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quarta-feira, 31 de julho de 2013

Cordel do Povão Misterioso (W. J. Solha)



(inacabado, mas curioso, como origem de “Esse é o Homem”)
  









O povo da Paraíba
tem um mistério grandioso:
como é que de tanta pedra
mana tal leite cremoso?
Tal brilho de inteligência
parido em plena indigência
lembra invenção de Trancoso!

O analfabeto convive
com o poeta verboso.
O subnutrido discute
co’economista famoso.
Da caatinga horrorosa
brota uma prosa formosa,
no estilo mais caviloso.

Mortalidade infantil
não toca em predestinados.
É como se a Natureza
fizesse um jogo de dados:
tantos por cento pra Morte,
tantos por cento com sorte
de terem brilhos dourados.

A podridão fez a glória
do grande Augusto dos Anjos.
O povo adora seus versos
em que urubus são arcanjos.
A complicação da palavra
fascina pela sua lavra
nos mais estranhos arranjos.

Estranhos também parecem
os versos arrevesados
que numa voz cavernosa
por Zé Ramalho cantados
aos ignorantes deslumbram
e aos mais ilustres alumbram
pelos seus sons desusados.

Veja que monstros gaiatos
retrata o Sérgio Lucena.
Miguel dos Santos vê outros
que seus pincéis põem em cena.
Artistas maravilhosos
antenam-se nos pavorosos
delírios que a noite encena.

E as velas vão sendo acesas
no altar cristão, no terreiro.
As curas comemoradas
na Universal, Joazeiro.
O povo manobra a fé,
e a leva pro lado que quer,
só isso é bem verdadeiro.

Nunca se viu tanta igreja
se erguendo neste país,
nem violência tão grande
- parecem até dois brasis.
O paraibano, coerente,
sempre entre crente e descrente
sabe que está por um triz.

Misterioso, se lembra
do catecismo, que diz:
“Se batem na tua face
dá outra face pro bis”.
Se benze, todo respeito
e bate no próprio peito,
mas não vai dizer “Isso eu fiz”.

“Não vos preocupeis - é o que dizem -
com o que será o amanhã.
Deus vos dará pela tarde
o que vos faltou de manhã”.
Ninguém, porém, é criança
de não botar na poupança
o que lhe custou tanto afã.

Do mesmo modo é que o povo
de sua História desdiz.
De Pedro Américo fala
com grande orgulho e feliz.
Mas sabe que aquela história
daquele quadro de glória
não vale um cisco de giz.

Que independência podia
gritar o Pedro Primeiro?
Bom português como era,
seria um ato traiçoeiro.
Tanto que, pleno e farto,
tornou-se o Rei Pedro Quarto,
de Portugal o herdeiro.

Zé Américo escreve um livro
que deixa o Sul abismado.
De tanto que é original,
faz seu autor consagrado.
“A Bagaceira” é o primeiro
romance bem brasileiro,
depois foi muito imitado.

O caso que o livro conta
já fora, porém, contado.
Ninguém, porém dera conta,
nem o escritor inspirado.
Da trágica Dinamarca
saltou de dentro da arca,
o drama aqui reiterado.

Dois anos após lançar
 a sua célebre obra,
o cabra vive a tragédia
em que  sua arte desdobra.
O rei é o seu presidente,
assassinado inocente
de sua triste manobra.

A Paraíba se racha
na guerra civil geral,
Metade dela é perré,
metade é liberal.
E nesse ser ou não ser
e nesse Deve e Haver
contabiliza o seu mal.

Outra das glórias da terra
é o grande Chateaubriand,
pra uns genial empresário,
pra outros, feroz Calibã.
Tvs, museus e jornais
tirou dos ricos banais,
e este Brasil de amanhã,

O paraibano bem sabe
que é o Menino de Engenho.
Que é o Papa-Rabo rebelde,
Que é o Mestre Amaro no empenho.
Que é um cangaceiro doído,
foi por Zé Lins concebido,
de Santa Roza, um desenho.

É o Ariano Suassuna,
fiel da Compadecida.
Vladimir, Walter Carvalho
filmando a terra sofrida.
O Bráulio Tavares brincante,
o Celso Furtado pensante,
Elba Ramalho querida.

É Zé Dumont, é Luiz Carlos
se está a brilhar no cinema.
É Zé Rufino, se a Arte
Contemporânea é o problema.
É Flávio Tavares pintando,
e ele é o Sivuca tocando,
em cada toque, um poema.

A multidão paraibana
sofre na seca, na estrada.
Esmola em rodoviária,
saqueia a cidade, esfaimada.
Pra necessidade primária
só mesmo a reforma agrária
pode dar fim e mais nada.

É a mesma gente que alcança
tecnológica fama,
tornando Campina Grande
um centro que já proclama
ao mundo inteiro a excelência
de sua grande eficiência,
dentro do seu panorama.

Existe um mistério enorme
nessa entidade, que é o povo.
Por isso o Evangelho ensina
que há sempre Cristo de novo
onde se juntam seus crentes
dando-se as mãos, conscientes
- só de pensar me comovo.

Por isso  Hobbes dizia
que o Estado é um ser poderoso,
um Leviatã invencível
que pode até ser monstruoso.
O somatório de todos
- sejam anodos, catodos,
gera o povão misterioso.

E é para ele que eu canto
este cordel bem tramado
e é para ele que eu passo
tudo que tenho pensado
pra ver se acordo o gigante
e o faço andar mais confiante
pro seu porvir... demorado.

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