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quarta-feira, 22 de agosto de 2012

O contista Raymundo Netto (Rinaldo de Fernandes*)




O livro de contos Os Acangapebas (Expressão Gráfica e Editora, 2012), de Raymundo Netto, obteve o Prêmio Osmundo Pontes de Literatura, da Academia Cearense de Letras. O autor é conhecido cronista do jornal O Povo, de Fortaleza, e atualmente é editor adjunto das Edições Demócrito Rocha.

As narrativas do livro são compactas, breves, não passando de página e meia, em sua grande maioria. O sugestivo “Luzeiros”, que abre o volume, tem como protagonista um ex-pescador que produz “a canivetes” pequenas jangadas para vender aos turistas. O filho Francisco, que também se volta para o mar, representa a continuidade da tradição – ou a permanência da miséria dos que, nas praias cearenses, sobrevivem da pesca.

Carmosina, de “O mistério do sótão”, é uma personagem ambígua, enigmática. Ao mesmo tempo que é vista pelos feirantes como uma mulher áspera e “de fibra”, com seus “ataques matinais”, é também solitária, com uma profunda carência afetiva que a faz ter apego por uma boneca antiga, “de cabelos desgrenhados”, à qual se abraça, dizendo coisas do tipo: “– Oh, meu bebê, o que andou fazendo hoje, hein? Que saudade. E eu estava tão sozinha...”. Dramática personagem.

Apagada e infeliz no casamento, Cícera, de “Álbum de fotografias”, é uma personagem muito bem elaborada. Expressa a vida de mulheres que apostam e se anulam nos relacionamentos, que não crescem socialmente, inviabilizadas e/ou imobilizadas pela falta de liberdade. “Álbum de fotografias” é, nessa perspectiva, um texto exato, agudo.

“Gato”, além do tema da solidão, a de um velho que tem como único e verdadeiro amigo um gato, joga com os interesses humanos. No caso, com a avidez dos que, decepcionados, esperavam obter a herança deixada pelo velho.

“A ventura de um morto”, em seu primeiro movimento, lembra “Uma vela para Dario”, de Dalton Trevisan – o indivíduo que, na rua, agoniza e recebe a indiferença dos transeuntes ou tem seus objetos surrupiados por aqueles que supostamente o “acolhem”. Mas no conto de Raymundo Netto a impiedade parece se intensificar. Diz o narrador: “Uma senhora, passando na calçada, o viu estirado, empastado, sujo e, aproveitando o sinal, o arrastou até uma viela próxima. Chegando lá, examinou à sua volta. Não viu ninguém. Arrancou-lhe um olho, correndo com um sorriso maroto nos lábios: uma córnea!”.

“Os pregos” retrata a rotina, as relações de trabalho desestimulantes e desfiguradoras do homem no mundo moderno.

No kafkiano “Trégua”, a protagonista não vira barata, mas é ameaçada o tempo todo pelos insetos na quitinete obscura onde passa a viver. Conto de atmosfera angustiante.

“Tragédia” tem um velho viúvo como protagonista. O viúvo tem grande apreço por sua estante de livros, de onde, certo dia, despenca um volume intrigante. Conto sobre solidão e loucura.

“Os acangapebas”, que dá título ao livro, é um conto triste, trágico. Uma nota, no pórtico, informa que a palavra “acangapeba” significa “cabeça-chata”. Assim, o conto metaforiza a migração cearense, nordestina. A morte da criança, ao final, ritualiza as perdas que, historicamente, os deslocamentos acarretam. Remete, por exemplo, à situação vivida por Bentinho e sua família em O quinze, de Raquel de Queiroz.

Em “A bodega” o contista flerta com o cronista (para não dizer com o sociólogo). Conto que traz diálogos rápidos e reproduz as falas e costumes da gente simples de um bairro de Fortaleza em contato com o acolhedor e carismático bodegueiro Toinho. Um retrato do modo de ser e viver de vários tipos da capital cearense, flagrados, com sensibilidade e certo humor, no universo de uma verdadeira instituição da cidade: a bodega.

E seguem assim os contos de Raymundo Netto, que tem como marca estilística importante a invenção, aqui e ali, de neologismos, a exemplo de “saudadejavam”, “tempotodotodotempo”, “calmacalmacalma”, etc. Neologismos que surtem efeito positivo, enriquecem a frase.

O conto de Raymundo Netto, reitero, é compacto, sugestivo. Conto urbano, que flagra uma série de situações típicas do mundo atual. E que, seguramente, coloca o autor entre os bons contistas nordestinos contemporâneos.
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Rinaldo de Fernandes é escritor e crítico. Autor do romance Rita no Pomar (finalista do Prêmio São Paulo de Literatura/2009). Doutor em Teoria e História Literária pela UNICAMP. Professor de literatura na UFPB.
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