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sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Simone Pessoa e os pedacinhos do mundo (Nilto Maciel)




São poucos os livros de crônica chegados à minha casa nos últimos tempos. Porque, certamente, se editam mais romances, contos e poemas, além de biografias políticas, receitas culinárias, previsões de catástrofes e orientações para a salvação da alma. Apesar disso, sou leitor desse gênero híbrido (a crônica) tão fustigado por certos críticos. Gosto da crônica que se encosta no conto, às vezes distraidamente, outras propositalmente, como quem não quer nada, querendo. Apego-me também à ficção simples que deixa de lado o enredo e envereda pela poesia ou pela linguagem poética.
            Para não chegar logo ao ponto desejado (o novo impresso de Simone Pessoa), relembro alguns cronistas que me fascinaram na adolescência e depois: Machado de Assis (descobri num sebo uma antologia dele), João Brígido (que escreveu e interpretou a História do Ceará), Rachel de Queiroz (desde os tempos da revista O Cruzeiro, das brincadeiras de Péricles de Andrade Maranhão com aquele safado Amigo da Onça), Milton Dias (eu o lia, suas histórias de cunhãs, toda semana, nos jornais de Fortaleza), Airton Monte (inicialmente, o mais festejado e admirado contista de nossa cearense – geração), para ficar apenas na província do Siará e no universo machadiano.
Pois passemos logo ao repertório de Simone, antes que me sorvam os cronistas mais antigos (como aquele Pero Vaz, provindo de Portugal para falar da beleza de nossa gente, aquelas meninas nuas na praia da Bahia –ainda não se chamava Bahia, mas ainda se parecia com o Jardim do Éden, e nem negros havia por lá). Ou como aqueles diligentes hebreus tão ciosos de seu passado, dispostos a registrar um a um (ou quase todos) os nomes de seus “patrícios”, naquele conjunto de crônicas fundadoras de tantas religiões.
A obra de Simone Pessoa intitula-se Bolsa de mulher. Li-a quase toda antes de ser livro. Simone me mandava semanalmente uma peça, às vezes antes de se estampar nas páginas do jornal O Povo. E eu reproduzia no meu blog. E fui gostando daquilo. Tal como José Castello. Pois escreveu para as abas: “E crônica – gênero sem gênero, que oscila entre os vários gêneros, acolhendo a todos – é literatura por excelência. Simone Pessoa tira partido dessa inconstância: escreve com leveza, e, como quem não quer nada, avança sobre os temas mais densos e perigosos”.
O objeto intitulado Bolsa de mulher está bonito, feito bolsa de mulher. Qualquer bolsa, seja pobre, seja rica. Seja de grife, seja de pequena “fábrica” artesanal. Porque fabricado (este Bolsa de mulher) ali na Rua Jorge da Rocha, ruela da velha Aldeota, da abnegada e voluntariosa Albanisa Dummar Pontes, a criadora desta fábrica de guloseimas literárias chamada Armazém da Cultura. Não falarei da capa (Suzana Paz), com aqueles desenhos de gatos, cachorros, sapatos, relógios, calcinhas, brincos, tudo em miniatura. Deixo isso para os conhecedores de criação gráfica.
Não cuidarei tampouco das crônicas (o conteúdo), porque são muitas (quase uma centena) e não disponho de espaço (seria aptidão?) para me alongar nestas linhas de comentarista sem diária. Basta-me dizer: adorei as crônicas de Simone, desde a primeira, aquela confissão de escritor: “Tenho uma doença crônica desde que tomei consciência de mim”. É a doença da literatura, da criação literária. “Aliás, desconfio de que se você chegou até aqui é porque já é tão doente crônico quanto eu. Deve igualmente ser sensível à poesia. Provavelmente, se emociona diante do simples, do belo e do singular”.
Simone, como todo bom cronista, sabe lidar com os mais variados assuntos. Ou não os teme, não foge deles. Assim, não deixa de lado visitas à cartomante, o tilintar do triângulo de metal do vendedor de chegadinhos ou uma tarde no cabeleireiro. Está atenta, muito atenta, aos movimentos do mundo, das pessoas, da cidade. E sabe registrar cada pedacinho desse universo. Como uma sala de estar moderna: “Na sala tomada de móveis antigos, uma estante de madeira escura com vitral fosco e jateado repleta de livros empoeirados. Retratos esmaecidos de antepassados na parede”. São descrições soberbas, próximas do retrato e do realismo dos grandes escritores. Sem se tornar enfadonha (a descrição) e sem aquela bizarrice dos que nada sabem contar.
A narradora de Simone Pessoa – quer como ela mesma (muito comum em crônica), quer como personagem não identificada por nome – é mulher sem papas na língua, que se desnuda, se desvela, sem pejo. E pode ser muitas. Não é necessariamente a mesma mulher em cada uma das crônicas. Ou poderá ser. Assim, em “O homem de paletó” a gente se depara com uma revelação, o mistério, o sonho, o desejo reprimido da personagem: “Desliguei a luz da cabeceira para me aninhar entre os lençóis. Quando me virei para encontrar posição mais aconchegante, olhei de relance para a parede... Um susto! Na penumbra do quarto, por trás do cabide, um homem alto, de paletó, estava parado.”
Bolsa de mulher não é apenas um painel de observações do cotidiano de Simone ou de qualquer mulher brasileira. É também um exercício de poesia contínuo, rotineiro, próprio de quem se dedica integralmente ao ofício literário ou de escrever poeticamente.
Fortaleza, 19 de setembro de 2012.
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