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segunda-feira, 3 de junho de 2013

Oito momentos de João Carlos Taveira (Nilto Maciel)





É-me quase impossível elaborar análise longa de pequeno conjunto de versos. Não consigo passar de dez linhas. Tenho conseguido essa façanha com narrativas de tamanho médio (cerca de cinco páginas de livro de formato tradicional). Dei-me hoje, porém, tarefa de possível realização: examinar oito diamantes. Por que esse número? Por que não oitenta ou a obra completa?

Deixemos de explicações: estou aqui para comentar oito composições de João Carlos Taveira. E por que esse poeta? Porque assim minha vontade (agora acredito em livre arbítrio) determinou. Refiro-me às safiras intituladas “A imposição do poema”; “Contemplação de Apolo”; “Navio fantasma”; “Profissão de fé”; “Teorema”; “Cantata para baixo profundo”; “Cavatina”; e “Sonata n.° 44, em mim menor”.
            
Taveira não pratica vocabulário “pessoal” ou “particular”, à maneira de alguns arquitetos de matriz universal: Augusto dos Anjos, Fernando Pessoa e Francisco Carvalho. Há outros, mas estes são singulares pelo uso mágico das cartolas e dos coelhos escondidos nas dobras da língua portuguesa e outras linguagens. Nos oito cânticos aqui escrutados, o poeta se centra em quatro pilares: vida/poesia, verso/vento, amor/amar, sol/luz.

O artesão mineiro faz de vida (a palavra) talvez o ponto de partida para andanças poéticas: “A vida não deságua / em lisos acalantos?” A quem dirige a pergunta? A si mesmo, aos deuses, a possíveis interlocutores, à amada? Noutro canto vem uma resposta: “uma vida que se fez do espanto”. Mais adiante rememora suas águas, seus acalantos, seus espantos: “Passam-se os anos / e a sombra cresce / nesse interstício / da vida breve”. Há então o surgimento de outro vocábulo pendular na forja de Taveira: “sombra”. E onde está o vento na poesia (vida) desse mago? Está na “sua (do hino) natureza de vento, / sua estrutura de nada”. Não o vento da natureza (ou dos mitos). A referência é à natureza de vento da palavra elaborada e posta em ritmo. Seria isso invisibilidade, mistério, força oculta.

Veja-se o aparecimento de outro “elemento” essencial na arte (vida) de Taveira: a linha, elaborada com esmero, a sugerir traço com pincel milimétrico. Pois o pintor de versos é feito de poesia ou dela se faz, continuamente. Ou burila rubis para se fazer pessoa, ser. Dá-se “a imposição do poema” (título de um salmo, assim iniciado): “Dissimulado, / o poema se impõe: / aceso o coração, / iluminada a rua, / o poema dá as caras / nas frestas da janela, / põe as manguinhas de fora, / cospe no prato” (...). E a isso chamamos amor: o tecedor de sons ama a poesia, as odes, seu ritmo, sua música ou musicalidade: “Amar o metro e a música / na construção do verso, / e a música do verso / na palavra incendida”. E só então aparecem outras substâncias vocabulares: o sol e a luz (“um sol sem luz”) e a sombra (“a sombra dos dias”).

O vocabulário dos oito bordados de Taveira deve muito à música. Algumas cantigas trazem títulos oriundos da terminologia musical: “Sonata n.° 44, em mim menor”; “Cantata para baixo profundo”; “Cavatina”. Para o leitor imaturo haverá certa dificuldade em entender tal linguagem. Na verdade, a poesia escrita, o afresco literário, pelo metro e pelo ritmo está sempre próximo da arte das musas. Além disso, Taveira realiza a poesia da poesia: o quadro silábico, limites e projeções espaciais, a frase melódica, a palavra, o verbo, a sintaxe, a língua, a rima, a metáfora, a ambiguidade, o enigma.

Embora só se possa aludir a poesia e a poema, se no contexto estiver o fingidor, é possível e preciso também lembrar o modo de se fazer o polimento de uma pérola ou a estrutura das matérias (palavras, sons etc.) por ela constituída. E assim vemos em Taveira outros símbolos (vocábulos essenciais). A começar por sol/luz: “A luz do sol / se faz ausente / rente à agonia / do ser-não-ser”. Sóis, luas, luzes que levam a sombras: “Passam-se os anos / e a sombra cresce / nesse interstício / da vida breve”.

