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domingo, 24 de fevereiro de 2013

Uma noite viúva da Lua (Clauder Arcanjo)





Para Ronaldo Cagiano

... A tarde se despedia, lentamente e sem a bênção do sol. O céu estava encoberto por nuvens bojudas, e estas como se abraçadas com o manto grosso da melancolia. Em volta da copa das árvores, o prenúncio pior: a revoada de pássaros — canoros, mas quietos; esquisitamente de bicos mudos.
          Em fins de tardes assim, sento-me na varanda e deixo as horas me levarem; haurindo o vento Aracati, em desespero de degredado. Ou de poeta errante, sem inspiração, sem rima, tão somente com o bafejo da tristeza a me puxar para o fundo de uma rede funda.
Nesses momentos, passo a catar as lembranças da província, agarrando-me a elas como um náufrago, em meio àquelas tempestades que querem pôr fim a tudo, e a todos: os banhos de bica, o mergulho da ponte, os remansos da Pedra da Luzia, as histórias medonhas no alpendre da Fazenda Lagoa da Pedra (sob a batuta do Vovô Sebastião), as partidas de futebol nas areias do rio Acaraú, com temor dos raios e trovões a cortar a copa das oiticicas.
Com pouco, a hora do Ângelus. Uma ave-maria no rádio do vizinho, e, tristonho como quê, fechei os olhos para a rotina da vida. E fui, tangido para outras paragens: lugares em que morei, recantos em que vivi, mas com os quais, percebo agora, pouco sonhei. Será que só definitivamente nos ligamos a um canto quando passarmos a sonhar com esse recanto? Não sei, confesso que não sei. Também, do jeito conforme me encontrava, não seria eu o cronista mais adequado de quem se recolheria respostas, caro leitor.
Quando, mero e banal espectador, presenciei o cair rotundo da noite, com sua coroa de espectros e sua legião de silenciosos visitantes, vi que ela cobraria de mim todas as dívidas antigas.
Pesaroso e antecipadamente condenado, afrouxei o cinto da calça, abri os botões da blusa, e ofertei corpo e espírito para o látego que se me anunciava.
Depressa, elevei os olhos ao céu, na tentativa de presenciar os carros de fogo a vararem o infinito, ou as constelações a luzirem no tapete azul. Ou, pelo menos, uma legião de pirilampos a salpicarem o manto celestial com o drapejo singular de suas luzes.
Contudo, quando corri o zênite, e não flagrei carros de fogo, nem estrelas, nem sequer pirilampos... cuidei, depressa, de serenar o afoito espírito:
— A lua, então, por si só me bastará!
Ergui-me com uma certa dificuldade (o banzo acabrunha-nos os músculos), enchi os pulmões com o ar pesado da noite profunda, e fui para o jardim. Olhei para o firmamento — norte, sul, leste, oeste —, nenhum sinal da dita-cuja.
Depressa, fechei a porta da casa, apaguei as luzes e meti-me embaixo dos lençóis.
E, hoje eu, aqui neste canto de página de jornal, fecho, também, a porta da crônica, apago as luzes da poesia e remeto para o editor este arremedo de texto.
— Tenha a santa paciência! Uma noite viúva da Lua!?... Assim não dá, assim não dá.
... Bom domingo.

clauderarcanjo@gmail.com

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