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sábado, 2 de fevereiro de 2013

“Menos vivi do que fiei palavras” (Luciano Bonfim)



Muitas perguntas são duradouras no repertório da humanidade. Por exemplo: de onde viemos? Para onde iremos? Quem somos nós? Eram os deuses astronautas? Será que ela finge orgasmo? Você pode me emprestar uma grana? Será que o Fortaleza cairá para a série C? Será que o Ceará sagrar-se-á campeão brasileiro? Foi bom pra você? Ser ou não ser? [As respostas podem ser as mais variadas possíveis e outras dúvidas e perguntas surgirão ad infinitum].
           

        Assim como acontece com qualquer ser humano, muitas perguntas, dúvidas e inquietações moveram a vida de um [in] certo Nilto Maciel. Algumas destas questões podemos encontrar em Menos vivi do que fiei palavras [Aparecida: Penalux, 2012] para mim um retrato do artista quando [não muito] jovem, tendo em vista que ele escreveu estes textos, uma espécie de diário, quando já havia atravessado o “Cabo das Tormentas”, ou da “Boa Esperança”, e adentrado naquela idade em que se começa a vislumbrar a possibilidade de uma expedição em busca da fonte da juventude. Tema geralmente ignorado, ou desprezado, quando se têm 19 ou 20 e poucos años.
            O céu hoje esteve cinza. Às vezes escuro, noutras nem tanto. Choveu um pouco. Depois choveu bem mais. Enquanto isso, estive livremente preso à leitura do Menos vivi do que fiei palavras.
Não se trata apenas de um auto-retrato, mas de um registro das buscas e incertezas de uma geração, de uma época, de uma travessia, ou várias.  Uma espécie, também, de cartas a um jovem escrevinhador.
Para não dizerem por aí que sou completamente mau, vou apresentar para vocês, incautos leitores, alguns “detalhes” [trechos] deste retrato ampliado, às vezes colorido, noutras nem tanto. 
Trechos: [1] Preciso de muito tempo para a literatura (p.14).
[2] Pela manhã retoquei o capítulo XIV dos Luzeiros*. Há pouco me dediquei ao XV. Minha maior dificuldade é dar forma ideal ao texto. Não ser repetitivo, fugir do lugar-comum, criar linguagem literária (p.15).
Mais adiante aparecem outras angústias, inquietações e incertezas. Questões presas à vida e à própria literatura, principalmente – sendo a literatura sinônimo, interação e complemento da vida.
Ano após ano, de 1986 a 1992, Nilto Maciel comenta livros de amigos e não conhecidos. Analisa os clássicos. Fala sobre os seus próprios livros. Da descoberta tardia de Machado de Assis. Da não disposição das editoras para publicar as suas obras. Da angústia de ser [ou não ser] moderno. Dos prêmios literários. De sua passagem pelo “sindicato da classe” em Brasília...
Ele esperneia, grita, xinga, esclarece, nega, afirma e sai em busca da suposta palavra certa e, nesta viagem, vai nos apresentando pistas desta empreitada mas, se pensarmos como sugere Fernando Pessoa, saberemos que “o segredo da busca é que nunca se acha”. Contudo, o que é a vida, senão uma busca? [Ou várias].
Mais um trecho: [3] Descobri a fórmula: primeiro – o conto necessita de fato, mesmo insignificante. Como a barata na cabeça de Hitler. Segundo – requer cadeia de reações dos personagens, tanto do herói como dos outros. Terceiro – a reação do herói há de ser conforme seu caráter, sua personalidade. Assim, Hitler age com violência inusitada, animal, absurda (p.51).
Outro trecho: [4] O maior inimigo do escrivão literário, e de qualquer criador, é a preguiça, a desilusão. Depois vem a vida social. É perda de tempo medonha. Como viver apenas para gerar? (p. 59).
Diante de tantas questões, somos conduzidos de maneira agradavelmente inquietante, numa espécie de “diálogo intempestivo”, até o final do livro, quando ele nos diz...
“Menos vivi do que fiei palavras”: o recebi pelos correios ainda em 2012, um pouco antes do anunciado fim do mundo, mas somente agora me debrucei sobre o exemplar. Agora vejo quanto tempo perdi, agora vejo quanto tempo hoje ganhei.
Nilto Maciel, meu mestre – e esta frase se tornou ainda mais forte!
           
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* Os Luzeiros do Mundo, romance, 2005. Editora Códice, Fortaleza.

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