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terça-feira, 25 de setembro de 2012

O luxo da memória (Ronaldo Monte)



(Igreja de Água Fria, no Recife)


Para Carlos Aranha

Estava ouvindo Handel no som do carro e de repente tive uma experiência rara. Me veio a lembrança das manhãs de domingo em Água Fria, o primeiro bairro em que morei no Recife. Bem cedinho, os fiéis eram chamados para a missa ao som da música mais bonita feita para o louvor de Deus. Eu não ia à missa, mas acordava feliz com a harmonia barroca que me prometia um longo dia de folga com direito a ver as moças passando para a igreja, um almoço melhorado e uma matinê com filme de caubói ou uma comédia com Jerry Lewis. Até hoje agradeço ao Cônego Jaime Diniz, pastor da paróquia de Água Fria, por me ter dado de presente esse conjunto de imagens que emerge em minha memória toda vez que ouço a música triunfante de Handel.

A memória é um espaço mágico onde passado e presente se fundem para formar um outro tempo em que descobrimos uma emoção nova, depurada, que abre uma clareira dentro de nós. Uma clareira onde não cabe saudade ou esperança. Um lugar fugidio, uma chispa que, apesar de intensa, depressa desaparece. E mesmo que o episódio relembrado permaneça no pensamento, a emoção se esvai para somente voltar quando outra chispa vier nos visitar.

Não gosto de começar uma história dizendo “no meu tempo...” Dá a impressão que o tempo presente não é meu. O que não é verdade. Todo tempo é meu. O passado, o presente e também o futuro, pois toda vez que faço planos estou vivendo um tempo que ainda virá. Mas não tenho nenhum pudor em começar uma história falando “naquele tempo”. Pois me faz bem falar das coisas que vivi e das que não vivi, mas ouvi falar. Das que não vivi, não ouvi falar, mas que inventei a partir de restos de memória dispersos que juntei para inventar alguma coisa que me falta no passado.

A memória é um luxo. E a melhor forma de cuidar dela é respeitar os seus movimentos. Deixar que ela nos invada e pegue de surpresa o ser incauto e distraído que dorme em nós. Respeitar, principalmente, os momentos em que ela nos falta, pois é apenas um aviso de que um dia nos abandonará. Mas enquanto estiver aí, uma música no som do carro sempre poderá nos enviar para o som antigo que nos acordava desde um alto-falante no topo da torre de uma igreja de subúrbio.

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