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segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

A cacimba das Lages e os burgos coríntios (Nilto Maciel)





Tenho lido, com muito interesse, obras em prosa, diversas da ficção. Refiro-me a ensaios (e isso vem desde a juventude, com os estudos filosóficos), relatos de viagem (afundei-me, durante um tempo, naqueles viajantes europeus que para a América vieram), manuais de história, mitologia, sociologia, cartas (quem não leu Pero Vaz de Caminha?), conjuntos de artigos e resenhas, biografias (recentemente li uma de Borges), memórias, entrevistas, etc. No final de 2012, recebi dois volumes cujo assunto os inclui nesse espectro tão amplo: Lembranças miúdas, de Dias da Silva, e Meu brechó de textos, de Carlos Trigueiro.

            O cearense (de Lavras da Mangabeira) “enveredou pela biografia e o ensaio, pela crônica de sabor regional e pelo memorialismo”, como observou Dimas Macedo, num artigo. E nele citou algumas de suas coleções: Um Padre e Muitas Proezas (1982), Cenas, Lições e Coisas (1984), Mangabeira nas Artes nas Letras no Mundo (2002) e Pedaços da Vida e Outras Coisas em Pedaços (2002). O ficcionista manauara não é tão prolixo (no espaço quase infinito da prosa não-ficcional) quanto Dias, talvez porque tenha se dedicado mais ao conto e ao romance.  Estreou com Memórias da liberdade (1985), seguido de O “jeito” brasileiro: um fenômeno cultural (2009) e Ilações sobre a criatividade latina e ladina do “jeito” (idem).

Tenho visto Dias da Silva em livrarias e outros lugares, em Fortaleza, onde se realizam encontros de escritores ou destes com leitores. Não nos vemos muito, porém. Mando-lhe meus livros (de ano em ano) e ele me envia os seus. É assim a vida de escritor brasileiro. Carlos Trigueiro só vi uma vez, no Rio de Janeiro. Fez-me saber do nosso mútuo conhecimento, em 1976, na capital cearense. Não me lembro disso, infelizmente. Agora trocamos mensagens eletrônicas, de vez em quando. Outrossim, me brinda com suas publicações e eu retribuo o mimo com meus raquíticos opúsculos. O primeiro tomo de Dias a me chegar aos olhos terá sido Da pena ao vento – I (anotações de pé de página), ainda em 1981. Vieram outros ventos e muitas penas. Se não minto, já são nove. Trigueiro me mimoseou (não em 1994, ano da edição, mas recentemente) com os contos maravilhosos de O clube dos feios e outras histórias extraordinárias.

Ora, estou a me estender demasiadamente em informações inúteis para o leitor. É hora de me voltar exclusivamente para os dois títulos mencionados no início desta crônica. Então vamos a eles, com vagar e didaticamente. (Como não consigo me livrar desses advérbios terminados em mente!).

As reminiscências de Dias da Silva se iniciam no capítulo “Meu pai”. E vem logo a primeira revelação: “Ainda vejo meu pai assim: ele não esbanja carinhos pelos filhos nem pela minha mãe: o amor de meu pai chamar-se-ia amor envergonhado e encabulado”. Encerra-o com um poema em versos livres: “Quero de volta meu pai: jovem e lépido / o tempo – tirano implacável / o tempo – insensível carrasco / enche de neve a cabeça de meu pai” (...).

No “hipotético brechó” de Carlos Trigueiro não há lugar para as lembranças de família, da vida doméstica, da infância. Há nele artigos, um ensaio, entrevistas, aforismos, poemas, contos, crônicas, “imitações de haicais”, “rascunho de palestra”, trechos de seus impressos (como as chamadas “lápides”). Engano-me: há, sim, lugar para as lembranças de família. A parte intitulada “crônicas agudas” trá-las. Uma delas, a primeira (“O ouvido de meu pai”) até cuida do mesmo tema celebrado por Dias da Silva no princípio de seu compêndio. Carlos mostra seu pai assim: “Meu pai tinha o que os americanos chamam de ‘perfect pitch’. Traduzindo em miúdos: tinha ouvido absoluto – a capacidade rara de ouvir e reproduzir imediatamente um determinado som”.

Dos personagens principais de sua vida (pai, mãe, avó paterna, avô), Dias da Silva passa aos lugares – Sítio Lajes (sua primeira morada) e casa da avó – e aos acontecimentos: “Morte na cacimba”. A descrição é minuciosa e bem elaborada: “Minha tia lava roupa com água da cacimba. Não é uma cacimba comum, igual a tantas outras: buraco redondo, cavado fundo, até encontrar veias e água. A cacimba das Lajes de minha avó é diferente. Assim: escavação com um a dois metros de comprimento, e rasa. Feito tanque cavado até dar à água escondida no chão”. Preciosidade de descrição.

A linguagem de Carlos Trigueiro é, do mesmo modo, clara, objetiva e de fácil entendimento. Não somente quando escreve artigos, mas também prosa de ficção. Pois este Meu brechó de textos é igualmente uma compilação de trechos de seus contos e romances. Assim, “Ciúme artístico” (um dos “aforismos do baú”), extraído de O livro dos ciúmes: “Não confio em artistas... Tenho horror de pintores, são traiçoeiros, olham para uma coisa e pintam outra. Ou olham para outra e pintam uma coisa! Nem em músicos, só que a musa pode ser a mulher da gente”.

São dois malabaristas das letras. Dias da Silva, apesar de lidar com reminiscências (da infância), ou seja, de um passado bem distante, não menciona datas (anos) e escreve como se fosse agora, sempre no presente do indicativo: (...) meu pai “dorme o sono doce e sossegado dos bons e dos justos e dos que não estão em falta”. Além disso, certamente já é falecido. Tudo é presente, sejam as pessoas, sejam os acontecimentos. Os lugares, por isso, são descritos como se não tivessem conhecido mudanças. Tudo é (na memória) como era: “A Barra do meu Avô – terrenão bonito, o terreno do meu Avô – é cortada de caminhos e veredas”.

O libertino Carlos Trigueiro (seu mais recente romance se intitula Libido aos pedaços) não se contenta com rememorações infantis (inocentes). Vai direto à sexualidade, como na crônica (são apenas três em todo o volume) “Sala de aula no fim do corredor”. Inicia-a com a apresentação da professora de História, a jovem Helena, a quem chama de uma das “semideusas das enciclopédias de papel acetinado”. E assim narra uma cena, em sala de aula: a mestra, “mãos empoeiradas de giz”, “esboça no quadro-negro os caminhos da helenização do Oriente”. O aluno (narrador) a deseja: “Claro que a persigo – nos meus sonhos e devaneios – por entre as figueiras perfumadas que enfloram ao amanhecer e circundam os burgos coríntios onde ela pisa, vagueia e flutua. Primeiro vejo-a com a túnica descaída, seminua. Mais adiante, sem a túnica, finalmente nua”.

Não farei outras citações, que não sou copista de ninguém e muito menos desmancha-prazeres de leitores. Apenas direi: Dias da Silva e Carlos Trigueiro me proporcionaram neste início de 2013 alguns momentos de prazer. Quem não se regozija com um bom texto? Só se for insensível. Ou não tiver olhos para ler ou ouvidos para ouvir.

Fortaleza, 4 de janeiro de 2013.

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