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terça-feira, 9 de outubro de 2012

Tonho França: o adeus do cais (Nilto Maciel)



(Tonho França)

Eu não deveria iniciar esta crônica com um chavão, mas não temerei a cara feia de ninguém: A Internet é uma maravilha. Pronto, está escrito o chavão. E por que isto?  Porque, não fosse a Internet, eu não teria conhecido dezenas de escritores. Ora dirão os eternos insatisfeitos , muitos não valem nada, não sabem escrever, são uns principiantes. Pois tenho tomado conhecimento de centenas de bons escritores, primeiro na tela do computador, depois em livros. Esta semana foi a vez de Tonho França, que mora em Guaratinguetá, São Paulo, nasceu em 1965, publicou quatro obras e, com outro jovem escritor, Wilson Gorj, criou a Editora Penalux. (No prelo, mais um manuscrito meu. Umas memórias literárias. Porém, isto é assunto para depois).
            Não fosse o prazer de conhecer escritores jovens ou velhos, a Internet ainda me deu (e dará) a felicidade de me aproximar de pessoas maravilhosas. Sem ela, não teria me abeirado de Sofia Correia. Conto como foi: Acordei um dia cedinho (costumo sair da cama com o sol a meio caminho do zênite), liguei o computador e fiz uma busca: Sophia Loren. Por que isso? Porque horas antes tivera um sonho: encontrava-me com a atriz em Roma. Caminhávamos pela Via Appia, chovia fininho, fazia frio, era noite. Súbito, aparecia um sujeito com cara de Marlon Brando jovem e se punha a me chamar de vagabondo, plebeo, gaglioffo. E eu despertava. Como observou o eterno William, pelos lábios de Hamlet: “There are more things in heaven and earth, Horatio, / Than are dreamt of in your philosophy”. Pois não é que outra Sofia me apareceu naquela mesma manhã? Assim: deixei a Loren de lado e passei ao correio eletrônico (todo dia leio primeiro as mensagens de meus amigos e da gente nova, depois de deletar as armadilhas dos hackers). E lá se achava, na primeira linha, certa Sofia Correia. Em três dias de mensagens curtas, eu já sabia trinta curiosidades dela: amava os Beatles e os Rolling Stones, lia Julio Cortázar todo dia, gostava muito de meus “textos”, tinha uma cadela chamada Teresa, etc.
Volto ao assunto principal desta crônica: recebi semana passada, de Tonho França, seu mais novo rebento: O bebedor de auroras (Rio de Janeiro: Futurarte Poesias, julho de 2009). A capa, de Luiza Romar (em azul, preto, branco e amarelo), é um primor. O prefácio vem de meu amigo Tanussi Cardoso. O impresso tem 80 páginas: versos, prefácio, posfácio (de Igor Fernandes), sumário, etc. Li-o em seis dias, entre um gole de Hamlet e um naco de Cortázar. No sétimo dia, deu-se o pecado: a menina dos Rolling Stones surgiu em traje de ninfeta aos meus olhos cansados de letras. E pus-me a ler para ela os tantras de Tonho França: “Na soleira, deixo minhas rotas e meus mapas antigos”. Ela bateu palmas: O viajante, o explorador, o aventureiro, o poeta que parte livre. Sim, deve ser isso – exaltei-me, e corri à geladeira para lhe trazer suco de uva. Ela pediu para ler em voz alta: “Não percebo mais minha estrela polar / e todas as preces que sabia”. Tentei dar uma opinião. Ela me fez calar e eu me embasbaquei. Pensei: Para que servem guias e pedidos de proteção? Ela continuou a leitura, enquanto molhava os lábios de roxo: “A mesma xícara de todos os dias / onde me sirvo numa entrega plena, completa / num ritual todo íntimo / como cabe à solidão e ao poeta”. Pensei em fugir. Fiquei e balbuciei: Eu não disse?
Deixo de novo a doçura de lado e me atenho ao que Tanussi Cardoso anotou (a essência da arte de Tonho): “Distanciando-se de um tipo de poesia, ora anódina e de conteúdo inócuo, ou de uma outra, que considera a realidade objetiva como tese de poesia e não de prosa, os poemas de Tonho França têm a propriedade de iluminar o cotidiano”.
De volta à realidade, sugeri a Sofia uma leitura mais amena, como o “Cântico dos cânticos” de Salomão. Ela recusou a troca: Hoje prefiro este poeta. E voltou a ler: “Tenho nas mãos uma lua e duas moedas antigas / brinco de jogar pedrinhas”. Fiz nova interrupção: É a brincadeira, a infância, a pureza, que é poesia, que é metáfora. Ela fechou o volume: E há poesia sem pureza? Sim, há. Pois o que é o absurdo, o “demoníaco”, o inaceitável? Ela se levantou do sofá: Este poeta prefere ser divino e, ao mesmo tempo, visível. Abriu de novo o tomo: “o vento que toca em meus cabelos longos / é íntimo conhecedor de destinos”. Olhei para o céu, pela porta entreaberta: Ora, pois, é o vento (são os ventos) quem nos conduz.
Quando ela se retirou, reli o prefácio de Tanussi: O bebedor de auroras “tem certos motivos preponderantes: emoção à flor da pele, poemas autobiográficos, preocupação existencial e social, visão ambígua do cotidiano, musicalidade, boa escolha vocabular, imaginação vertiginosa, a imensa solidão do poeta, o fazer literário, e uma eterna ‘viagem’ como símbolo abstrato de uma liberdade, mais sensorial do que real, em que o poeta se debate, entre ‘estrelas e luares’ e o caos urbano”. Ufa! Sim, ufa. No entanto, era isto o que eu queria dizer.
Não sei se por culpa de Sofia, saí da leitura de O bebedor de auroras como quem entra num outro mundo, numa outra dimensão. Como se tivesse morrido e aqui estivesse para constatar a enorme diferença entre vida e morte, entre ser e não-ser, entre o real e o sensorial. Lembro-me de ter lido para ela: “Há os que precisam ancorar / Há os que desejam se perder”. E ela comentou, muito séria: Chegar e partir. Aportar ou sair aos mares. Li trecho do posfácio de Igor Fagundes: “Tonho França parece bastante ciente de que a poesia, então, não é uma fuga à realidade, a um reino da fantasia que se lhe opõe, mas, arrebatadoramente, significa o encontro intensivo como o que, na realidade, persevera com sua potência e vigor”.  
Encerramos aquela tarde (eu ia dizer fagueira, mas pareceria tão fora de moda o adjetivo, que me calo) com mais versos de Tonho: “Um ponto no horizonte, as dores nunca mais, / Quem dera pudesse, o adeus do cais...”
A fagueira (agora ouso usar este romântico adjetivo) Sofia Correia, tão adornada de rubros lábios, se despediu de mim e saiu. Guardei os saltérios de Tonho numa estante e fui dormir. Talvez sonhasse com Sophia Loren, sem Marlon Brando por perto.
Fortaleza, 3 de outubro de 2012.
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