoas me rondavam, olhos grudados em meus óculos. Já me “conhecia” da Internet. Indagou, por e-mail, se eu poderia lhe conceder uma “entrevista”. E deu os motivos: “Não sou ainda jornalista, mas gosto muito de ler e pretendo ser escritora”. Sua primeira ida à minha casa lhe rendeu duas horas de conversa, minha simpatia e uma biblioteca. Dei-lhe os meus 21 livros. Caprichei nos autógrafos. Passei meia hora a rabiscar frases de lobo mau a caminho da senilidade em último grau: “Para Godiva, que monta o alazão da candura...”.
         A segunda vez que nos vimos ocorreu ontem. Recebi-a com sucos de frutas exóticas, biscoitos finos e a parceria de uma “doméstica” lindíssima, contratada por um dia, a preço exorbitante. (Seu agenciador me cobrará fidelidade absoluta pelo resto dos nossos dias). Ela se disse namorada de Pedro Safadani, e que viria me servir (não por sete anos, nem por sete dias, mas por sete horas, no máximo), a título de brincadeira. Telefonei para ele, numa noite de embriaguez: “Pedro, preciso de sua ajuda”. Conversa vai, conversa vem, ele se dispôs a me emprestar uma de suas namoradas. Como não confio nele, telefonei também para Mário Saveiro. Não lhe contei a breve história da conversa demorada com Pedro, mas pedi o mesmo favor: “Preciso de uma ajudante por um dia”. E lhe relatei o meu devaneio. “Receberei uma garota em minha casa e quero me mostrar civilizado”. Saveiro parecia em pleno mar: “Pode contar comigo; arranjarei uma pin-up letrada para você”.
 A mocinha se apresentou muito cedo. “Vim a pedido de uns amigos”. Permaneci discreto: não me interessei pelo tipo de amizade que os unia. Resumi-lhe meu projeto: “Quero parecer exótico e, ao mesmo tempo, educado. Imagine-se minha secretária do lar desde 2011”. Fiz uma pausa: “Qual o seu nome real?” Ela titubeou: “Maristela da Conceição”. E se disse preocupada. A outra poderia conhecê-la. Inventei: “Não conhece, pois mora em Curitiba”.
Após o almoço, chegou a estudante. Depois de dez minutos de diálogo inútil (desfiei cinco ou seis mentiras, para me dizer muito atarefado, sem tempo para sucos e biscoitos), ela balbuciou isto: “Li uma crônica do senhor”. (Quando meninas me chamam de senhor, tenho ganas de sentá-las em meu colo, como um avô dos tempos de Platão).
Maristela ia e vinha, feito barata tonta, doida para nos servir. Examinei o relógio: “Aceita um lanche?” Interrompemos o assunto da crônica e perdemos cinco minutos a analisar o valor nutritivo da carambola. Servidos, calamo-nos por mais dois ou três minutos. “Qual delas?” Atenta como poucos, Godiva não pareceu hesitante:  “O título é O que significa talento?” Remexi-me no sofá: “Gostou?” De novo sem hesitação (eu poderia ter me referido ao suco ou à crônica), afirmou: “Demais. O senhor é cronista de primeira grandeza”. Senti-me incomodado. Elogios me deixam acanhado.
Sentados à mesa da sala de jantar, servidos pela competente Maristela, eu me divertia com a sensatez e a vivacidade da pequena curitibana. “Fiquei muito curiosa. O que é talento?” Lambisquei a torta holandesa (encomendada no dia anterior) e tratei de ser objetivo: “Está nos dicionários, minha filha. No sentido a que me referi, significa grande e brilhante inteligência; agudeza de espírito, disposição natural ou qualidade superior. Não achei necessário repetir o ensinamento dos dicionários”. Maristela parecia não entender nada e até demonstrava mal-estar. Talvez tivesse imaginado cenas de sexo explícito, ménage à trois ou extravagâncias pós-adâmicas. A jornalista lambia os beiços: “O senhor pode traduzir isso?”. Tentei ser mais claro: “Escritor talentoso é aquele que tem boa memória”. Sorriu: “Então qualquer ser humano de boa memória é capaz de criar uma obra-prima?” Tive vontade de ir ao banheiro: “Nem sempre. Entretanto, será bom escritor quem conseguir captar em mais detalhes o que vê e ouve. Pois a maioria não tem olhos nem ouvidos para o que chamam de besteira, tolice. O bom escritor tem os sentidos mais aguçados”. Adivinhei a próxima pergunta: “É a curiosidade?” Espiei para a falsa doméstica: “Talvez seja. Mas não basta ser curioso. Porque os gramáticos, os jornalistas, os ensaístas também são muito curiosos e têm boa memória”.
Tentei ser mais claro: “Sem essa memória, essa curiosidade, esse aguçamento dos sentidos, não é possível criar obra de arte ou literatura de primeira ou de segunda. Em arte, o conhecimento vale muito, mas nem tanto. O escritor pode virar e revirar a gramática, aprender idiomas, decorar todo o dicionário, fumar maconha para despertar a imaginação, inventar palavras. Pode até viajar para a Europa, a Ásia, a África, a Lua, atrás de aventuras, novidades, exotismos. Pode viver dias e dias com algum gênio ou escritor talentoso, conversar com ele, aprender-lhe as manias, os gestos, os sestros. Se for medíocre (esses de terceira, quarta ou quinta categoria), não passará disso. Porque talento não se aprende ou não se ensina. Vem nos genes”.
A menina entrançou as pernas e pôs os pés no assento da cadeira. “O que o escritor de talento vê e ouve?” Fiz de tudo para ser modesto: “Vê a ruga no rosto da mulher e sabe que ali se esconde a solidão. O escritor medíocre pode até ver a ruga, mas só enxerga descuido e velhice no rosto da mulher”. Maria Godiva passou a mão na testa: “E o que ouve o escritor de talento?” Eu me enruguei na cadeira: “A frase dita por garçonete a outra, enquanto caminham pelo corredor do restaurante: ‘Ele não me quer mais’. O escritor medíocre pode até ouvir isto, mas atentará apenas para os cabelos pintados da empregada. O outro, o talentoso, perceberá a desilusão da moça, assim como os seus cabelos pintados, e, mais tarde, noutro dia ou logo, escreverá versos como ‘A minha vida é um barco abandonado’. A visitante sorriu: “Fernando Pessoa?” Tive vontade de abraçá-la, como se abraça a última gaivota que parte para sempre. Busquei com os olhos a secretária e lhe pedi água. E recitei: “O amor é sede depois de se ter bem bebido”. A estudante tomou um susto: “De quem é isso?” Não me apavorei: “Se não me engano, Guimarães Rosa”.  Tomei um gole de suco: “Se o amor é sede, a poesia (a arte) é a sede e a água, é a água e a pedra, é o chiar da água e o tormento da pedra”. As duas riram e perguntaram ao mesmo tempo: “De quem é isso?” Não me lembrava: “De algum louco”.
Fortaleza, 17 de agosto de 2012.
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