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quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Resumo das manhãs (Ronaldo Monte)



Nossos pés descalços na praia descalça caminham esta manhã que mal começa e já nos deu tudo o que pode uma manhã. Um azul luminoso, um vento generoso e um espelho de mar ávido de horizontes. As casas ainda sonolentas jorram pessoas sonolentas em busca dos mais diversos destinos. Mas nossos passos andam alheios a qualquer destino. Tudo o que temos a decidir é o momento da meia volta que nos mostrará o lado da manhã que se ensaia às nossas costas. Pouco importa o nome dos passarinhos que brincam de ir e vir com as lâminas de água que avançam e recuam pela orla. Não sabemos bem o que eles fazem, mas parecem se divertir. Claro que o ritual deve ter uma finalidade para o bem da espécie. Somos nós que brincamos de ver. Nesta manhã luminosa, somos dois seres despidos de qualquer gravidade. Nossos sentidos e nossa razão estão alheios a qualquer coisa ou acontecimento que exceda os limites deste invólucro de ar, luz e mar. Somos por um instante o casal primordial, anterior a todo mal, todo pecado. E bem melhor seria se assumíssemos a condição dos bichos, imersos na manhã sem a consciência da manhã. Como parte dela, apenas. Mas somos humanos, meu amor. E sabemos o destino das manhãs. Mas não tentemos prever o destino desta manhã. Deixemos por enquanto que ela nos leve até onde nossos pés possam caminhar. Até onde nossos olhos possam se deixar inundar da sua beleza. Até onde todos os nossos sentidos se espantem com a eterna novidade dos dias que começam. Foram muitas as manhãs que caminhamos. E muitas delas, em muitos e diferentes lugares, se ofereceram assim ao nosso espanto. E por sermos íntimos das manhãs, sentimos que esta pode muito bem ser vivida como o resumo de todas as manhãs que amanhecemos juntos.
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terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Os guerreiros de Monte-mor (Astrid Cabral)




Acabei de ler as proezas de seus guerreiros nativistas. Além da narrativa cheia de engenhosos lances, como o exército dos morcegos, a linguagem é sedutora. Eu, amazonense, filha de cearense por parte de pai e neta por parte de mãe, deleitei-me com um montão de palavras que me ressuscitaram a infância (só um terço do glossário foi novidade pra mim).

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Retornar ao que é perene e distantemente mais próximo de nós (Marco Aqueiva)


La poesia pone al hombre fuera de si y, simultáneamente,
lo hace regresar a su ser original: lo vuelve a sí.
El hombre es su imagen: él mismo y aquel otro. Octavio PAZ

O termo romancista distingue um escritor de obras ficcionais em prosa. Classificar uma obra como romance pode atender a uma disposição prévia, como aquela responsável por determinar a organização das obras literárias nas estantes ou gôndolas de uma livraria, porém desconfio que o termo romance não compreende mais que os esforços pragmáticos de catalogação comercial e bibliográfica, de livreiros e bibliotecários. A experiência literária supera qualquer arranjo ou presunção taxonômica, que é o que distingue um estudo cosmológico ptolomaico da cosmologia relativista. (E já estou a pôr a estrela à frente da luz em relação ao livro que pretendo brevemente comentar...) Efeito menos nocivo que a catalogação talvez seja admitir que romance faz alusão a um assunto geral, aplicado para todo escrito literário que não vem expresso em versos. É que toda tipologia – incluindo as mais elásticas e amorfas – deixa vácuos nos quais a realidade se move para ocupá-los. Ou, dito de outro modo, é mais comum do que se pensa que a configuração literária de um texto resista a lógica conformadora das teorias fechadas.

IIº Concurso de Poesia Autores S/A (Lohan Lage Pignone)




Até quando você vai continuar  supervalorizando esta cultura superficial na Internet? A Internet deve ser muito melhor, porque você pode ser muito mais. O Blog Autores S/A (http://autoressa.blogspot.com) está no ar há dois anos e meio e já conta com mais de 600 postagens de cunho artístico e cultural. Seu conteúdo atrai um público diversificado e de todas as idades, sem abrir mão da qualidade.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Sobre a campanha Literaturas em Rede


 
Literaturas em Rede, como o nome indica, é uma campanha criada pelo site O BULE (www.o-bule.com) que objetiva reunir o máximo de blogues e sites (individuais ou coletivos) de literatura. O objetivo é, com a campanha, reunir num mesmo local (e em rede) pessoas com afinidades em comum: o texto literário e tudo que gira em torno da literatura.

