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sábado, 16 de fevereiro de 2013

A modelagem Carioca (João Soares Neto)





O Professor José Osvaldo Carioca me propõe uma tarefa difícil: discorrer, analisar ou ensaiar o seu escrito – futuro livro – “O Cérebro, a sua Mente e a Consciência”. O que eu sei disso? Li todas as páginas, cocei a cabeça e me deparei com outra afirmação que me meteu medo: “Modelagem inusitada sobre a fisiologia do cérebro e da sua mente. Uma base científica para a consciência”. Ora, se é inusitada para quem mexe com ciências exatas, imagina para quem pouco sabe das humanas.
       Ele cita autores, pensadores, escritores, filósofos, cientistas, uns grandes, outros menores, que o caro leitor irá descobrir, página a página. Nacionais e estrangeiros. Contemporâneos, modernos e dos passados recente ou remoto. Leva-nos pelo olhar, frase a frase, para o passado, o presente e nos aponta dúvidas – ou seriam certezas? – sobre o futuro a descobrir.  Carioca emerge na sua química, escrita com “uma plataforma energética evidenciando as trocas de energia entre seres vivos e meio ambiente”.
Ele controverte, palmilha e faz crença no palpável e no imponderável. Fé, ciência e futuro são, ao meu olhar leigo, o tripé formado para pincelar, em quadro imaginário, o seu juízo de valor. E o faz sem medo de ser avançado. Aqui, valho-me, graças a Deus, de Carlos Drummond de Andrade (1902–1987) a me salvar em sua poética: “... as coisas tangíveis tornam-se insensíveis à palma da mão. Mas as coisas findas, muito mais que lindas, estas ficarão.”
O que mais teria eu a acrescentar? Digo que gostei do que li. Fui ate às conclusões, à bibliografia e entendo o sossego/inconformismo de um homem maduro que parece tentar sair do quadrado que a ciência lhe impôs e insurgir-se com teorias novas a partir do muito lido.
Todos os teóricos estão em patamar ainda não pisado. Um filósofo, muito citado e pouco lido, o espanhol Ortega y Gasset (1883–1955), dizia que “a ciência consiste em substituir o saber que parecia seguro por uma teoria, ou seja, algo problemático”. É isso, creio, o que fundamenta a pesquisa, por anos, do Professor Carioca, o cientista profético.
Por outro lado, a fé que o anima na árdua tarefa de tecer semelhanças entre autores desencontrados faz-nos lembrar de Dostoievski (1821–1881), expoente do romance russo, ainda no tempo dos Czares. Ele acreditava que “a fé e as demonstrações matemáticas são duas coisas inconciliáveis”. Ora, isso ele escreveu em seu soturno quarto nos “Diários”, mas o escritor russo, mesmo de leve, quebra o gelo entre a abstração da fé e a rigidez da matemática. Ajuízo eu: O que é inconciliável acontece por emergir de um rompimento.
Albert Einstein (1879–1955), um dos aludidos nos escritos que não precisa de apresentação, afirma em contraponto e a favor do Professor Carioca, em “Out of My Late Years”, que “a ciência sem a religião é manca, a religião sem a ciência é cega”. Bingo.
Por último, tentando não perder o fio da meada, há o futuro, o amanhã, o que ainda está por vir, o vir a ser. Se é vir a ser, é esperança ainda não orquestrada pela antemanhã. Estamos todos na noite que antecede o futuro, pois vivemos com um pé na memória do passado e o outro – não plantado no chão – no espaço do sonho, do que será o futuro. Isso, talvez, seja o nosso leitmotiv.
Dizia Giacomo Leopardi (1798–1837), poeta italiano, em um suposto diálogo entre passageiro e vendedor de almanaque em uma viagem de trem: “Aquela vida que é bela não é a vida que se conhece, mas a que não se conhece; não a vida passada, mas a futura. Com o novo ano, o destino começará a tratar bem a vós, a mim e a todos os outros, e vida feliz se iniciará. Não é verdade?” Ao que o vendedor responde: “Esperamos”.
Tudo parece coincidir, portanto, com o que, acredito, espera o Professor Carioca quando diz, ao concluir o seu trabalho de análise: “por processos realizados na quietude da mente e na proximidade dos estados de equilíbrio, aqui denominados de quase-estático, ou meditativos”.

(Publicado no jornal O Estado, CE, sexta, 25 de janeiro de 2013)

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