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segunda-feira, 6 de maio de 2013

Oh! que saudades que tenho de Lolita! (Nilto Maciel)





(Carta a Fernanda Carenina)

Como vai você, minha filha sulista? Como está a vida neste começo de semana? Márcio melhorou? As meninas estão bem? Ainda não comprei Rifocina. Só a vendem sob receita. Sim, tenho tido cuidado com a porta e o vento. São sempre traiçoeiros. Por trás de cada porta há um fantasma a nos espreitar. Aos pés dos ventos voam bactérias, vírus e outros bichinhos letais. As iscas para pegar baratas distraídas parece ter perdido a eficácia, pois as vejo (as terríveis e pérfidas periplanetas noturnas) soltas por aí, como se nunca lhes tivesse eu causado o menor dos sustos.

        Ontem aproveitei o feriado para almoçar fora (no shopping), ver o Barcelona ruir e iniciar a leitura de mais um compêndio. Deu-se à noitinha, embora dias passados eu o tivesse folheado. Intitula-se As aventuras do professor Closeau (ficção e ensaio crítico da moral erótica moderna), de Altere Aretino. Já ouço a sua recriminação: “Pai, cuidado com essas leituras fora de época”. Sim, passou o meu tempo de Petronius Arbiter, Sade, Henry Miller, Nabokov. E também do Bom crioulo, d’O Ateneu, d’A mulher do caixeiro viajante (descoberto em casa, escondido num armário, lá pelos meus quinze anos).

A estória de Aretino me chegou às mãos por vontade de meu amigo Dimas Macedo, esse poeta magnífico, esse crítico elegante e sofístico. De início, desconfiei no nome do autor. Pareceu-me inventado (como dizem certas pessoas, quando se deparam com nomes “desconhecidos” ou de feição esquisita, como Jotacá Brasiliense da Silva Pereira, meu vizinho em Taguatinga, anos 1980, época de descobertas maravilhosas: o poeta Salomão Sousa, por exemplo). Volto ao impresso: suspeitei também do nome do personagem do título, certamente protagonista do romance (se fosse romance). Tentei me lembrar de outro Closeau. E só me veio à mente aquele inspetor dos filmes da Pantera cor de rosa (que não são do meu tempo de menino). Primeiramente imaginei (e ainda estou a matutar) se se cuida de obra do próprio Dimas. Por que isso?

No prefácio (assinado por esse inolvidável filho de Lavras da Mangabeira) encontrei esta preciosidade: “O autor deste instigante romance de costumes se esconde, infelizmente, sob um pseudônimo, pois não acha seguro que se divulgue abertamente o pensamento de Closeau”. Esclareciam-se, pelo menos, duas das dúvidas: gênero (romance) e autoria (em parte). Na sequência, o prefaciador presta mais um esclarecimento: “E dessa circunstância, é certo, faz o tradutor deste livro uma certa aura de mistério, que funciona para o leitor como uma segura técnica de romance, levando-o a duvidar se Altere é um alter ego de Closeau, o autor da versão primitiva do relato ou ainda o organizador da edição que ora se dá à estampa”. E a outra dúvida volta à tona: Quem é Closeau?

Segundo Dimas Macedo, que sabe tudo e mais um pouquinho, “não se trata de relato histórico, acredito. Trata-se de ficção e de memória”. A peça se completa em vinte e três capítulos, de “Descortinando Closeau” até “Conclusões filosóficas closeaunianas” ou das páginas 21 a 97. A segunda metade do volume é preenchida pelo original francês: Les aventures du professeur Closeau.

Perdoe, filha, o ter me dedicado até aqui à publicação, esquecido de você e sua família. E de mim também. Pois esta é apenas uma resposta à sua mensagem de ontem. Sim, tenho me cuidado, com alimentação saudável e variada, que recursos não me faltam. Vez por outra, excedo-me em sorvetes e outras guloseimas. Talvez seja isto explicado pela vontade inconsciente (ou será consciente?) de ser menino de novo. E, se assim ocorresse, você teria um menino-pai. Márcio não iria gostar nada disso. Maria Vitória e Manuela teriam ciúmes. Os fantasmas não deixariam de existir, porque são tão antigos quanto o homo sapiens. E as baratas? Estas, mais antigas ainda do que aqueles, continuariam nojentas.

Peço outras desculpas: quero falar ainda um pouquinho da brochura erótica. Não comentarei o enredo (que demandaria mais tempo e dedicação). Ficarei na linguagem. Parece-me longe da perfeição ou, mesmo, do aplauso ou do elogio. No primeiro parágrafo deparamo-nos com esta preciosidade: “O professor Closeau, por mais que fizesse, não conseguia superar o inquietante estado d’alma que o absorvia”. Esse “inquietante estado d’alma” é tão antiquado quanto o mais conhecido chavão. Tem cheiro de fraldas molhadas: “uma vida intensa de amor”, “desejos irrealizados”, “um ser cheio de sofrimento”. Esse blá-blá-blá causa até desânimo. E mais adiante: “um cinquentão eloquente e agradável”. Pouca narração, muita descrição.

Vejamos o início do segundo capítulo: “A vida reservara a Closeau alguns momentos gloriosos”. Não lembra a linguagem de novela de rádio? Ou fotonovela? Quase ninguém hoje sabe desses tipos de “arte”. E se o romance de Aretino tiver sido escrito nos anos 1950? Nesse caso, peço perdão pela impertinência, pela rabugice, pelo mau humor.

Minha filha, desculpe esse palavreado todo, esse moralismo idiota. Pois é justamente esse moralismo que o professor combatia. E ao qual Dimas Macedo se mostra atento: “Impressionante, contudo, no caso deste livro, é a constatação de que a escrita que aqui se veicula se mostra toda ela carregada de eroticidade e se faz contra os princípios da moral e em defesa de uma estimulante estética do desejo”. Estou sendo moralista, atrasado, jesuíta, medieval. Sinto-me em contradição, pois sempre quero ser amoralista, moderno, anticristão e antirreligioso. Entretanto, não posso concordar com estas outras palavras de Dimas Macedo: “Detenho-me na sua linguagem literária de viés estético requintado e de criterioso acento polifônico: vozes por certo plúrimas de quem neste livro faz do pensamento por imagens e do fluxo da narrativa descontinuada um dos grandes achados pela veiculação da arte literária”. Prefiro Choderlos de Laclos, de quem li as Relações perigosas, ainda na adolescência. Ou seja, Altere Aretino está longe de ser exemplo de cultor de “linguagem literária de viés estético requintado”. Não é só exagero, é inverdade. No entanto, para quem ainda não leu Sade, Laclos, assim como Petronius Arbiter, Henry Miller e Vladimir Nabokov (oh! que saudades que tenho de Lolita!), seria bom começo. Para ir se acostumando ao prazer de ler e também de imaginar delícias.


Encerro esta, Fernanda, com um beijo de saudade em você, nas meninas e um abraço (assim meio de longe) em Márcio. Que ele melhore da coluna, você se afaste da alergia e as pequenas brinquem muito sem machucaduras preocupantes. Desfrutem todos os bons ares de Itapema, Bombinhas, Porto Belo e estas belas praias de Santa Catarina. Se se encontrar com Pedro e Tânia Du Bois, dê-lhes fortes abraços. 


Fortaleza, 2 de maio de 2013.

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