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quarta-feira, 15 de maio de 2013

Escolhas de Enéas Athanázio (Nilto Maciel)



(Enéas Athanázio)


Vez por outra, converso (ou brigo) com Fábio Lopes. Ou vem à minha casa ou vou ao apartamento dele. Somos quase amigos (e também quase inimigos), há alguns anos. Não alcançamos o grau superior da amizade e talvez nunca isto aconteça. Também ainda não descemos ao pátio escuro da derradeira luta: o duelo. Divirjo de alguns conceitos políticos por ele defendidos. Na mais recente discussão, eu lhe dizia: “Os adolescentes discordam de seus pais e das pessoas da idade destes e, por isso, são capazes até de matá-los; assim mesmo, os amam, gostam (às escondidas) do que eles gostam (e os admiram) e serão seus imitadores nos próximos dez anos e pelo resto de suas vidas”. E dava exemplo: todo adolescente brasileiro (normal) dos anos 1960/70 preferia rock, guitarra, Beatles, e detestava samba, pandeiro e Nelson Gonçalves. Dez anos depois, aqueles meninos (quase todos) transformaram o rock em samba, a guitarra em bandolim e passaram a escutar Nelson Gonçalves, Orlando Silva, Vicente Celestino.    
             
Na réplica, Fábio me chamou de idiota. Eu quis esmurrá-lo e tachá-lo de cretino, maria-vai-com-as-outras, ruminante, etc. Contive-me, fui ao banheiro, lavei o rosto e as mãos, com sofreguidão. Ouvi uns respingos de voz: “Desculpe, não quis ser grosseiro”. No regresso à sala, acolhi tentativas de substituição do substantivo “idiota” por palavreado quase sem sentido: “inventor contumaz de teorias absurdas, entretanto dignas de análise, talvez até em simpósios de filosofia...”. E, enquanto discursava, apanhou a brochura por mim explorada havia pouco. Ao se acomodar no sofá, após a chegada, perguntara: “Que gênio você está tentando decifrar?” Eu respondera: “No momento, nenhum; acabei de me deliciar com uma seleta de ficções”. E, assim, Enéas Athanázio serviu de pacificador e salvou meu quase-amigo de ser chamado de filho-da-puta e outros qualificativos desse tipo.

Enquanto folheava o volume, matraqueava, como se quisesse me impedir de usar a voz. E parecia ter conhecimento anterior dele, tão desenvolto se mostrava: “Contos escolhidos? Aprecio esse tipo de publicação. Nem sempre os escolhidos são os melhores, mas, se o sujeito sabe redigir, toda antologia dele tem qualidade. O artefato está bem apresentado: boa fonte, abas em letras escuras sobre fundo branco. Quem será esse Mário Pereira?” Tomei-lhe a palavra: “Não sei. Só conheço o autor do texto da quarta capa, o singular Péricles Prade”. Deixei-o (meu quase amigo) a passar as folhas do impresso e me pus a comentar as estórias, para não lhe dar vez de se pavonear. Ele terminaria por falar de si mesmo, dos milhares de livros manuseados ao longo da vida, de nomes totalmente desconhecidos por mim. Quando me telefona ou encontra, vem com novidades: “Comprei umas preciosidades de Gjellerup”. Eu me espanto: “Quem?” Ele ri, a zombar de mim: “Você não conhece Karl Adolph Gjellerup?” Abaixo a cabeça, derrotado. “Emprestarei um a você”. Deve se sentir vitorioso e superior a mim.

Entreguei-me a comentar meu patrício meio desconhecido aqui (como a maioria de nossos homens de letras): “Enéas é um artesão da palavra. Conheci-o desde os tempos da revista O Saco. Eu me iniciava como redator; e ele também”. Examinei de viés o convidado: risinho de deboche no canto da boca. Não me abati: “Você já o conhecia?” Na bucha, respondeu: “Não li nem lerei”. Tive ímpetos de lhe lançar, com força, o tomo de encontro às fuças.