Quando o Amor é de Graça IX: Feche os Olhos e Pule! (Raymundo Netto)



“Deixe-me ir, preciso andar. Vou por aí a procurar rir prá não chorar”*

Então, pus o Cartola na cabeça e toquei a mesma estrada daqueles que não voltaram para contar história. E, um dia, acreditei, por perceber-me tão soltamente de um jeito: “Nada mais tenho a perder!” Coisa de assusto e libertação. Passei a pegar ônibus mais lento, do motorista duvidar se há-inda passageiro; de não olhar relógio; de não saber como nem quando voltar; de não me perguntarem se vou ou se volto e de não me esperarem para nada e por nada esperar.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Abraços (Pedro Du Bois)




Em meus braços cabe o corpo
(olhos fechados, passos rápidos,
a mão aperta minha mão)
tensiono as costas e dirijo o passo
no espaço incolor da inexistência
(olhos se abrem e mãos se desprendem)
meu abraço na oportunidade
do sonho.

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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Os números (João Soares Neto)




Ao ser libertado do campo de concentração de Dachau fez três juras a si mesmo. A primeira: nunca mais falaria uma só palavra de alemão. A segunda: sairia o mais rapidamente da Alemanha. A terceira: nunca esqueceria, ao ler os números marcados em seu braço, as atrocidades sofridas.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Equinócio: o grande espetáculo de José Alcides Pinto (Inocêncio de Melo Filho)



(Foto da encenação de Equinócio, 1977, da galeria da Casa da Comédia Cearense)

 
José Alcides Pinto é um escritor completo, conhecedor dos enigmas que rondam a poesia, o romance e o conto. Decifra-os, fazendo a esfinge cair por terra. É feliz na sua realização teatral concentrada em “Equinócio”, publicada pela primeira vez em 1973 e levada ao palco do Teatro José de Alencar em 1977, pela Comédia Cearense, sob a direção de Haroldo Serra. Em 1999 se fez uma nova edição que sustenta argumentos já discutidos não gastos pelo tempo, tais como o bem e o mal, o homem e o Diabo, e a condição humana... Estas contradições são necessárias para que a realidade da palavra não morra.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Prólogo (Tagore Biram)



(Tagore Biram)


Transcrevo o bilhete (espécie de apresentação do poema de Tagore Biram) que me enviou meu amigo Valdivino Braz. Em seguida, o poema. "Bom dia, amigo Nilto. O poema anexo abre o premiado livro "O anjo desafinado", do goiano Tagore Biram, morto no Chile em 1998. Visitou Moscou em 1985, onde participou de um festival da juventude, e este poema foi publicado lá, em russo, por um jornal de escritores. Consta que Tagore declamou poemas seus no evento e na presença do poeta Eugene Ievtuchenko, que o teria aplaudido efusivamente e gritado: Bravo! Abraço. Braz"

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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Máscara e mascarados (Tânia Du Bois)



(Desenho de Lorenzo Mattotti)

“Brasileiro é alegre, um ser dotado de musicalidade incrível”
(Bibi Ferreira)

Carnaval é a festa onde temos a oportunidade de fantasiar os sonhos, inspirados em histórias reais, pelo menos por alguns dias, fazendo do mundo que habitamos um mundo encantado.

“Quem é você //... hoje os dois mascarados //... Mas é carnaval / Não me diga mais quem é você //... deixa o dia raiar / Que hoje sou eu / Da maneira que você quer/ O que você pedir / Eu lhe dou / Seja você quem for..."

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Os escritores e a crítica - 1 (Franklin Jorge)

(Marcel Proust)

Ainda muito moço, em visita a um tio avô humanista que vivia enfurnado em sua vasta e bem escolhida biblioteca, descobri em Marcel Proust uma nova concepção de crítica, mais concisa, mais apaixonada, mais parcial, entendida sob um ponto de vista mais amplo e, de tal forma realizada, que representaria ela mesma uma criação literária autônoma e digna da obra que a inspirara.


