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sexta-feira, 26 de abril de 2013

Ficar nu (João Soares Neto)



 
Escrever é ficar nu. É mostrar-se todo aos outros. É deixar que façam sobre você todo tipo de leitura, a partir dos valores de quem lê, história de vida, crenças, fantasias e projeções. Escrever é atirar em alvo desconhecido. A flecha toca o alvo que o leitor conduz no seu real, imaginário ou no terra-a-terra da sua ótica. Quando criticamos, elogiamos, brincamos, elucidamos, emitimos opinião sobre pessoa, coisa ou lugar, é claro que nos expomos. O ato de escrever é uma eterna exposição, se é julgado sem direito à defesa, criticado até sem dó ou piedade, pois o leitor é um desconhecido. Dizem que escrever é um ato de coragem. Prefiro dizer que é medo. Medo de silenciar quanto a fatos, pessoas e atos. É medo de ser cúmplice do silêncio, indiferença, calúnia, violência, enganadores, líderes de araque e do descalabro.

Escrever não é vaidade. Ao contrário. É aceitar que lhe grifem erros, riam de suas ideias e calem, quase sempre, quando imaginam que você está certo. A palavra posta no papel não mais lhe pertence e o contexto em que se insere, muitas vezes, é diferente do que você queria e o leitor imaginava. Saiu e pronto. Não sou muito de revisar o que escrevo. Se fizer isso, acabo alterando o sentido, mascarando ou destruindo o que brotou da imaginação, vivência, circunstância, momento e ambiente.

Escrever, para mim, é relação complexa e solitária. A escrita é filha que se transforma – ou não – em amiga, amante e até cúmplice, pelo calor que transmite alegria, desabafo ou desejo de compartilhar o produto de sua criação. Escrever em jornal é, também, não se policiar. É exercer o direito de ser livre, mesmo que essa liberdade efêmera esvaia-se no ponto final. Escrever não é amontoar palavras difíceis, metáforas circundantes, personagens repetidos e conjugar verbos de forma pomposa e solene. É deixar que o pensamento se corporifique em frases simples e diretas. Foi E. Hemingway quem disse: “Um escritor sério não deve ser confundido com um escritor solene: o sério pode ser uma águia, um gavião, até mesmo um papagaio, mas o solene é sempre uma coruja”.