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sábado, 20 de abril de 2013

As peripécias de um casal em lua de mel tardia (Maria Lindgren)




  
Lua de mel tardia nem sempre pode ser um sucesso. Claro, dois velhotes com problemas de caminhar jamais seriam os mesmos quase atletas do início do casamento. As pernas frouxas de um e a coluna caquerada de outro denotavam o futuro de viajantes: passo tartarugado, costas meio curvas, atrasos, atrapalhações.

Graças a Deus, as cabeças ainda estavam quase no lugar. Digo quase porque, às vezes, falhavam, nos deixavam na mão, com a cara rubra dos que percebem besteiras em ação.

Logo nos preparos, contas e mais contas para deixar tudo em dia, mil telefonemas, malas para baixo no chão do quarto. Roupas de todas as estações atulharam as malas nem sempre do tamanho desejado. Depois, aeroporto Tom Jobim, coitado, muito caquerado, banheiro a fazer inveja aos botequins antigos do Rio e, para piorar, dor de barriga geral. Em seguida, fila enorme para o check-in. Entramos, admirados de que o Chile estivesse tão na moda. Mais in ainda que a Argentina do novo Papa pra frente.

Depois de muita espera, fila parada, resolvemos descer para um lanchinho, estômagos começando a dar sinais de quero encher. O primeiro Café nos acolheu com o sanduíche mais mal feito e nojento de toda a minha vida. Enorme e viscoso, maior até do que o pedação de bolo servido à mesa do lado. Meu marido boa praça devorou-o como um manjar divino. Evitando o vômito iminente, saí logo, logo, em disparada, esquecida da dorzinha colunal que começava a chatear. Olhamos bem a fila e, eis a descoberta: Emirados Árabes. Era pra lá que iam os milhões de pessoas, pasmem! A nossa viagem era bem mais modesta e quase sem turistas brasileiros, alegria, alegria.

Depois de uma ou duas empanadas e uma soneca de cabecear idosos, no voo tranquilo, Santiago nos apresentou um bom aeroporto, para nossa vergonha de brasileiros à beira de um ataque de eventos no Rio. Van de ar condicionado, hotel quatro estrelas de ótima aparência e a felicidade de estar um tempo fora da confusão habitual. Comecei a por em prática o espanhol. O carinha da recepção me olhou com sobrancelhas juntas, não disse palavra, muito menos sorriu. Chegamos ao 507 do Hotel Torremayor, de Providência. Ah! Ia esquecendo de dizer que o motorista da van me elogiou muito o castellano meio argentino, imitado à minha professora. Amei!

Mortos de cansaço da viagem curta - idade, meu povo, cansa - uma sopinha caríssima ali mesmo no restaurante, acompanhada de vinho, e cama. Nem mexi em minha mala. Tratei de arrumar a roupa do marido, muito mais organizado que eu, mas meio pateta pra pendurar e guardar suas calças e camisas. Clima meio friinho, sono dos sem-pecado.

Dia seguinte, rumo ao desayuno, às nove horas, passeio pelas ruas do lindo bairro, pouca coisa pra contar. Imediatamente percebemos que o dinheiro chileno não rende, o taxi é caro e pernas bambas não dão certo em metrô, por sinal, bem maior que o do Rio. Cidade limpinha e organizada, avenidas largas, arborizadas apesar da secura do tempo, tudo bem calçadíssimo, nenhum lixo, nem pedintes. Shopping novo de cinco andares me assustou. Ficamos no primeiro para comprar livros e tomar um cafezinho os olhos da cara.

Povo antipático e comida ruim, os tropeços do passeio. Resultado, tome de entupir a pança de pão e mantequilla, a barriga a crescer. Em compensação, o povo fala apenas o necessário, ainda que bem alto nos feriados. Ninguém grita, nem as crianças. Educação é o tom dos chilenos, apesar do passo aligeirado.

Do segundo dia em diante, passeios e mais passeios de van e taxi até a sexta-feira da Semana Santa. Primeiro, as velharias, como a bela Catedral do centro, o museu de Belas Artes e outros quetais. Bonitos, sem a pompa dos museus europeus e novaiorquinos, por certo. Depois, Casa de la Moneda, hoje museu, museu de Belas Artes sem grande novidade, hotel de novo sanduíche como jantar.