Esqueçamos Fábio Lopes, por um minutinho. Quero me referir ao amigo catarinense e seu “novo” pergaminho.

O primeiro relato do compêndio é “São Simão”. Reproduzo um parágrafo, para dar ao leitor ideia de como escreve esse brasileiro: “A meio do campo, no topo de uma coxilha, a casa pintada de azul tinha aspecto solitário, com os vidros rebrilhando ao sol. Ao lado, um umbuzeiro enorme, de folhas verdes e cachos amarelos, espalhava sobre o solo vermelho a raizama grossa a oferecer assento há decênios a quem por ali andasse, já gasta pela fricção de corpos de várias gerações”. É este o estilo de Enéas: uso frequente de termos e expressões regionais, o ambiente sulista, narração simples e linear. Vejamos este trecho: “Todas as tardes vinha o Major Lica matear na varanda fronteira, espraiando o olhar carrancudo pelos seus domínios, enquanto sugava pachorrento o bocal dourado da bomba castelhana”.

Enéas Athanázio projetou descrever sua terra, narrar histórias de sua gente e reproduzir a linguagem dela. Sem se fechar como caracol, sem deixar de conhecer o universo da literatura e das culturas. E não se fechou: conhece o Brasil (viajor de alta rotatividade) e os costumes e as literaturas dos diversos povos de nossa pátria. Não quis, todavia, ser urbano ou metropolitano, em sua arte. Por isso, permaneceu em sua terra. Nasceu em Campos Novos, Santa Catarina, viveu em outras cidades de sua região (na capital também), sem se trancafiar em si, sem desconhecer os outros. E assim nos fizemos amigos, eu em Fortaleza e, depois, em Brasília, e ele no Sul. Esse modelo de vida e de fazer literário é mostrado, às claras, em seus escritos, sem medo de ser chamado de bairrista ou regionalista. Mário Pereira, nas abas destes “contos escolhidos”, afirma: “a obra ficcional de Enéas brota da terra. Suas raízes estão entranhadas nos campos do Planalto Catarinense, com suas gentes, costumes e falares característicos, o que a encaixaria na moldura do regionalismo sulino”.

As narrativas de Enéas não são espichadas demais, feito novelas. Pelo contrário, são curtas. Porém, não podem ser ditas curtinhas, minúsculas. São de tamanho comum ou médio. “Formiga correição”, divulgada n’O saco, é antológica. Fazer leitura desta coletânea é conhecer Santa Catarina e seu povo. E também esse narrador meticuloso, cuidadoso, quase perfeito. Equivale a realizar passeios demorados pelos campos do Sul: “A matrona, numa tarde chuvosa, avistou da varanda o compadre Zé Pedro que chegava a cavalo. Abria o portão com o cabo da soiteira, a chuva escorrendo do chapéu desabado”. Parece-nos estar a ver aquilo.

Contos escolhidos servem para marcar os 40 anos da trajetória literária de Enéas Athanázio e é composto de “62 histórias curtas produzidas ao longo de quatro décadas de dedicação ao ofício de escritor” (esclarece Mário Pereira). O contista se iniciou com Peão negro, em 1973. Seguiram-se outros opúsculos de ficção curta. Contudo, não se limitou a inventar ou reinventar o seu mundo rural: aprofundou-se também na pesquisa de outras literaturas, como a de Monteiro Lobato (de quem é admirador infatigável) e expôs, aos olhos dos leitores, ensaios, além de crônicas, contos juvenis, perfis biográficos (Gilberto Amado, Joaquim Inojosa, Godofredo Rangel e outros ficcionistas brasileiros).

Fábio Lopes ainda quis voltar ao assunto predileto dele: literatos estrangeiros, sobretudo aqueles mais desconhecidos por mim. “Tenho uma edição de Karl Gjellerup, em espanhol: El peregrino Kamanita’. Se você tiver interesse...

Fortaleza, 5 de maio de 2013.

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