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domingo, 30 de junho de 2013

O sertão de Riobaldo – 1 (Enéas Athanázio)





Entre os mais célebres personagens da literatura nacional está, sem dúvida, Riobaldo Tatarana ou Urutu Branco, o narrador de “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa. No prolongado relato de suas vivências de jagunço-filósofo, ele faz desfilar impressionante e variada galeria de figuras e personagens, muitas delas de nomes estranhos, criadas pela inesgotável imaginação de Guimarães Rosa. Algumas são fugidias e desaparecem sem deixar vestígios; outras, ao contrário, vão impondo sua personalidade e permanecem atuantes até o fim do romance, muitas vezes em posição de destaque.

          Logo nas primeiras páginas o leitor topa com um Jisé Simpilício que nada teria de extraordinário, não fosse o nome, a não ser o fato de que “qualquer daqui jura ele ter um capeta em casa, miúdo satanazim, preso obrigado a ajudar em toda ganância que executa; razão que o Simpilício se empresa em vias de completar de rico... por isso dizem também que a besta pra ele rupêia, nega de banda, não deixando quando ele quer amontar” (p. 8). Embora preso contra a vontade, o pequeno satanás não se nega a ajudar nas malandragens de Simpilício, tanto que ele já está se parando de rico. Mas montar, isso não! Riobaldo não explica que satanás seria esse, mesmo adiantando que seria miúdo, pequeno, mas não tão pequeno que não pudesse ser montado. Diante disso, afastada fica a hipótese de ser o saci, pequeno demais para servir de montaria. Fica o mistério.

Não tarda muito e o leitor se depara com a sinistra figura do moço Jazevedão, delegado profissional, que o narrador encontra num trem. Viajava acompanhado de um secreta e “eu bem sabia os dois, de que tanto um era ruim, como o outro ruim era.” Corpulento, transpirava bruteza e maldade, não ria e nem sorria, “mas a gente via sempre dele algum dente, presa pontuda de guará.” Mais chocantes ainda eram seus pés e as solas dos sapatos. “Solas duras grossas, dobradas de enormes, parecendo ferro bronze. Porque eu sabia: esse Jazevedão, quando prendia alguém, a primeira quieta coisa que procedia era que vinha entrando, sem ter que dizer, fingia umas pressas, e ia pisava em cima dos pés descalços dos coitados. E que nessas ocasiões dava gargalhadas, dava...” (p. 18). Enquanto fitava o preso por cima, com aqueles olhinhos miúdos e maus, esmagava os pés do coitado com aquelas patas imensas, calçadas com sapatos de solas descomunais. E ria, ria. Método infalível para fazer o preso confessar até o que não sabia! 

Mais adiante acontece um encontro inesquecível. Depois de cavalgar por três dias, com as pernas duras e doloridas, Riobaldo recorda: “Ao que, num portal, vi uma mulher moça, vestida de vermelho, se ria – ‘Ô moço da barba feita!’ - ela falou. Na frente da boca, ela quando ria tinha todos os dentes, mostrava em fio. Tão bonita, só.” Aproveitando a ausência de Diadorim, que vinha revelando ciumeira, ele entrou, tomou café coado pelas mãos dela, tomou refresco, limonada de pêra-do-campo. “Recebeu meu carinho no cetim do pelo – relata, – alegria que foi, feito casamento, esponsal.” (p. 33). Era a moça Nhorinhá, meretriz com o consentimento da mãe, uma velha arregalada de nome Ana Duzuza, “adivinhadora da boa ou má sorte da gente” e que sabia das atividades da filha, desde que fosse com homens de fora do lugarejo, jagunços ou tropeiros (idem). A intenção, parece, seria a de evitar falatórios. As mulheres do sertão, na época, deveriam ser desdentadas, tanto que o detalhe dos dentes perfeitos da moça nunca foi esquecido, apesar dos anos passados. Assim como Riobaldo jamais esqueceu dela, Nhorinhá também nunca o esqueceu, tanto que lhe enviou uma carta que levou oito anos para chegar ao destinatário, depois de muito perambular pelos Gerais. Quanto a Ana Duzuza, mãe da moça, esteve jurada de morte sem que se saiba a razão. É mais um dos mistérios que Guimarães Rosa semeou em sua obra. Para sorte dela, porém, o crime nunca foi executado.
      
(continua)


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