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sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Ainda Thomas Mann (Franklin Jorge)




  
Dois ou três ocasionais leitores desta seção enviam e-mails comentando os dois textos que escrevi sob o titulo “O rei chorou...”. Uns querendo saber qual o livro de Schiller que lia Tonio Kroger personagem da novela homônima , no fragmento citado por mim. Outros, pedindo-me que escreva mais sobre o autor alemão que se tornaria um dos meus mestres secretos. Ah, quase me ia esquecendo de registrar aqui o desapontamento de alguém que, externando o seu ponto-de-vista, considerou tudo isso uma grande bobagem. Fazer o quê?

Tonio lia “D. Carlos” [respondo], peça de Schiller, autor que Thomas Mann começou a ler ainda menino e que se constituiu em uma dessas “lealdades juvenis” por toda a sua vida. Tanto que, um pouco antes de morrer, aos oitenta anos, foi o mais importante orador do sesquicentenário da morte do dramaturgo que em sua época rivalizou com Goethe, como um dos grandes patriarcas das letras germânicas. Empolgado pelo teatro, o futuro autor de “A Morte em Veneza” adorava Schiller, e aos quinze anos, numa carta a Frieda Hartenstein, uma velha ex-governanta da família, escrita em 1889, assina-se “Th. Mann, dramaturgo lírico”, ao comunicar-lhe que ganhara como presente de natal as obras do autor.

O instinto literário que o atraíra para Schiller me atraíra para Thomas Mann, desde que o li pela primeira vez. Através da leitura de sua prosa de fatura clássica adquiri o que ele chamaria de “consciência cultural”, ao entender o ato de escrever como a síntese de uma concepção de nobreza e não apenas uma mera forma de comunicação, um tema que obsessionava também ao seu irmão, Heinrich Mann, igualmente escritor – um grande escritor prejudicado pela notoriedade universal alcançada por Thomas, que, por isso, sentiu-se de alguma forma culpado por toda a vida.

Nenhum autor terá exercido sobre mim uma influencia mais profunda e mais constante. Como Heinrich, ele acreditava que os homens de letras que se abstinham de agir em favor da humanidade seriam os últimos a serem perdoados. Ambos acreditavam que são os homens de letras – escritores, ensaístas, jornalistas... – que definem a consciência cultural de uma época. Não admira que tenha se tornado o símbolo do “escritor-estadista”, cuja existência representativa, como a dos príncipes, serve de exemplo e modelo para os outros homens.

Distinguido com o Prêmio Nobel de Literatura em 1929, Thomas Mann está presentemente um tanto ultrapassado e esquecido. Escrevendo para leitores que buscam através das palavras o pensamento, ou seja, a essência filosófica e metafísica da existência, seu discurso tornou-se obsoleto e tedioso para os que têm pressa e nenhuma – ou quase nenhuma – exigência de qualidade que, como diria Lênin, há de estar presente em tudo, inclusive no romance, considerado por alguns o gênero burguês por excelência.

Para Thomas Mann, ao refletir sobre o estranho destino dos artistas, escrever é achar-se no pleno domínio de si mesmo. E, a admiração, um precioso e inestimável dom que devemos cultuar e desenvolver sem esperança nem temor, como uma forma de exercício espiritual, mas, igualmente como resistência a esta civilização de oportunistas e imbecis, pois como diria o próprio Mann em carta a Peter Mendelssonhn, o “mundo está escorregando, irrevogavelmente, para as trevas, a catástrofe e a barbárie”. E a um marinheiro americano que lhe pedira um conselho, em 1951, recomendou: [...] “O senhor deveria estudar as grandes obras da literatura mundial, e estudá-las com intensa admiração, a fim de poder criar alguma coisa de sua lavra...” Considerava um pré-requisito básico, para qualquer tipo de aprendizagem ou desenvolvimento político, a capacidade de admirar e olhar para o alto. Para o alto.

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