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sexta-feira, 19 de outubro de 2012

O mundo dentro de mim (Ronaldo Monte)





Um dia eu estava assistindo a um programa sobre vinhos e me impressionei com um vinicultor grego, com ares de sacerdote pagão, afirmando que as cepas que cultivava nas encostas de um monte iam buscar os nutrientes no fundo da terra. Beber aquele vinho, portanto, era entrar em comunhão com a terra, levando para dentro do corpo o que a terra tem de mais puro, mais profundo e mais sagrado.

Desde então, toda vez que bebo vinho, tenho a consciência de que estou incorporando a terra do país em que foi produzido. O que significa que, com o tempo, meu corpo passou a carregar um pouco da terra de muitos países do mundo. França, Itália, Espanha, Portugal, África do Sul, Argentina, Uruguai, Chile... Isto sem contar os territórios gaúchos e franciscanos. Estou até pensando em perder de vez o preconceito e provar alguma marca da Califórnia.

Sei que algum amigo maldoso deve estar insinuando que a maior parte do meu corpo é ocupada pelas terras da Escócia. Outros, mais maldosos, dirão que sou ocupado por terras mais próximas, a exemplo do brejo paraibano. Lembrarão também dos territórios anônimos do malte e do lúpulo levados ao meu interior pelos copos generosos do chope e da cerveja.

Vamos deixar de lado as más línguas, pois estamos restritos ao âmbito dos vinhos. E não me tomem por um desses eruditos conhecedores das castas e processos, que conseguem identificar numa simples taça de vinho os aromas e sabores mais exóticos. Nem me confundam com esses chatos que não conseguem beber um vinho sem deitar falação sobre a qualidade da uva, o ano da safra, as excelências da marca.

Sou apenas um cara incapaz de acumular garrafas numa adega, que adora chegar em casa na sexta-feira com uma ou duas garrafas de vinho para beber com a mulher e quem mais quiser. E a cada fim de semana anexar novos territórios ao vasto mundo do meu corpo. 

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