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segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Marília Arnaud em tarde de sombras e delírios (Nilto Maciel)




Acordei hoje com vontade de ler o novo livro de Simone Pessoa: Bolsa de mulher. Fui à prateleira das publicações não lidas (são poucas, no momento) e o agarrei, com luxúria. Caminhei até a sala de leitura, caí na poltrona e pu-lo (o impresso de Simone) no colo. Mal me preparava para o delírio matinal (inicio, toda leitura, de olhos fechados, em busca de concentração e da consequente absorção da verdade transcendental, a plenitude do esvaziamento mental, etc.), mal eu me afundava no túnel escuro e sem fim do silêncio, o telefone zuniu, feito mil cigarras às vésperas da morte. Aturdido, voei até o aparelho. É da casa do escritor Nilto Maciel? Tive receio de estar a ouvir uma voz provinda da mais abissal esfera. De onde fala? Sosseguei logo: Estou no Benfica. Seria Simone? Sim. Não a cronista, a escritora, mas a estudante Simone Farias. Tínhamos nos comunicado pela Internet, ela no desejo de me conhecer, eu na intenção de me exibir. Já li o livro, mas estou com umas dúvidas. O senhor pode me dar umas explicações? Sim, se estiver ao meu alcance. Posso ir à sua casa? Só se for hoje. Quero saber se... Como se deu o big bang ou por que o bang bang chegou ao fim? Riu e eu tive certeza de ainda passar um bom dia na vida, mesmo que seja o último.
            No meio da tarde (o sono pós-almoço se havia esboroado), Simone chegou. Parecia vinda do Deserto de Alvord, mais vermelha do que o Sol. Sobre a mesinha de centro repousavam três objetos: o belíssimo (que primor de edição do Armazém da Cultura!) Bolsa de mulher, de minha amiga Simone Pessoa; uma velha edição de The pearl, de John Steinbeck (li, ainda adolescente, uma versão brasileira: A pérola); e a primeira ficção longa de Marília Arnaud: Suíte de silêncios. A estudante pediu permissão para ver mais de perto, um a um, os três porquinhos (os empoeirados entes). E me lembrou um lobo mau de saia. Ou uma loba má. Eu me contentava com mergulhar neles (isto é, nela e nos porquinhos) todos os sentidos. Folheou o conjunto de crônicas de Simone e nada balbuciou. Interessou-se pela novela de Steinbeck e leu, em voz alta, um trecho: “Kino awakened in the near dark. The stars still shone and the day had drawn only a pale wash of light in the lower sky to the east”. Largou-a logo e saltou para as páginas de Marília. De que cuidava?
Quase nunca faço resumo de obras de ficção. Se me pedirem, nem sei como proceder. Também não me avezei no direito da transcrição de fragmentos, em resenhas ou artigos. Prefiro examinar o código verbal, as técnicas de narrar, os tipos de personagem, o narrador, o ambiente, etc. Apoderei-me de Suíte de silêncios e me pus a parolar, sem qualquer método, como costumam fazer os palestrantes para plateias de estudantes. A moça assestava em mim as pupilas de âmbar-gris. Arrisquei-me a falar da obra de Marília Arnaud: O leitor se depara, logo no início da peça, com o desnudamento da narradora, ou seja, a identificação do narrador como ser feminino. E aqui vai a primeira transcrição (necessária): “Se me faltassem as lembranças, estaria disposta a mendigá-las, de esquina em esquina, prato na mão”. E a quem é dirigida a narração? Com quem fala a narradora? Em muitos romances e contos, o narrador-personagem se volta para um leitor ideal ou imaginário. Em Suíte de silêncios, a protagonista se revela a outro personagem (ausente ou em pensamento), a quem chama de “meu amor”, “você”, etc. Logo na primeira página, faz a conexão de sua fala (o narrado) com o ouvinte (narratário): “O passado, meu amor, é uma casa sem portas nem janelas” (...). Por outro lado, quem é essa narradora? O leitor vai, aos poucos, desvendando tudo, desde o nome (Duína), passando por suas características físicas e psicológicas, seu passado e seu presente, sem vexames, sem sustos, sem fissuras na “narração”.  Nas novelas de paredes finas, piso tosco e teto baixo, cada frase esconde uma assombração: Sou fulano, moro em tal cidade, tenho tantos anos, pratiquei isto e aquilo, etc. É tudo aparentemente claro.
Uma das características de boa parte da literatura de confissão (do narrador) é o coloquialismo. Refiro-me à narração na primeira pessoa, uma das vigas da prosa de ficção, desde os primórdios. Há, porém, escritores que procuram fugir dessa armadilha. O coloquial pode conduzir à pobreza da expressão escrita, pelo uso exagerado de gíria e modismos. Nesse caso, a obra se faz documento sociológico de interesse idiomático, folclórico, histórico, etc. Marília, não. Seu dialeto é mais elaborado, próximo da poesia ou da dicção poética: “O passado é uma casa onde se escondem um fio de uma sonata de Bach e um riso interrompido de menina”. A estudante me pediu licença para opinar: Não lhe parece pedantismo isso? Não, não me parece. A boa literatura nunca é pedante.
E os diálogos, aquelas tradicionais falas que saciavam as histórias de intermináveis capítulos, de tramas insondáveis, com discursos recheados de metáforas e circunlóquios? Marília está liberta desse defeito. O diálogo dela é interno ou indireto. Podado, como deve ser na boa técnica da linguagem moderna. Simone me interrompeu: Não estou entendendo isso, seu Nilto Maciel. Abri o tomo, aleatoriamente. Escutasse este trecho: “Do outro lado da linha, alguém me indagava algo banal, e eu, reconhecendo uma voz que não era a sua, alegava, num tom de indisfarçável frustração, uma noite maldormida, uma enxaqueca ou um resfriado” (...). Visse a parcimônia de palavras e a exuberância de detalhes que um diálogo comum (arcaico) não consegue mostrar.
Simone Farias parecia cansada de me ouvir. Eu, no entanto, não me continha, porque, quando me ponho a falar de literatura, não consigo mais parar. Então se trata de um bom romance? Sim, uma ótima narrativa made in Brazil.
Ao iniciar outro tema (não escrevo prefácios para conduzir o leitor a um sofá macio, mas para arrastá-lo, pelo pescoço (feito rês), ao matadouro; não faço propaganda de livro, porque não sou livreiro ou editor, etc.), ao passar a outro assunto, ouvi um gemido: Estou com sede, seu Nilto. Só então tive compaixão daquela criança, tão castigada por mim, por meu egoísmo de professor. Ofertei-lhe água da fonte, sombras e delírios. E ainda lhe oferendei, por empréstimo, os três papiros sobre a mesa. Sorriu e olhou para mim, muito agradecida. Traga-mos, quando os ler.
Fortaleza, 5 de setembro de 2012.
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