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Meditando 2 (Emanuel Medeiros Vieira)


A maioria das pessoas lê pouco
(quando lê)
desinteressadamente
desengajadamente
apressadamente
(Sem emoção, como estivessem consultando um catálogo telefônico)
“Pulam páginas”, pois estão desabituadas do prazer de ler no “livro” –
Apenas passam os olhos na internet.
Passam os olhos em tudo.
Saudosismo? Pessimismo?
Retêm pouco do que “leram”
(telegraficamente, superficialmente).


quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

O prisioneiro (Carlos Nóbrega)



Eu prefiro amaldiçoar a escuridão
e soprar a chama das velas
de quem acendeu velas
para apagar a escuridão


Eu quero é o sol
como todo homem,
o escândalo da luz inteira.

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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

A poesia do cotidiano de Ronaldo Cagiano (Adelto Gonçalves*)


I

O sol nas feridas é um inventário lírico da trajetória de Ronaldo Cagiano (1961), cobrindo um itinerário poético que começou em 1989, com a publicação de Palavra engajada, depois de sua saída da pequena Cataguases – “para não ficar menor que ela” –, passando por uma longa vivência em Brasília, até a sua recente transferência para São Paulo – “a metrópole apavorada e catatônica” – e viagens realizadas nos últimos anos a Portugal, Irã, Espanha e Argentina.

Alguns versos de Batista de Lima dignos de moldura (W. J. Solha)




Como costumo ler com marca-texto na mão, O Sol de Cada Coisa - de Batista de Lima - me proporcionou bela coleção de achados:


Palavra são panos poucos
a cobrir tantos abismos

um domingo
que se cansou de ser semana


a procissão se indo
com um santo de costas
no vazio do andor


terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

A menina e o cachorrinho (Assis Coelho)


 
Quando chovia no bairro parecia que os rios migravam para as estreitas ruas. Era quando a meninada podia banhar e brincar naqueles pequenos rios turbulentos. Nem ligavam para o que vinha com a água barrenta. Era só começar a chover e saíam dos barracos com bolas velhas, bacias que se transformavam em barcos, restos de carros que se tornavam pranchas e outras improvisações que compunham o cenário de um balneário às avessas.

Gliese 58/C (Teresinka Pereira)




Se não gosta dessa
Terra
vá para o planeta Gliese 58/C
que fica na órbita
da estrela Anã Vermelha.
Mas vá depressa
antes que os americanos
cheguem lá.
No abismo do universo
há lugares ilimitados
para se viver em paz,
mas só
antes que
a Wall $treet
os incorpore.

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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Equívocos, co-autoria e a morte do livro (Valdivino Braz)




Volta e meia, a cada ano que se inicia, o jornalismo cultural nos solicita e publica um “programa de leitura”. Meio que avesso à contingência de preestabelecer e repassar relação do que pretendemos ler no decurso de um novo ano, me pergunto em que, a fundo, isso possa interessar e ser útil a algum leitor, leigo que seja ou letrado em matéria literária. Alguma concreta curiosidade ou real interesse quanto a isso? Quem, realmente, quer saber o que estamos lendo, ou se interessa pelo que vamos ler? E para quê quer saber? Sabê-lo servirá, porventura, a algum parâmetro ou nobre propósito? Constituirá, aqui e agora ou algures, alguma espécie de farol, sinal indicativo, vetor valorativo, substancial roteiro de leitura?

“Ó beleza! Onde está a sua verdade?” (Tânia Du Bois)



A fórmula que faz você bonita por mais tempo é mágica que mexe com a imaginação e com os sentidos, e que pode ser alcançada através da leitura.

Não é necessário ser novo para ser bonito, mas é preciso ler para adquirir cultura e “flutuar na magia”.

Essa é a verdade!