Calor de quase Rio, mas sem o abafamento, bem seco, com brisa que dá alívio. Vejo-me obrigada a abandonar a esperança de usar meu casaco comprido de camurça, chiquérrimo, comprado em Istambul. E suéteres, nem pensar. Apenas um casaquinho de Lisboa, de malha de algodão.

O passeio de van pela cidade não foi lá um acontecimento memorável: cheio de brasileiros, com guia brasileiro. Não me deu chance de papear em minha língua recém-adquirida. Orei para que meu marido falasse um pouco. Não consegui. Os demais apreciaram o que viram e nem sequer compraram cartões postais. Danados de pão-duros nossos compatriotas.

A van mandava brasa na corrida e deixava uns quinze ralos minutos para se ver os monumentos, como a Casa de la Moneda, que merecia muito mais porque com três salões grandes, um dedicado à famosa cantora e compositora Violeta Parra, adorada por meu marido político quando ainda moço. A sede apertava junto com a fome e tínhamos que tomar rápido um café minúsculo e uma água mineral. O resto, cidade de largas avenidas arborizadas, repuchos que mudam de cor como o de Brasília, árvores e grama que se molham três vezes ao dia para sustentarem o vigor e a beleza do verde.

À noite, direto ao Pátio Bellavista, local de boêmios e jovens, que muito me agradou. Sobretudo, porque os sandubas eram ótimos e o vinho, de primeira. Quem dera a juventude simpática daqueles estudantes! Amei Bellavista!!!!!!

Dia seguinte, passeio de van com os mesmos brasileiros a Viña del Mar y Valparaiso. Tudo muito lindo, mar encrespado e friíssimo, casas e apartamentos baixos, civilizados, de luxo moderado, salvo em Valparaiso, de casinhas muito antigas, mar sem ar de praia, e desenhos abundantes demais nos muros, como os dos nossos muralistas de rua. Bom foi comer num castelinho uma comida decente: pescado caprichado, sem vinho, mas com ginger ale, bebida que nunca tomo e adorei. Os brasileiros abstêmios, só de coca light e olhe lá. Nem um pinchesauer (não sei como se escreve) para celebrar o passeio. Cambada de caretas.

Depois, cansaço e futebol na TV, para regozijo do maridão: Chile venceu o Uruguai. E os chilenos educados só gritaram dentro dos cafés, pois na rua se respeita o silêncio. Nada de buzinaços e gritaria desenfreada, como nas vitórias do Flamengo.

Nos demais dias, fizemos amizade com um taxista excelente, apesar do nome Carrasco, e passeamos por toda Santiago, inclusive na parte oriental, cheia de belíssimas casas de rico. Vimos a Igreja de São Francisco e pousamos para fotos na Igreja de Pedra cor de telha, muito graciosa. Ricos sempre se dão bem, por certo. Os de lá não me parecem ostentosos porque os pobres não são tão pobres assim e não há miseráveis, segundo as aparências e a informação do Carrasco. Há muitos ônibus e metrô repletos apenas nas horas de pico.

No quarto dia à noite, teatro no Centro Cultural Gabriela Mistral, que se incendiou ou puseram fogo nele por ter sido quartel da ditadura militar. Aliás, eles não esquecem o sofrimento terrível da derrubada de Allende e do golpe militar implacável, que fuzilou e torturou muita gente, valha-me Deus. Assistimos a uma peça muito pesada e bem conduzida no trabalho dos atores e no cenário. E no Centro Cultural cheio de jovens delicadíssimos, nos puseram logo na primeira fila e nos conduziram ao elevador quase exclusivo para nós, os mais idosos.

Santiago é recomendável, mas sem ostentação. No entanto, deixa saudades da educação de seu povo, das ruas impecáveis, da cordialidade dos jovens e dos de mais de sessenta anos.

Termino com mais uma bobeada nossa. Chegaríamos ao Brasil no dia 30, mas encasquetamos na cabeça que 30 caía num domingo. Ledo engano. Viemos quase chorando no Sábado de Aleluia. ! Que lástima!

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