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sábado, 13 de abril de 2013

A catedral simbólica de Margarida (João Carlos Taveira*)





A escritora Margarida Patriota, ao escrever a biografia romanceada do poeta Cruz e Sousa (1861-1898), fez dois mergulhos distintos: um nas águas turvas e turbulentas de fatos históricos da segunda metade do século XIX e outro na estrutura linguística da época, para narrar a saga de um dos precursores do movimento simbolista no Brasil.

         A lenda de João, o assinalado (editora Topbooks, 2012) percorre a vida do personagem desde o nascimento, em Nossa Senhora do Desterro (hoje Florianópolis), até momentos antes de sua trágica morte aos 37 anos. Um trabalho, aliás, esplendoroso, que expõe algumas abstrações do biografado ante a inexorável aproximação do fim. Aquilo que, na poesia, se chama “chave de ouro”. Em nota ao fim da narrativa, somos informados de que Cruz e Sousa morreu na cidade serrana de Sítio, Minas Gerais, para onde se dirigiu na esperança da cura de uma tuberculose já sem remédio. E, com ajuda financeira de Nestor Vítor e outros amigos, seu corpo foi levado para sepultamento no Rio de Janeiro em vagão destinado a transporte de cavalos. (Wolfgang Amadeus Mozart teve melhor sorte, apesar de ter sido enterrado como indigente em vala comum.)

O Brasil, embora tenha proclamado a república nove anos antes da morte do Cisne Negro, ainda estava à procura de uma identidade política e ideológica e vivia as agruras da recente abolição da escravatura e os desastres iniciais do golpe político-militar que destronou a monarquia. Por isso, andava meio às cegas rumo ao desconhecido. (Hoje, passados mais de cento e vinte anos, o país continua basicamente o mesmo em vários aspectos.) E aqui me lembra uma frase de Machado de Assis que nos leva a compreender melhor algumas questões internas até hoje não superadas: “O problema do Brasil não é a monarquia nem a república; é a oligarquia absoluta.”

Para construir o personagem e a trama em torno dele, a autora absteve-se de pormenores biográficos mais polêmicos, como a implicância dos parnasianos chefiados por Olavo Bilac e a má vontade do autor de Memórias póstumas de Brás Cubas com o poeta da província. Deixa de lado também as andanças do protagonista por algumas capitais brasileiras, como ‘ponto’ de uma companhia de teatro, bem como a questão das intimidações sofridas por ele durante o curto período em que esteve radicado no Rio de Janeiro. Opta por costurar uma narrativa ficcional com acentuação de traços psicológicos e o caráter de um homem marcado a ferro e fogo por sua condição social, num país ainda comprometido com a herança da escravidão e outros atrasos.

Desde a primeira infância, o menino João mostrou-se um superdotado, com nítida tendência para o mundo das ideias, das letras, das palavras. Ser poeta, para ele, seria uma condição natural: poeta nascitur, non fit (Horácio). Tanto que sensibilizou os patrões de sua mãe, que serviu em casa de um marechal-de-campo, cuja esposa, uma jovem senhora de sentimentos nobres e alma arejada, logo se prontificou a dar aulas para o menino e educá-lo como o filho que, biologicamente, estava impedida de trazer ao mundo.

Margarida Patriota, ao levantar a catedral simbólica da vida do autor de Missal e Broquéis, compõe um painel humano e artístico na medida exata. A narrativa tecida na terceira pessoa é ágil e penetrante, conquanto espinhosa — para os menos familiarizados com a linguagem utilizada. Durante a leitura do romance, idas ao dicionário hão de ser uma constante, mas, uma vez superado esse pequeno contratempo, a fruição certamente irá recompensar todo e qualquer sacrifício. A autora, exímia construtora de diálogos, consegue a proeza da prosa poética em seu discurso ficcional, sem titubeio. Outro pormenor deriva-se do cuidado extremo com não cair (e não cai) no lugar-comum e levantar bandeira contra quaisquer preconceitos de raça ou de cor. Sequer nomeia a cor da pele de seus personagens. E os nomes, quando não reduzidos, conduzem a síncopes e outras invenções, evitando-se, em alguns casos, o registro de cartório na vida real.

Dividido em seis partes (“Lar”, “Vila”, “Ar”, “Tribo”, “Farol”, “Porto”), o livro, entre os muitos achados estilísticos que contém, traz uma página antológica: o improvável diálogo entre Charles Baudelaire e Cruz e Sousa a partir da leitura de um livro do primeiro pelo segundo, e que vai determinar a escolha deste pelos temas, digamos, vaporosos e místicos, levando-o a abraçar de vez a estética simbolista, marcada pela musicalidade dos versos e pela subjetividade dos temas. Margarida Patriota conduz essa “conversa” em clima de elevado colóquio entre os dois poetas, explorando nuanças insuspeitadas de uma espiritualidade transcendente, que os aproxima de uma vez por todas.

Assim, a história contada pela autora de Elas por elas vai permeando o universo físico e psicológico de uma das figuras mais extraordinárias da literatura brasileira, o poeta que, por pouco, não morria no ostracismo, tamanha a obscuridade que envolveu sua vida e sua obra. A base do livro, no entanto, se solidifica na estrutura de plano linear, sem flashbacks, mas dentro de uma cronologia devidamente respeitosa. Didático sem ser didático, A lenda de João, o assinalado configura-se um discurso estritamente original, cuja linguagem erudita patenteia as intenções autorais em busca da perfeição estilística, do depuramento sintático e verbal. E o resultado é o retrato vivo e verossímil de um homem que protagonizou um dos períodos mais controversos da história literária no Brasil: Cruz e Sousa, o poeta negro que, por força de obstinação e talento, conseguiu introduzir definitivamente o Simbolismo nas letras nacionais.

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(*) João Carlos Taveira é poeta e crítico literário, autor de A flauta em construção, Arquitetura do homem e A arquitetura verbal de Nilto Maciel, entre outros livros.

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