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segunda-feira, 29 de abril de 2013

O tecelão Nilto Maciel (Webston Moura)



Ler é um prazer invulgar e um ato de cidadania. E se pensarmos isto num país onde existe a carência de 130 mil bibliotecas públicas, além de outros desníveis nas áreas de educação e cultura, então ler é até um ato revolucionário, uma subversão. Se tal ato é um prazer, e desse prazer consta a suave alegria vivida em diferentes gradações, melhor ainda o será. E é assim que dou fé de valia (com alegria) ao fiador (tecelão) de palavras Nilto Maciel, cearense de Baturité, mestre específico da variedade literária do conto e provocador tenaz em sua crítica literária.


Como todo bom contador de histórias, o óbvio é que sobre a sua própria (recortes, ao menos) ele seja fiel a um bom trabalho. Assim é que nos dá a alegria de um livro de memórias, onde desnuda ao menos um pouco de seu cotidiano de escritor no decorrer dos anos.

Em Menos vivi do que fiei palavras: diários de literatura (Penalux, 2012), Nilto abre ao público sua falas secretas (íntimas) num relato autobiográfico acerca de suas batalhas entre livros, sonhos, alegrias e desilusões. Não se trata, entretanto, de algo como um relatório formal, mas, sim, de crônicas cerzidas com a graça, a “eletricidade” e a ironia que lhe são próprias já noutros escritos, mesmo quando tratam de assuntos complexos e até tristes, pesarosos.

São 43 crônicas que vão de 1986 a 1992, onde o foco principal já está claro a partir do subtítulo (“diários de literatura”), não sendo, pois, uma autobiografia factual-cronológica “pura e simples”, mas as impressões e lembranças de um escritor com seus inevitáveis afetos de homem, de pessoa, a parecer até uma ampla oralidade dada em mil e uma noites a curiosos amigos, unidos todos sob um céu acolhedor e em redor de uma agradável fogueira num vilarejo imaginário de um país distante.


Ao leitor interessado numa leitura leve, cheia de momentos comoventes e outros até engraçados, eis um livro muito recomendável. Como documento de parte da vida de um escritor que não consta dos catálogos das grandes editoras brasileiras, embora, por seu valor, o pudesse, vale ler pelo respeito e pelo carinho que podemos e devemos ter em defesa desses nossos conterrâneos nordestinos, bravos protagonistas de feitos por demais louváveis, ainda mais em campos muitas vezes desamparados e solitários como esse da literatura. Quem sabe se para quem ainda não leu Nilto Maciel este livro não seja exatamente a porta de entrada? Quem sabe? Fica então a minha humilde e afetuosa sugestão.


(Kaya nº 1, abril de 2013 – revista de atitudes literárias – http://kayarevistaliteraria.blogspot.com.br/


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