Pesquisar este blog

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Você pode (W. J. Solha)




          Quando trabalhava na agência do Banco do Brasil em Pombal, vi um colega – Roberto Peixoto de Mello – hipnotizar um garoto, fazê-lo enrijecer-se em pé, depois incliná-lo, carregá-lo no que o horizontalizava, deitá-lo com os calcanhares apoiados no encosto de uma cadeira, a nuca no espaldar de outra, depois colocar-lhe um peso no estômago, sem que o menino mostrasse qualquer reação, petrificado.
          Aquilo me mostrou o quanto a Humanidade ainda pode alcançar.
       
        Quando, lá mesmo, em Pombal, trabalhávamos na pré-produção do filme O Salário da Morte, vi um de nossos atores – Balduíno Léllis – dar quatro ou cinco passos e, ao ouvir grito “Já!”, voltar-se rápido, acocorando-se, no que sacava o 38 e – como nos faroestes – disparar três vezes quase que em uníssono, acertando cada exato ângulo de um pequeno triângulo que traçara a carvão na parede, no lugar do coração de um homem. Perguntei-lhe como fora possível, e ele me disse a mesma frase que eu ouviria anos depois no velho seriado do Kung-Fu, em que o mestre oriental diz ao discípulo que retesa o arco, de olho no alvo: “Não pense”. Ou seja: confie no Inconsciente. E Balduíno: “Se mirar, erra. Quer ver? Aponte o dedo, rápido, pro Linduarte e fique imóvel.” Fiz isso. “Agora, sem mover a mão, olhe por cima do indicador, como se ele tivesse alça de mira.” Fiz isso. O rumo estava perfeito: a cabeça do diretor.
        Quando lutava para escrever meu primeiro romance, duvidei de minha capacidade criativa e tive, então, um sonho: caminhava, sabia que numa metrópole embora não houvesse prédio algum nos quarteirões. Nas ruas, centenas de mulheres – só mulheres indo e vindo para o trabalho, supermercados, lojas. Aí entendi que estava sonhando e me detive, sem que “o filme” parasse. “Meu deus, eu estou inventando todas elas!” E elas prosseguiram seu tráfego apressado sem dar por mim, cada uma com seu mundo interior. Marquei uma moça muito bem vestida que vinha na calçada, lá adiante, ensimesmada, uma das mãos no bolso da capa amarela e a vi aproximar-se, aproximar-se, passar por mim, com todos os seus fios de cabelos e seus poros, e se ir. “Somos... geniais!”
          Transferi o sonho para o evangelista Lucas de meu terceiro romance – A Verdadeira Estória de Jesus (Ática, 1979). O primeiro, Israel Rêmora, que aquela noite destravara, ganhou o Prêmio Fernando Chinaglia em 74, o que implicou na publicação pela Record, do Rio, no ano seguinte.
             Shakespeare sabia das coisas. Hamlet diz, lá pelas tantas, mais ou menos isto:
         – Há uma divindade (divinity) que dá forma a nossos projetos, por mais toscos que sejam.

/////