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quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Dom Pedro II em Portugal (Franklin Jorge)





O imperador D. Pedro II do Brasil desembarcou em Lisboa no dia 12 de junho de 1871 na companhia da imperatriz e logo se tornou o alvo predileto da impiedosa lucidez dos jornalistas Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão, que se apresentaram a sua majestade sem temerem passar por imodestos, como dois sujeitos que “não são nada”...

Eça, no entanto, sob o humorismo mordente das “Farpas” escritas a quatro mãos com Ramalho Ortigão – que viria a ser tio-avô de um dos maiores humanistas brasileiros, o escritor e notável memorialista Antonio Carlos Villaça –, mal-disfarçava a admiração por um monarca que “não abusava” das riquezas do seu vasto império, muito maior em dimensões territoriais e reservas naturais do que toda a Europa.

Recebido no cais do Sodré pelo rei de Portugal em pessoa, que aliás era seu cunhado, D. Pedro causou estranheza por viajar como um simples particular, sem nenhum séquito e sobretudo, o que era e continua sendo o mais espantoso, sem debitar a conta do seu turismo ao tesouro da Coroa, por entender que as riquezas do país não lhe pertenciam, mas, sim, ao povo brasileiro.

Dispensara o imperador do Brasil as honrarias devidas a um Chefe de Estado, justificando que quem visitava Portugal era o cidadão brasileiro Pedro de Alcântara e não D. Pedro II, provocando assim um vasto e divertido, embora às vezes contundente, anedotário. Decididamente, tratava-se de uma excepcional personagem.

Como vinha de um país assolado pela febre amarela, teve D. Pedro de cumprir a Quarentena regulamentar, imposta pelas normas de saúde pública, como qualquer brasileiro que desembarcasse em solo estrangeiro.

Recusou a quarentena no Palácio de Belém ou em alto-mar, num navio de guerra, como lhe facultaria o cargo e a condição real, preferindo recolher-se ao Lazareto, na companhia da imperatriz e dos demais companheiros de viagem. Nada de privilégios nem exceções para o cidadão Pedro de Alcântara!

Desfrutando em toda parte da fama de ser uma espécie de Marco Aurélio dos trópicos, ou seja, o rei mais sábio e culto da época, desmente assim a idéia que o vulgo fazia de tão notável governante, justamente o oposto do seu cunhado, D. Fernando de Portugal, que vai recebê-lo acompanhado de áulicos e sem abrir a mão dos simbolismos inerentes ao cargo que a sorte lhe destinara – a origem dinástica e o desfrute vitalício do trono de um país que se empobrecia.

Eis como Eça, fazendo as honras ao “direito da sátira” – como uma das inatacáveis liberdades do pensamento humano –, apresenta e descreve o ilustre e sóbrio visitante que pela primeira vez e de modo tão desconcertante pisava o solo europeu:

“Esteve em Lisboa sua majestade imperial o senhor dom Pedro II do Brasil. É um príncipe extremamente liberal, que usa dos requintes democráticos com a mesma profusão luxuosa que um dandy poderia ostentar, nas suas gravatas, nas suas luvas ou nos seus perfumes. Põe a coroa na cabeça com a simplicidade despreocupada com que carregaria sobre a orelha um boné de viajante. Mete debaixo do braço o seu cetro com a sem-cerimônia simpática de quem trás um guarda-chuva. Deseja que o fulgor da realeza fira tão pouco os olhos, que aquele que o notar possa confiadamente aproximar-se e pedir-lhe o seu fogo.

O senhor dom Pedro II não põe somente a democracia na sua política e nas instituições do seu império. Também a põe nos seus hábitos, nos seus usos particulares, na sua conservação, nas suas maneiras, no forro do seu chapéu e na casa do seu paletó.
Se a democracia se pudesse converter em alimento, sua majestade imperial teria acabado com ela, comendo-a com pão.

Sua majestade imperial não aceitou hospedagem que lhe estava preparada no palácio de Belém, nem a estação de quarentena a bordo de um navio de guerra.

Preferiu a mesa redonda do Lazareto e um quarto no hotel Bragança.

Quis este notável e grande príncipe dar ao mundo o espetáculo cheio de lição e de moralidade de um soberano que principia o dia mandando pergunta se há cartas para o número marcado no anel do seu guardanapo, e o termina pondo das botas para engraxar fora da porta do seu quarto.

Quantos reis não invejariam – agora principalmente que o oficio se está tornando grave – o estranho prazer deste monarca, que, abancando a uma table d´hôtel, larga das mãos as rédeas do governo para receber um palito de um estudante em férias, e passa a mostarda a um commis em nouveauté!"

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