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Folhas verdes e pimentões no pré-carnaval (Nilto Maciel)



Todo dia me prometo ler, pelo menos, 50 páginas de livro, a cada 24 horas. Toda manhã, antes de pôr os pés no chão, me proponho escrever uma crônica/resenha, de dois em dois dias. Há anos me puno por não cumprir tais prometimentos. Qual a punição? Chamo-me (entre quatro paredes) de mentiroso, safado, enganador, velhaco e mais uma centena de substantivos e adjetivos de uso comum. Insatisfeito com a brandura do castigo, aplico-me incontáveis bordoadas imaginárias (como o fazem aqueles penitentes cristãos no sertão nordestino e faziam aqueles pobres europeus da Idade Média). Na verdade, termino o julgamento tão benigno quanto uma monja virgem e apenas me imponho a tarefa de engendrar ou tentar esboçar um conto. Se não tanto, pelo menos rabiscar o futuro feto, seus contornos de monstrinho.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Primos versos (Silmar Bohrer)



Entrei neste ano novinho
com alguma inspiração,
versos vêm e versos vão,
tratados todos com carinho.


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Restos do tempo (Ronaldo Monte)


Resta ainda uma fachada do que antes era casa. As baronesas do açude fingem de pasto para bois imaginários. Fantasmas banham-se nas águas que tomaram os lugares onde se comia, se conversava, se dormia depois do amor. As almas dos bois, dos carneiros e das galinhas misturam-se às alminhas dos pagãos e às almas velhas que de tanto pecar perderam o direito ao repouso eterno. A luz solar afasta qualquer possibilidade de descanso aos mortos prisioneiros de um tempo de nada. Tempo que não passa por não ter para onde passar. Ninguém guarda esses mortos na memória. Ninguém vai reerguer a casa que bóia nas águas do esquecimento. Esquecer não é passar. O tempo sabe disso. O tempo sabe também que a memória é coisa viva, mutante. De tempos em tempos, a memória se transforma. As dores se dissipam, os males se dissolvem. A dor e o mal são apenas sinais do que não deve ser repetido. O tempo é isto. Uma estrada marcada por sinais. Ali fomos felizes. Mais adiante sofremos. Logo depois tivemos um pouco de paz. O tempo é nossa matéria e nosso herdeiro. Pois quando não pisarmos mais o chão da terra, será o tempo que dirá de nós aos que ficam. Será também o tempo que cuidará do nosso esquecimento.

Coisas Engraçadas de Não se Rir XI: Mas nem Assim? (Raymundo Netto)




Seguramente a insegurança tomou-nos de assalto em tema banal. Vivemos num Rio de Janeiro, entretanto, nosso Cristo Redentor não traz mais uma cruz, esta foi depredada, restando em seu lugar um “T”, provavelmente, de “Também eu fui roubado!”.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Um Anhanguera cultural (Ubirajara Galli*)



(Franklin Jorge)

Goiás, ao longo de sua história, desde a colonial, tem sido visitado por ilustres personalidades como Burchell, Saint-Hilaire e Carlos Pereira de Magalhães, entre tantos outros que registraram as belezas naturais, potencialidades econômicas, valores humanos e culturais goianos.

Fronteiras (Pedro Du Bois)




Na fronteira passo minha inexistência.
Trêmulas bandeiras desencontradas
evitam a minha mão. Desfaço os nós
presos ao estribilho e torno o hino
impatriótico na universalidade.
Espaço o caminho das ultrapassagens.
Ao lado é estar aqui na consequência.

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terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Os escombros (João Soares Neto)



 
Não, não acreditava. Acordara da sedação imposta e passara a mão no lado vazio da cama. Ainda tinha o cheiro dele. Aquele cheiro forte, acre, que o seu olfato identificava tão bem e mexia com seu corpo. Bastava sentir o cheiro e estava pronta. Ele não se fazia de rogado. Tirava a farda de bombeiro e a puxava para a cama. Faziam amor até quase desmaiar. Era amor bruto, em que tudo acontecia. A língua dele penetrava em suas narinas, acendia um fogo que a deixava molhada e em êxtase. Não entendia. Um dia, perguntaria a uma amiga se isso já lhe acontecera alguma vez. Dormiam nus, atravessados na cama. A grossa perna dele por cima de seu corpo esguio. Era bom sentir o peso do seu homem.

Frustração (Clauder Arcanjo)





Uma prosa disfarçada de poesia.
Ela, arguta e sábia, desvendou-a.
Um pedido de desculpas, rápido.
Cândida, boa, não me amaldiçoou.


