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domingo, 26 de maio de 2013

Thomas Mann e o romance (Franklin Jorge)





Disse Borges que o romance, gênero literário relativamente recente, não sobreviverá ao conto, forma perfeita e tradicional de narrativa já conhecida e admirada pelos povos da antiguidade. Creio, porém, que Borges se equivoca ao insistir numa discussão ociosa e num certo sentido despropositada, pois, mais que o gênero é a forma – inclusive na apresentação dos conteúdos – que surpreende e cativa.

O romance, como gênero, satisfaz plenamente àqueles leitores que desejam ter tudo em um único volume, como ocorre na obra de Thomas Mann, um autor, como Proust, do tipo enciclopédico. Seus livros, por isso mesmo, constituem bibliotecas portáteis, pela pluralidade de conhecimento que proporcionam ao leitor.

É verdade que Thomas Mann elevou o romance por excelência um gênero burguês a culminâncias e profundidades que em qualquer época serão difíceis ultrapassar e superar. Neste sentido, terá decretado a morte do romance ou pelo menos terá tornado em mera retórica toda a produção romanesca posterior ao seu exercício de criação.

Alguns autores terão se esforçado para inová-lo, a exemplo do que ocorreu com a nouvelle vague francesa, mas, como gênero, o romance, assim como o conto, não admite inovações. Um romance que contenha elementos estranhos à sua forma original, transforma-se automaticamente noutra coisa e está fadado ao fracasso. A obra de Robbe-Grillet e Nathalie Serraute exprime essa verdade elementar.

Subsidiado por uma vasta e profunda cultura humanística e filosófica, cada vez mais onerosa num mundo que valoriza a informação em detrimento do conhecimento, a arte digestiva em lugar duma arte que incita ao pensamento, Thomas Mann está presentemente, como bem o disse Marguerite Yourcenar, um pouco fora de moda. Mas, em qualquer época, sempre há de ser lido e valorizado por aqueles leitores que apreciam as obras pacientemente elaboradas e recusam o picadinho anódino e pasteurizado, produzido em grande escala pela indústria cultural.

É um clássico e, como tal, pode ser lido e apreciado em qualquer época, sob qualquer tirania do gosto comum, pois contém sob uma forma correta e satisfatória o recheio metafísico que lhe assegura uma permanente atualidade. Suas longas e às vezes monótonas digressões sobre a arte filosófica, especialmente abundantes em suas obras mais importantes, entre as quais “A Montanha Mágica” e “Doutor Fausto”, desencorajam apenas o leitor superficial que se compraz em “matar o tempo”, usando a leitura como uma arma mortífera.

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