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quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

As noites insones de Madalena (Assis Coelho)




Naquele pequeno e poeirento vilarejo de Cafarnaum, na Galileia, uma mulher não conseguia pegar no sono. Isso vinha se repetindo com muita freqüência, ultimamente. Ouviam-se, ao longe, latidos de cães que guardavam os poucos pertences de seus donos vendilhões. Era, de certa forma, um conforto saber que havia algum ser vivente compartilhando aquela indesejável insônia. Com ela, agora cada vez mais intenso, o medo de que algo de ruim pudesse acontecer com seu companheiro que, ultimamente, vinha intensificando suas pregações por toda região da árida Galileia. Havia outros profetas de olhares sanguinários e gestos violentos que profetizavam vários acontecimentos, enfatizando o fim do mundo, para breve. Não sabiam, ou fingiam desconhecer, que o final deste mundo era tão distante e obscuro quanto o seu início. Eram muitos profetas. Ela temia todos que tinham na mulher a fonte de todos os males do mundo. Também estes pregadores faziam tudo às avessas do que pregavam. Seu companheiro se diferenciava dos demais, em vários aspectos. Um deles era que amava as mulheres. Não trazia ódio no olhar, falava com brandura, gostava de estar rodeado por elas. Tratava-as de igual para igual. Talvez essa fosse uma das razões do grande número de seguidores. E isso a preocupava. Estava perdendo seu homem para muitas pessoas. Tentara, por inúmeras vezes, dissuadi-lo de querer mudar o mundo, de querer modificar as pessoas já tão habituadas e conformadas com seu modo de vida. Era inútil, ela sabia, pois a cada dia ele se entusiasmava com a ideia do perdão, de dar a outra face para o inimigo bater. Que ideia mais improcedente era aquela, principalmente se o inimigo fosse um romano que há tanto os subjugava. Entre latidos e rumores de animais na vizinhança, seus pensamentos se alternavam, nem sempre de uma maneira ordenada. Ocorriam-lhe cenas de violências das crucificações que ultimamente se multiplicavam, dos impostos que cresciam desmesuradamente, dos desmandos irrefreáveis dos governadores e tantas outras desventuras. No mundo das crianças que dormiam ao lado, o sentimento de saudade ainda não se instalara como dor. O real era facilmente substituído pelos sonhos. Talvez, por isso, a vida para eles fosse mais suportável. Ainda não traziam nos rostos as marcas das dores e ela se compadecia de todas as crianças. O mundo também não lhes seria benevolente, como não fora para ela.  A saudade se engrandecia naquelas noites de latidos e uivos. Será que um dia os homens deixarão essa busca frenética pelo dinheiro? Quando deixarão de querer para si o que é dos outros? Será que um dia cessaria a arrogância dos exércitos poderosos contra indefesos e frágeis aldeões? Quando o povo deixará de crer que o poder desses imperadores sanguinários veio através de um poder divino? Será que ele não teria se deixado levar, mesmo por compaixão, por uma daquelas que o seguiam? Elas queriam também ser amadas neste mundo. Por que não parar de pensar por uns minutos sequer e dormir como requer a noite? Como em outras noites, não conseguiu dormir. Acordou cansada, vestiu-se apressada e levou as crianças consigo. Não pararia, até chegar ao seu companheiro e rogar para que ele voltasse para casa. Ali na sua casa, ele não seria traído, todos o amavam, mesmo achando estranho seu modo de ser. Ela calaria a ouvi-lo, enquanto ele acariciaria suas longas madeixas e à noite dormiriam em paz. Longe daqueles que procuravam um pai para seguir e, entre outras benesses do amor, aquela maldita insônia desapareceria para sempre. E caminhava firme à procura daquele nômade pregador.
Bsb, 13.13.13
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