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quarta-feira, 6 de março de 2013

Só sei que de nada sei (W. J. Solha)





O título deste artigo não é a frase acima, de Sócrates, mas a esperta resposta de Arcesilau:

– E eu nem disso tenho certeza.

Isso faz pensar. Mas – contrário à liberdade do pensamento – o cristianismo estabeleceu o dogma “Eu sou a Verdade” e estamos conversados. Mas todos sabemos que não é assim. Cristo, numa de suas Revelações, diz que o fim do mundo aconteceria na sua geração, o que é claro, não era verdade. Diz que não nos devemos preocupar com o dia de amanhã, mas o mesmo evangelho conta que ele suou sangue na quinta, apavorado com a ideia da crucifixão na sexta. Outra inverdade. E, numa Jerusalém sob Roma, que a destruiria quarenta anos depois, disse que se deveria amar os inimigos e que se desse a César o que era de César, o que seria considerado alta traição para um russo durante a invasão napoleônica,  para um ianque na luta pela independência, ou para um cidadão do Recife-e-Olinda durante a Insurreição Pernambucana. Daí a tese de Bachelard de que há um “inacabamento fundamental do conhecimento”, que ele chama de Conhecimento Aproximado.

Nada é o que parece. No Princípio botaram-me na cabeça que o Brasil fora descoberto por Cabral em abril de 1500, o que foi desmentido pelas leituras seguintes, com as quais fiquei sabendo que Vicente Yáñes Pinzón, três meses antes, já dera o nome de Cabo de Santa Maria de La Consolación a um promontório pernambucano e, ao rio Amazonas, o de Mar Dulce. Explique-se: o Tratado de Tordesilhas não validaria o achado espanhol. Bom. E num distante belo dia assisto ao Jesus Cristo Superstar e fico sabendo que Tiago em inglês é James, pelo que  disse Uai! Ou, no original: Why! E então me informo do fato de que o nome dele era Jacó, na verdade Yákkob, como o do Antigo Testamento, e – séculos depois, na Espanha – seria Iago, Sant’Iago, que acabou degenerando em San Tiago. Por essas e outras, a ciência determina que em toda descoberta, o descobridor deve dizer “Tudo se passa como se” – até prova em contrário. Como se deu quando Einstein disse que tudo se passava como se a luz das estrelas com trajetória próxima ao sol, rumo à Terra, sofresse desvio pela força gravitacional dele, o que abriu uma polêmica enorme. Até que houve o eclipse de 1919, quando alguns cientistas vieram a Sobral, outros foram para a Guiné, e ficou constatado que o gênio da Relatividade estava certo. Ou melhor: a verdade (quid est veritas?), foi o que acabei sabendo, é que mais de um século antes, outro alemão – Johann Georg Von Soldner – já afirmara isso.

– Só sei que de nada sei – Sócrates (se é que Sócrates não é apenas personagem de Platão) disse.

– E eu nem disso tenho certeza – dizem que Arcesilau, em seguida, teria acrescentado.

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