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quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Quase lendário (Clauder Arcanjo)




No cipó da noite, na cumeeira da mais esticada vara, do mufumbo mais desprezado, ele nasceu. Era madrugada de céu com estrelas descarnadas e encarnadas — melhor, sanguíneas —, crispadas no véu roto do firmamento, constelações em forma de esporão.
Teve o nada e coisa nenhuma como testemunhas de nascimento. Sem o menor fiapo de bafejo do vento aracati, única clemência naquele perdido rincão, desmundo esquecido por Deus e, hoje desconfio, também pelo Capeta.
Quando da queda, parto no chão de espinhos, o primeiro choro; a mata ficou eriçada. Devido ao susto do berro excomungado, a caipora lançou seu grito choco. Era um menino magro e ralo. Os cabelos, curtos e velhacos, como chuva no sertão de dentro. Os braços e pernas, finos que nem precisão. O estômago, vazio, que nem conversa de sacristão.
Alvorada. Réstia de sol a varar os marmeleiros. O guaxinim lambeu-lhe o umbigo, a raposa guardou-lhe a toca, e o tejo alimentou-o com seu ovo. Batismo do cão.
Na tarde amarelada, quarenta dias e quarenta noites depois, saiu, deixando, por onde passava, um rastro de trevas, fel e gosma, engatinhado esquisito.
Na mata, ele se enfiou para ser quase lendário, estrupício de todos os nossos bichos.

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