Pesquisar este blog

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Na floresta de símbolos das tradições (Carlos Eduardo Marcos Bonfá)





Marco Aqueiva é aquela espécie de poeta contemporâneo que atinge um tipo de individualidade desbravando a floresta de símbolos das dicções de tradições diversas. Este desbravamento criativo lhe possibilita conquistar aquele grau de escritura que a melhor tendência atual busca realizar: não le degré zéro de l'écriture (ao menos da forma como é propalado), mas o equilíbrio visceral entre razão e emoção, entre a especificidade "autônoma" da poesia e sua complexa abertura ao mundo, como acha necessário um filósofo e escritor contemporâneo de ponta como Michel Deguy. A partir desta ótica, Marco Aqueiva me parece se comportar como o poeta a que Antonio Cícero alude: "o poeta necessita pôr em seu jogo, até onde não possa mais ir, todos os recursos de que dispõe: todo seu intelecto, sua sensibilidade, sua intuição, sua razão, sua sensualidade, sua experiência, seu vocabulário, seu conhecimento, seu senso de humor etc. (CICERO, Poesia e Filosofia, 2012). 

          Em "O Azul versus o Cinza", assim posto, o agenciamento cabralino concreto não pretende abusar do ofuscamento lírico nem novamente extenuar procedimentos muito nítidos desta tradição. Em Marco Aqueiva existe uma espécie de comedimento (excetuando momentos deliberadamente paródicos), que é o de procurar absorver as tradições sem pretender extenuar os procedimentos típicos delas. Ele dosa os procedimentos em nome de uma composição digna da diferença (a diferença na contemporaneidade é que é digna, pois a originalidade permaneceu já no discurso da narrativa ortodoxa da modernidade e em sua consequentemente autofágica religião do futuro, segundo conceito de Compagnon). O minimalismo, por sua vez, convive com poemas de maior fôlego, mostrando que as extensões rítmicas do mundo são múltiplas e que o pulmão precisa de mais ar para sobreviver aos momentos mais concentrados. É o mundo pulsante, múltiplo, diverso em si mesmo que assume sua presença nas composições e, assim, é novamente aberto por elas. E neste mundo aberto (e também fechado em sua complexidade referencial de abertura) ora há "música" às vezes. Uma "música" que chega a flertar com a dos simbolistas, mas não atinge a situação de evanescência, que não é o intuito da poética aqueiviana.

A poesia de Marco Aqueiva é isto: pau é pau, pedra é pedra, mas também pau é pedra ou pedra é pau, e a pedra é azul. A pedra azul. Por esta nem Novalis nem João Cabral esperavam. É a diferença contemporânea, enfim, fazendo a diferença na floresta de símbolos das tradições.

/////