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sexta-feira, 31 de agosto de 2012

O alto da montanha (Geovane Monteiro)


Para Grace   
                                                                   

Era verão e a vida simplesmente existia. Eu reparava a tarde flamejando no relógio da torre e tolerava o calor. Aos poucos, desconfiava procurar uma beleza. Mas onde encontrá-la, se me havia apenas o verão cobrindo a cidade? Andava distraído pelas ruas e queria dar um nome a tudo que eu suspeitava ser majestoso. Mas o medo de errar... Temia chamar de belo o que mais tarde poderia ser traído pela minha liberdade.
         Mas não caminhava vaidoso. Crianças, jardins, abraços (o detrás do verão?) são existências inevitavelmente belas, são evidências. Eu começava a assumir e a desprezar essa falta de saída. Queria um desafio maior: Saber quem sou, ao descobrir um mundo que eu ainda não soube dar. Não pretendia as lindezas, sem antes conhecer minhas perplexidades.  A admiração por um presente exigido dura o murchar de uma flor num copo d'água. Tão fácil beleza e tão duro abandono. Meus olhos queriam que eu me entendesse. Somente me encontraria enquanto procurasse no outro a beleza que diz verdadeiramente quem sou.   
Foi quando, um dia, ganhei de uma amiga uma pedra. E se eu andava a conhecer belezas que precisam ainda ser belas, a pequena pedra me permitiu da incompreensão uma vontade de alegria. Sem compreender, eu tinha o grande agradecimento me fazendo apertar o presente. Parecia querer dividir com ele a esquisitice. Não estava lavrada, não pertencera a antiquário, não serviria senão para figurar entre outras à deriva no mundo de pedaços de rochas. Qual sua beleza? A forma vulgar e a cor amarelada não a faziam especial.  A amiga me entregou o presente sem nada explicar, para não se sentir contrariada com a própria aproximação.
- É sua, dizia confiante e indecifrável. E sob o verão de uma manhã que simplesmente existia, fui ao encontro do incomunicável objeto.
Cabendo na palma de minha mão, comecei a apertá-lo inutilmente. Nunca saberia como acarinhar uma pedra nem dela fazer ornamento. Então eu esconderia das visitas aquilo que já ocupava meu tempo de viver? Aquela coisa imbatível e definitiva não se desviava dela mesma. Quando eu podia revê-la, estava lá mais uma vez pronta e sem nada esperar. Eu escolhia sem critério algum lugar da casa para repousá-la. Mas, a qualquer novo endereço, o seu ar resistente e impessoal. Pedra é uma liberdade. De olhá-la muito, ela se tornou também confiante e indecifrável. Sendo ainda apenas evidência, não precisava de mim para nada e me sentia ingrato por não entender que beleza havia naquela natureza muda e dura. Jogá-la fora e ficar com a gratidão? Pensei mais fundo: “Tão cômodo precipitar-me diante das coisas ainda sem beleza.” Uma pessoa não o é enquanto agirmos imprecisos e unânimes. Minha confiança será traição, se meu desejo, que é bom, for apenas minha forma interesseira de viver.
Mas já me familiarizava com o silêncio severo da pedra. Se a desprezasse, já outra existiria áspera, fria: um presente. Uma vez, minha secretária, limpando-a com vaga crença, dizia, severa: “Nada é o que parece ser”. Seu rosto, excessivamente profissional, me pôs a salvo, sem estar claro qual o perigo. Embora desenhada há milhões de anos pela natureza, a pedra “não é o que parece ser”. Sua falta de mensagem me fazia submisso. Nada eu poderia fazer contra ou a favor. Ela não recebia transmissão e eu começava a cobiçar sua forma oculta inscrita na própria imagem palpável. Não enxergava mais no objeto uma pedra; em verdade, eu já havia ultrapassado essa etapa, quando me sentira desafiado por não ter visto algum sentido no presente. Mas agora com que prazer me encontrava de posse dela? Enquanto estiver claro somente a posse em si, a amizade será apenas meu modo de solidão. Enquanto me envergonhar de obedecer a meus mistérios, o amor pela amiga será sempre a forma de eu me acusar. Precisava ser capaz do que já ganhei. Mas se tiver medo da beleza, nunca saberei usar minha alegria.
Eu, um iniciado na vida. Agora me encorajava a enfrentar a beleza da amiga e a desafiar os segredos de não me permitir. Como um selvagem, preciso do destino de simplesmente viver – o verdadeiro canal para as coisas belas. Eu desconhecia a amiga, chamando-a de bela exclusivamente porque o é, e posso contrapor-me a outros olhares. Eu ia pela facilidade do sim ou do não ensinado desde sempre. Nunca poderei senti-la bela, se eu não assumir uma pedra solta da alma. Se minha liberdade estiver perdida em meus aprendizados seculares, não conhecerei nenhuma face, e o explícito será sempre uma margem de erro.
 Livre e gratuita, a pedra de nada é culpada. Eu já a queria dura e muda. Mas, se eu nunca for capaz de minha verdade, ela ferirá a mim com sua potência apenas natural. Daí a pouco descobria que não se inventa uma beleza, mas se deixa ser para abrir-lhe caminho.
Passo a não precisar compreender o que está certo. A falta de respostas há de trazer minha sinceridade sem medo nem dor. Eis a beleza: Não se dá uma pedra de presente, não é eleita entre as outras, e fica o instante de apanhá-la do chão. O encanto é o desafio de ir ter com uma coisa nada bonita, mas passível de ser bela.
A amizade é um amor que não se diz; inevitavelmente ela é. Mas há o leve desafio de dar-lhe um sentido através de nossos amores talhados em pedras.

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