Eu, frustrado poeticamente por mim,
Converti todos os meus remorsos
Em ossos de prosa numa folha
Outrora enganosamente poética.

clauderarcanjo@gmail.com

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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Pelos labirintos de Joyce (Valdivino Braz)

(James Joyce)
 
Fruir o lúdico joyceano. É o mínimo que “Finnegans Wake” espera de nossa parca inteligência. Fruir (vide Aurélio) é “estar na posse de”. Se você não toma posse do texto, nada possui ou extrai dele; deixa, então, que o texto lhe possua. Esteja possuído, e já se dê por satisfeito. “Tirar de uma coisa todo o proveito, todas as vantagens possíveis, e, sobretudo, perceber os frutos e rendimentos dela”, prossegue mestre Aurélio, arrematando que fruir é desfrutar. Desfrute, ó falso leitor — “hypocrite lecteur”, diria Baudelaire.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

O voo (João Soares Neto)



Saíra cedo do hotel depois de ter perdido tempo com uma recepcionista que errara a data. Trocara o 11 por 10 e o computador rejeitara. No final, digitou o 11 e o computador aceitou o cartão de crédito. Deu uma rápida passada defronte à sua fraternidade na Universidade de Harvard, que lhe trazia boas recordações. Tomou a estrada que ligava Cambridge, pela margem do Rio Charles, a Boston e divisou o prédio do M.I.T., onde terminara seu doutorado. Que saudades.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Sentenciados (Inocêncio de Melo Filho)




Não ouço a voz da ONU
Debaixo do céu da África
Só vejo a morte
Cantando suas vitórias
Aos meus irmãos esqueléticos
Que morrerão nas próximas horas...

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Franklin Jorge, seus poemas (Antonio Carlos Villaça)



Os Poemas Diabólicos & Dois Temas de Satã estão sob a égide de Fernando Pessoa. Franklin Jorge é um poeta abissal. Ele é um irmão de Drummond e de Pessoa, daquela poesia metafísica que, partindo do desespero, chega a uma espécie de serena angústia, um claro enigma, uma difícil manhã. Manha, manhã, amanhã. Não é mesmo, Cassiano Ricardo?

Há uma infinita astúcia no poema de Franklin Jorge, rapaz denso, que sabe exprimir-se. Sua angústia a um tempo física e metafísica, total, ele a expressa com uma intensidade contida que a mim me comove.





quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Revista Clave Crítica: novembro de 2011 e janeiro de 2012

(Anderson Braga Horta)


À PROCURA DA POESIA - por Henrique Marques-Samyn

Se consideramos que a trajetória poética de Anderson Braga Horta foi inaugurada por "Altiplano e outros poemas", publicado em 1971, percebemos a importância deste "Signo", que representa nada menos de quatro décadas de um percurso literário de indiscutível relevância − não apenas para Brasília, onde Anderson reside desde 1960, mas para todo o Brasil, sobretudo se levamos em conta a carência de poetas dispostos a refletir seriamente sobre o próprio “métier” literário e as práticas poéticas, algo por ele exercido de forma densa e consistente.

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http://clavecritica.wordpress.com/2012/01/30/a-procura-da-poesia/

Brasília revisitada (Emanuel Medeiros Vieira)

(Para Clarice e Lucas, meus filhos, que aqui nasceram)


Não, não quero falar da cidade estigmatizada, dos poderes – podres ou não..

Não a urbe oficial, dos altos tecnocratas, dos políticos que só conhecem o aeroporto, carros oficiais, palácios, ministérios, o Congresso, restaurantes chiques, e boates de “moças de luxo” – caras, da mais antiga profissão.

A cidade que amo é outra.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

O ocaso (Carlos Nóbrega)



 
No cairzinho da noite
os velhinhos da rua Barros Leal
arrastam velhas cadeiras negras
para diante da rua
e se aconchegam em seus colos
tão íntimos.
Fazem isso desde quando
existe tarde,
desde sempre.
E as cadeiras
automatamente
por força do hábito
põem-se a se balançar sozinhas –
Vagarosamente
Penosamente,
como velhas babás descadeiradas.

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