Seja com luz, seja sem ela, o bordador de ritmos canta a vida, mesmo feita de angústia e dor (o semantema se esconde em “dormir” e “dormência”): “Melhor não fora o porto / que a vida oferecia?” Sabe (sente) também o vate brasiliense ser a vida feita de partidas ou de partires. Vejamos as metáforas contidas em “barca”, “navio fantasma”, “velas retorcidas”, “velas desfraldadas”. E, por mencionar barcos e velas, por que não chegar às águas? Acaso nem serão mares e oceanos; talvez apenas prantos: “E não floresce a pedra / nas águas de seus prantos?”

Além das águas, há o abismo, a guardar a sombra e seus mitos (metáfora ou arquétipo, no sentido de imagem primordial): (...) “o centro / do abismo de existir, / fora de si e dentro”. No entanto, a morte não se mostra claramente nesta antologia de Taveira. Refiro-me ao vocábulo. Lê-se apenas a metáfora da morte: a dor ou as dores (“nos vendavais da dor”), a partida (“Que sou eu para a poesia? / Um ser oblíquo / a contemplar o cais, / sem nunca ter partido?”). Se há partida, há busca (seja de si mesmo, seja da poesia): “Buscar e amar o som / dos hiatos e, ao fim, / dar contenção ao ritmo / com que constróis o verso”. Busca do som, da poesia, da música. Ou da amada e do amor carnal/humano. Leia-se o belo e cadenciado “Cavatina”: “O amor, senhora, / fere no peito / feito cutelo / de vil carrasco”.

E por onde transitam o poeta e o homem? Que paisagens habitam? Até onde conseguem ver? Apenas ruas, janelas, portos, cais e sais (sem essa rima), papéis, mãos. Apesar disso, Taveira não se afasta do ser humano ou do homem brasileiro e mineiro. E se vale de expressões do dia a dia, sem pejo de parecer prosaico: “manguinha de fora”, “cuspir no prato”. Em contrapartida, sabe onde nasceram os mitos e se exercita com autoridade por seus meandros. Aqui e ali, encontram-se vocábulos a eles relativos: Esfinge, Apolo, éter, alquimia, semideus etc. Esse paganismo, porém, não impede o surgimento do cristão, sobretudo em “Cantata para baixo profundo”, autêntica oração para qualquer adepto do cristianismo rezar e repetir.

Para não dizerem que não falei de formas, dedicarei duas ou três palavras à carpintaria taveiriana. O feiticeiro de Caratinga é mestre no emprego de rimas, sejam elas raras, auditivas e visuais (“de que sonhos se nutrem / a ânsia dos navios, / a fome dos abutres?”), sejam as mais simples: ricas, pobres, agudas, graves. E o faz sempre com muita naturalidade! Somente versejadores menores ou menos experientes violentam a gramática, atrás de rima, a qualquer custo.

Taveira é cultor de sonetos e de outras formas fixas. Haicai, por exemplo. Entretanto, não os há na pequena antologia ora comentada. Há, sim, e com muita qualidade, a prática do fio poético medido, da métrica regular, da estrofe perfeita, além do verso branco e livre. Tudo com muita contenção verbal, quer nas peças debuxadas em quadras (de quatro, seis, sete sílabas), tercetos e outras modalidades estróficas, quer no verso livre.

Entre os poetas brasileiros surgidos (publicados) nos anos 1980, Taveira se situa entre os melhores (e aqui não cabe citar outros nomes, por falta de espaço). Estreou em 1984, com o volume O Prisioneiro. Seguiram-se Na Concha das Palavras Azuis, 1987; Canto Só, 1989; Aceitação do Branco, 1991; A Flauta em Construção, 1993; e Arquitetura do Homem, 2005. Sou suspeito para fazer homenagem a ele, pela amizade duradoura, fruto de convivência em Brasília, especialmente no ambiente da Associação Nacional de Escritores (seja em bares, onde nos reuníamos antes da construção da sede, seja em livrarias, na Editora Thesaurus e outros ambientes literários) e da redação da revista Literatura, da qual fomos editores, por largo tempo. Sou suspeito, sim, porém, nunca me pejo de “criticar” ninguém, sejam eles amigos, desconhecidos ou simples adversários ideológicos. Se forem amigos e não gostarem de meus escritos, apenas lamentarei a incompreensão deles. Se desconhecidos, não me lastimarei. Se rivais políticos, que se danem.

Fortaleza, 23 de maio de 2013.

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