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domingo, 2 de dezembro de 2012

Herança (Emanuel Medeiros Vieira)

“O amolador segue, dobra no fim da rua e some/A noite engole o dia; a fome, agora, é outra fome” (Fred Souza Castro – 1931-2012)


Para Gerônimo Wanderley Machado, Remy José Fontana e Yan Carreirão


 









Tudo o que vivemos se apaga.
Não?
Algo de nós ficará?
O que se fez, deixará marca no mundo?
Evaporará no oblívio?
Tudo se dissipa no esquecimento?
Seremos órfãos dos sonhos da juventude?
Ou a ele fiéis?
Não vendendo a alma aos quarenta anos?
Continuando a fazer – sempre.
Seguindo a Rua, remando (tantas vezes) contra a maré – mas remando.
Por nós, pela dádiva de cada amanhecer, por cada amor vivido, pelos amigos mortos, pelos cabelos brancos, pela vida.
Somos efêmeros – sim, transeuntes.
Mas algum gesto na jornada terá sido eterno.
“O tempo é uma nave sem governo.  Umas vezes baloiça-se nas ondas oleosas. O tempo é uma perpetuidade cansada; o chão que pisamos é feito de infinidades, o sol despenha-se do alto para que o recebamos, e não para medir a noite e o dia; Cada livro é uma peregrinação.” (Agustina Bessa Luís)
E viveremos cada dia, sim, cada dia, até a outra Rua – a Terceira Margem.

(Salvador, outubro de 2012)

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